Resenha: A cabeça do pai – Denise Sant’Anna

A cabeça do pai / Denise Sant’Anna. – 1ª. ed. – São Paulo: Todavia, 2022.
por Juliana Teixeira de Freitas*
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A cabeça do pai é o livro de estreia – enquanto autora de ficção – da historiadora e professora Denise Sant’Anna. A ficha catalográfica nos diz que este é um romance de ficção contemporânea, mas talvez seja um livro de memórias, bastante autobiográfico, que segue o fio do adoecimento do pai (e da mãe) da autora/narradora.

O livro faz uma mistura de fluxos de consciência – no estilo Lispectoriano – e narração de causos de família. Isso o torna um pouco confuso, a princípio, e pode assustar leitores desavisados. Algumas horas me pegava pensando ‘mas quem ‘é esse?’, ‘pq ela está contando isso?’. Depois fiquei refletindo que essa confusão toda torna o livro bastante psicanalítico. Lê-lo é como seguir o fio de uma sessão de psicanálise, em que o paciente conta, em associação livre, tudo aquilo que passa em sua cabeça. ‘A cabeça do pai’, seria então, um livro sobre a cabeça da Paula, filha e narradora. Ela tenta digerir e compreender o adoecimento paterno. O que havia se passado ao sofrer um AVC hemorrágico, e porque raios ele segurava um parafuso nas mãos?
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Podemos dizer que há uma questão investigativa em torno desse parafuso, porém, essa questão é colocada totalmente enredada com outras, sem que seja algo ‘misterioso, ou ‘criminoso’. ‘E apenas um pequeno fato banal que salta aos olhos, e por isso tem grande importância enquanto questão pessoal e familiar; como as questões trazidas ao divã psicanalítico. Ẽ interessante notar que o livro se estrutura em torno de partes do corpo humano. Cada capítulo leva o nome de uma, o primeiro ẽ justamente sobre a cabeça. Os causos contados em cada capítulo fazem também referência direta a parte do corpo que lhe dá nome.

O trágico episódio paterno abre, então, uma janela para a memória afetiva, permitindo que uma série de indagações e apontamentos importantes sobre a velhice e o adoecimento possam ser levantados. O que era um livro sobre o luto de uma filha pelo envelhecimento do pai – e da mãe -, ‘e, amplificado, para um livro que trata sobre: a morte do corpo em vida, a medicalização da vida e a sexualidade dos idosos. Esses temas potentes – e até mesmo polêmicos – são colocados de forma direta, mas também balanceados com a graça das anedotas familiares.
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Esses causos que a narradora conta ao pai em seu leito hospitalar nos lembram não só da importância das narrativas familiares, mas de como são as palavras e a história que nos prendem ao fio da vida. Da mesma forma que um bebe humano só nasce a partir da linguagem parental, o indivíduo só pode permanecer vivo enquanto estiver ligado a esse fio, invisível e contínuo, das narrativas. Essa é a potência escancarada na obra de Denise Sant’Anna: a capacidade de contar a nossa história e a daqueles que compuseram conosco.

A cabeça do pai é um livro triste e sofrido. É um livro muito bem escrito, que deixa claro a potência de uma escritora, enquanto obra inaugural. Apesar de ser cru, realista e sincero, o tapa dado em nossa cara é delicado e certeiro, como aquele que um bom livro deve dar.
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FICHA TÉCNICA
Título: A cabeça do pai
Autora: Denise Sant’Anna
Arte de capa: Daniel Trench
Editora: Todavia
ISBN-10: ‎ 6556923370
ISBN-13: ‎ 978-6556923376
Formato: 13,5 × 20,8 × 1,1 cm
Páginas: 128
Ano de lançamento: 2022
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A autora
Denise Sant’Anna é historiadora, professora da PUC-SP e autora de diversos ensaios historiográficos. Este é seu primeiro livro de ficção.
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Juliana Teixeira de Freitas – foto © Acervo pessoal

*Juliana Teixeira de Freitas, é uma leitora voraz desde que se entende por gente. Gosta muito de estudar, ler e rasurar livros. Formada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense, divide seu tempo entre os livros, o exercício diário da psicanálise, as dores e delícias da maternidade, o uso desenfreado da cola quente e a adaptação ao clima canadense. > Siga Juliana @jutfreitas.psi

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