Raimundo Fagner lança álbum ‘Fagner – Bossa Nova’

Fagner grava clássicos da bossa nova no álbum que chega às plataformas digitais pela Biscoito Fino, com participações de Marcos Valle, Wanda Sá, Zeca Baleiro e Rildo Hora
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Por Julio Maria
Assim como o cearense merecia um álbum só de bossa nova, a bossa nova merecia sua voz.
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Nesse negócio de música existe relevância e existe abrangência. E são poucas as vezes na história em que esses dois universos se encontraram num mesmo artista. Se é relevante, cool, pode-se chegar a menos pessoas. Se é abrangente, pop, é grande o risco de ter o brilho perdido no vício das facilidades.
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Raimundo Fagner é um dos raros mediadores desses mundos, sustentando relevância para grandes plateias. E é isso que ele volta a fazer aqui, quando visita o mais clássico repertório da bossa nova com seu timbre territorial e reverente. Um gênero de expansão harmônica e vozes contidas que parece ir contra a própria essência do intérprete.
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Mas o álbum Fagner – Bossa Nova, que a gravadora Biscoito Fino lança nesta sexta-feira, dia 6, com produção, arranjos e violões de Roberto Menescal, idealização do próprio Fagner e direção vocal do grande produtor José Milton, serve para ‘rejustiçar’ a única expressão brasileira cool-pop da história, a bossa nova, com uma das vozes de maior personalidade do País.

Fagner ajusta-se. Contém a emissão, limita os vibratos, explora os graves e, ainda assim, dentro do cercado bem definido em que vive a bossa, encontra espaço para ser ele mesmo. Cada canção lhe traz uma memória dos anos seguintes à sua chegada ao Rio de Janeiro, precisamente no dia 23 de junho de 1971.
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Aos poucos, quando percebeu, Fagner já estava com todos eles: Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Nara Leão, Roberto Menescal e o amigo que o tirou dos dias mais difíceis levando-o para dentro de sua casa com Elis, Ronaldo Bôscoli. Caso único de um não bossa novista cearense a ser recebido pela turma como se fosse um deles.
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Chega de Saudade, de Vinicius e Tom, de 1959, foi uma sensação que nunca terminou. O jovem cantor talhado por seresteiros do rádio ficou em choque ao ouvir pela primeira vez a voz e o violão de João Gilberto. “Fiquei com essa música na cabeça por anos.” Em sua voz, ela segue radiante, mas fagneriana.

Canto de Ossanha, de Vinicius e Baden Powell, fica bonita com os gravões encorpados pelo tempo. A memória aqui é a do poeta Vinícius, falando para uma plateia inteira durante uma festa em Salvador onde estava, como diz Fagner, “todo o PIB baiano”: “Esse aqui vocês vão ter que aturar”, disse Vina, peitando os amigos reticentes logo depois do lançamento do disco Manera Fru-Fru, Manera, de Fagner, em 1973.
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Tereza da Praia, um dos sambas canções inaugurais e pré-bossa de Billy Blanco e Jobim, é compartilhada com o amigo Zeca Baleiro. E Fagner ainda se deslumbra por ter visto a dupla que a deixou eterna em 1954: Dick Farney e Lucio Alves. “Os dois estavam na TV Tupi, na Urca. Nunca me esqueci.”
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O Negócio é Amar, de Carlos Lyra e Dolores Duran, traz as tardes na Zona Sul do Rio e a genialidade do amigo Lyra, um dos mestres da melodia de sua geração. Samba de Verão faz Fagner falar de sua admiração pelo criador que divide com ele os vocais, Marcos Valle: “Ele tinha que estar nessa. Sou fã e amigo.”
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Da dupla Menescal e Bôscoli, entrou Rio em vez de O Barquinho. Fagner optou pela menos regravada para homenagear um dos maiores amigos que teve em sua vida, Ronaldo Bôscoli, morto em 1994. “Meu padrinho que me amava totalmente. Ele era único. Quando brigava com Elis, eu pegava o pequeno João Marcello no colo e saía da sala.”

Samba em Prelúdio, outra de Baden e Vinicius, é aberta com Fagner. Depois dos primeiros versos, ele entrega a interpretação para a voz soprosa e sentida de Wanda Sá. Não é uma canção fácil. A harmonia modula e as vozes se cruzam, mas a produção de Zé Milton faz tudo ficar suave. Cantar com Wanda foi uma ideia surgida no instante em que os dois se encontraram em um supermercado na zona Sul do Rio. “Estou fazendo um álbum de bossa nova, vamos?”, disse o cantor ao vê-la. E ela foi.
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Águas de Março tem a gaita de Rildo Hora e só Fagner fazendo sozinho o que o criador Tom Jobim fez com Elis na gravação mais conhecida por todos, de 1974. Justo. Deve ter suas razões para não querer dividi-la. Talvez não quisesse dividir o próprio Tom.
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O cearense se lembra de que estava almoçando com o compositor Abel Silva e os atores Otávio Augusto e Antônio Pedro na parte externa do restaurante Cobal do Leblon, em 1994, meses antes da morte do compositor, quando Tom, que estava em uma mesa próxima, se aproximou e pediu educado: “Posso falar com o amigo de vocês?” Fagner se levantou e deixou que Tom o conduzisse até a mesa em que estava. O maestro queria conversar sem dividi-lo com ninguém. Falar sobre a vida, apenas a vida.
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Wave, também de Tom, ergue ondas com novas frases de Fagner e, mais uma vez, com a gaita de Rildo Hora. E Por Causa de Você, preciosidade de Dolores Duran com música de Tom, tem o violão de André Pinto-Siqueira e o piano de Adriano Souza como colaboradores sensíveis da sonoridade que deixa tudo o que há em Fagner caber sob medida nas mais típicas canções da bossa nova.

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Capa do disco ‘Fagner – Bossa Nova’ • Raimundo Fagner • Selo Biscoito Fino • 2026

Disco ‘Fagner – Bossa Nova’ • Raimundo Fagner • Selo Biscoito Fino • 2026
Canções / compositores
1. Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
2. Canto de Ossanha (Baden Powell e Vinicius de Moraes)
3. Tereza da Praia (Tom Jobim e Billy Blanco) | Participação especial Zeca Baleiro
4. O negócio é amar (Carlos Lyra e Dolores Duran) | Participação especial Rildo Hora
5. Águas de março (Tom Jobim)
6. Samba de prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes) | Participação especial Wanda Sá – voz
7. Samba de verão (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) | Participação especial Marcos Valle
8. Wave (Tom Jobim)
9. Rio (Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal)
10. Por causa de você (Tom Jobim e Dolores Duran)
– ficha técnica –
Faixa 1: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Adriano Gifone; Violão: Roberto Menescal; Gaita: Otávio Castro; Bateria João Cortez | Faixa 2: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Adriano Gifone; Violão: Roberto Menescal; Bateria: João Cortez | Faixa 3: Voz: Raimundo Fagner; Arranjo e piano: Antônio Adolfo; Baixo: Adriano Gifoni; Violão: Claudio Jorge; Bateria: Márcio Bahia; Sanfona: Marcos Nimrichter; Participação especial: Zeca Baleiro – voz | Faixa 4: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Didier Fernan; Violão: Roberto Menescal; Gaita: Rildo Hora; Bateria: João Cortez; Acordeon: Adelson Viana | Faixa 5: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Adriano Gifone; Violão: Roberto Menescal; Gaita: Rildo Hora; Bateria: João Cortez | Faixa 6: Voz Raimundo Fagner; Piano: Itamar Assiere; Baixo: Jorge Helder; Violão: Cláudio Jorge; Sanfona: Adelson Viana; Bateria: Jurim Moreira; Participação especial: Wanda Sá – voz | Faixa 7: Voz Raimundo Fagner; Piano Adriano Souza; Baixo Adriano Gifone; Violão Roberto Menescal; Bateria João Cortez; Participação especial: Marcos Valle – voz | Faixa 8: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Adriano Gifone; Violão: Roberto Menescal; Gaita: Rildo Hora; Bateria: João Cortez | Faixa 9: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Adriano Gifone; Violão: Roberto Menescal; Gaita: Otávio Castro; Bateria: João Cortez | Faixa 10: Voz: Raimundo Fagner; Piano: Adriano Souza; Baixo: Didier Fernan; Violão: Roberto Menescal; Violão: André Siqueira; Bateria: João Cortez || Projeto: Raimundo Fagner | Produção musical, arranjos e violão: Roberto Menescal | Direção de voz e produção da faixa 6: José Milton | Gravado e mixado por Didier Fernan no estúdio La Maison – RJ | Fotos: Isabela Espíndola | Assessoria de imprensa: Belinha Almendra / Coringa Comunicação | Selo: Biscoito Fino | Formato: CD / Digital | Ano: 2026 | Lançamento: 6 de março | ♪Ouça o álbum: clique aqui

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Wanda Sá e Raimundo Fagner, por Isabela Espíndola

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Série: Discografia Brasileira / canção / Álbum
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske


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