por Santiago Vanegas | BBC News Mundo

Em Oppenheimer, o filme do diretor Christopher Nolan que ganhou sete prêmios do Oscar de 2024, acompanhamos a vida de J. Robert Oppenheimer, o “pai” da bomba atômica.
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O filme aborda seus anos na universidade, sua liderança do famoso laboratório Los Alamos até o declínio da sua carreira anos depois.
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Mas, na tela, vemos também um político habilidoso, que sussurra aos ouvidos dos presidentes dos Estados Unidos sobre assuntos nucleares e questiona repetidamente as intenções de Oppenheimer, de quem suspeita ter simpatias comunistas.
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Este outro personagem é Lewis Strauss, interpretado por Robert Downey Jr., que ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
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Strauss era, na vida real, um homem com grande poder e influência em Washington em meados do século 20.

Ele desconfiava fortemente de Oppenheimer. Eles estavam em polos ideológicos opostos e tiveram divergências sobre energia nuclear que se misturaram com disputas pessoais.
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Entre Oppenheimer, o cientista, e Strauss, o político, persistiu um conflito que, como vemos no filme, acabou tendo um custo elevado para ambos.
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Mas como Strauss, um homem que nunca frequentou a universidade, adquiriu tamanho poder que o colocou ao lado de presidentes dos Estados Unidos? E que papel ele realmente desempenhou no declínio de Oppenheimer?

De vendedor de sapatos a milionário
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Nascido em uma família judia no Estado americano de Virgínia Ocidental, Strauss cresceu querendo ser físico.
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Ao contrário de Oppenheimer, que morava em uma área nobre de Manhattan e possuía uma extensa coleção de arte, a família de Strauss passava por dificuldades financeiras.
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Quando chegou a hora do jovem Lewis entrar na faculdade, ele acabou tendo que se dedicar por alguns anos ao negócio de venda de sapatos do pai, já que o comércio estava indo de mal a pior.

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Strauss, terceiro da esquerda para a direita, aos 22 anos, quando trabalhava na agência de alimentos dos EUA – Foto: National Archives and Records Administration

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Ainda muito jovem, ele desenvolveu uma grande admiração por Herbert Hoover, um político republicano que se tornaria presidente dos Estados Unidos anos depois.
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Tanto que se ofereceu para ser seu assistente sem pedir um centavo em troca quando Hoover era chefe da agência de administração de alimentos dos Estados Unidos, a Food Administration, durante a Primeira Guerra Mundial.
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“Ficou claro que ajudar a alimentar os famintos e vestir os nus na Bélgica e no norte de França era contribuir para a História”, escreveu Strauss nas suas memórias.
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O jovem impressionou Hoover e este acabou sendo seu mentor ao longo da vida.

De acordo com Richard Pfau, seu biógrafo, “Strauss chegou ao topo graças à sua habilidade, à sua ambição, à escolha da companhia e da esposa certas e à boa sorte de começar em um momento próspero”.
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Strauss se casou com Alice Hanauer, filha de um dos sócios do banco de investimentos em que trabalhou.
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Ao mesmo tempo, continuou próximo de Herbert Hoover, razão pela qual fez parte das suas campanhas presidenciais em 1920, 1928 (quando venceu) e 1932.

Alianças e influência
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Até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Strauss alternou a vida política com a bem-sucedida carreira bancária, além de fazer esforços para ajudar as comunidades judaicas sob crescente ataque na Europa.
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Em 1941, ele ingressou na ativa do Exército. De Washington, colaborou na administração de munições para a Marinha americana durante a guerra.
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No período, sua posição e influência aumentaram ainda mais. Ele construiu alianças com pessoas em altos cargos, incluindo o presidente Harry Truman.

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Robert Downey Jr. ganhou o Oscar de de Melhor Ator Coadjuvante por sua interpretação de Strauss em Oppenheimer – Foto: Universal Pictures

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No final da guerra, os laços de Strauss com Washington e Wall Street o consagravam como um homem do establishment — ou seja, rico e poderoso.
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Após a morte dos pais por câncer, ele decidiu dedicar parte de seu tempo e dinheiro ao desenvolvimento de tratamentos contra a doença. Foi assim que ele chegou ao campo da energia nuclear.

Carreira nuclear
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Apesar do interesse pela área, ele estava relativamente distante do projeto Manhattan, que desenvolveu a primeira bomba atômica para os Estados Unidos.
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Mas pouco mais de um ano após as detonações sobre Hiroshima e Nagasaki, Truman nomeou-o como um dos comissários da recém-criada Comissão de Energia Atômica.
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Essa foi a entidade que os Estados Unidos criaram no período pós-guerra para transferir as pesquisas com energia atômica das autoridades militares para as autoridades civis.
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Na comissão, Strauss promoveu um sistema de vigilância que detectou o primeiro teste com bomba atômica da União Soviética em 1949.

Confrontado com a constatação de que os EUA tinham deixado de ser o único país do mundo com bombas nucleares, Strauss defendeu firmemente o desenvolvimento da bomba de hidrogênio, uma arma termonuclear muito mais poderosa que a bomba atômica.
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Foi então que Strauss se encontrou pela primeira vez com J. Robert Oppenheimer, que tinha chefiado o laboratório responsável por construir a bomba atômica em Los Alamos, no Novo México.
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Depois da guerra, Oppenheimer tornou-se uma figura popular: um tecnocrata com grande credibilidade e, claro, uma voz de autoridade no assunto armas nucleares.
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Ele também foi um dos principais oponentes da bomba de hidrogênio. E defendeu também uma política de transparência relativa ao número de armas nucleares que os Estados Unidos possuíam e à sua capacidade de destruição.
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Entretanto, Strauss acreditava que tal franqueza só poderia beneficiar os soviéticos.

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A Comissão de Energia Atômica foi criada após a Segunda Guerra Mundial, inicialmente para explorar usos além das armas nucleares – Foto: Getty Images

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Como retrata o filme, essa discussão ocorreu ao mesmo tempo em que Strauss suspeitava das verdadeiras intenções de Oppenheimer.

A desconfiança foi alimentada pelo fato de várias pessoas próximas a Oppenheimer terem sido filiadas ao Partido Comunista americano, incluindo o seu irmão e a sua esposa.
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“Não sou comunista, mas fui membro de quase todas as organizações da Frente Comunista na Costa Oeste”, escreveu o próprio Oppenheimer num formulário de segurança quando se juntou ao projeto Manhattan.
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A opinião de Strauss sobre a bomba de hidrogênio foi a que acabou convencendo o presidente Truman. Em janeiro de 1950, o presidente anunciou sua decisão de continuar com o seu desenvolvimento.
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Com essa conquista, Strauss afastou-se do mundo do poder por alguns anos, mas não muito.
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Na campanha presidencial de 1952, ele apoiou fortemente o candidato republicano Dwight Eisenhower.
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Quando Eisenhower chegou ao poder, nomeou-o chefe da Comissão de Energia Atômica.

Discurso duplo
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Com a ajuda de Strauss, Eisenhower tentou acalmar os receios dos americanos em torno da corrida armamentista, destacando os potenciais usos pacíficos da energia nuclear.
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Em dezembro de 1953, o então presidente fez um discurso nas Nações Unidas intitulado “Átomos Pela Paz”.
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Neste contexto, Strauss foi fundamental para a construção de Shippingport, a primeira usina nuclear com fins pacíficos.

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Strauss (segundo da esquerda para a direita) e Eisenhower (segundo da direita para a esquerda) em 1955 – Foto: Getty Images

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Ao mesmo tempo, os EUA testavam armas termonucleares no Oceano Pacífico.
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Uma delas resultou em uma contaminação radiológica de tal ordem que deixou graves consequências para a saúde dos habitantes das ilhas próximas.
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A comissão liderada por Strauss tentou inicialmente esconder os efeitos desta contaminação e ele próprio várias vezes minimizou a situação.
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Ele também se opôs a qualquer tentativa de parar os testes nucleares ou de proibir pesquisas com energia nuclear de forma a evitar a sua proliferação.

Strauss vs. Oppenheimer
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Como chefe da Comissão de Energia Atômica, Strauss manteve a sua rivalidade com Oppenheimer.
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Na verdade, ele impôs como condição para aceitar o cargo que o físico fosse mantido afastado de todas as informações confidenciais sobre questões nucleares.
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Após alguns meses no cargo, Strauss pediu ao diretor do FBI (a polícia federal dos EUA) que monitorasse os movimentos de Oppenheimer.
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Pouco depois, William Borden, um veterano da Segunda Guerra que também tinha sido diretor da comissão, enviou uma carta ao FBI afirmando: “J. Robert Oppenheimer é muito provavelmente um agente da União Soviética”.
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Segundo os jornalistas e historiadores Kai Bird e Martin J. Sherwin, Strauss e Borden colaboraram secretamente para fazer essa acusação.
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“Borden faria o trabalho sujo e Strauss lhe daria acesso às informações de que precisava”, explicam no livro American Prometheus, uma biografia de Oppenheimer.

Depois veio o ataque final de Strauss, retratado no filme de Nolan.
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Oppenheimer foi submetido a uma audiência para confirmar ou revogar suas credenciais de segurança, dadas as alegações de Borden.
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A autorização de segurança era essencial para que Oppenheimer continuasse trabalhando como conselheiro nos círculos de poder de Washington.
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O cientista teve que apresentar registros de seus encontros e conexões perante um conselho de segurança da Comissão de Energia Atômica, composto por três membros, todos indicados por Strauss.
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O chefe da comissão também escolheu o advogado que cuidou do caso contra Oppenheimer e teve acesso às informações que o FBI tinha sobre o pai da bomba atômica, segundo o historiador Richard Rhodes.
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A audiência concluiu que Oppenheimer poderia ser um risco para a segurança nacional.
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Esse foi o fim da posição de respeito e influência de J. Robert Oppenheimer nos EUA.
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O próprio Strauss escreveu as conclusões do conselho, nas quais enfatizou os “defeitos de caráter” de Oppenheimer e suas associações anteriores com os comunistas.

A decisão do conselho foi fortemente criticada pela comunidade científica da época.
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Muitas décadas depois, em 2022, o Departamento de Energia dos EUA concluiu que o procedimento violou os regulamentos da própria comissão.
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“Com o passar do tempo, surgiram mais evidências do preconceito e da injustiça do processo a que o Dr. Oppenheimer foi submetido”, escreveu a secretária de Energia do governo Joe Biden, Jennifer Granholm.

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A Comissão de Energia Atômica concluiu, após processo controverso, que Oppenheimer representava um risco para a segurança dos EUA – Foto: Getty Images

O ‘não’ do Senado
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Em 1958, o presidente Eisenhower decidiu dar a Strauss o cargo de secretário de Comércio da Casa Branca.
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Para ser nomeado ao cargo, Strauss teve que ser chancelado pelo Senado.
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O que costumava ser uma mera formalidade tornou-se a luta mais importante do governo Eisenhower no Congresso.
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O Senado passou mais de três meses analisando a nomeação. A gestão de Strauss na Comissão de Energia Atômica rendeu-lhe muitos inimigos em Washington, que se opuseram à sua escolha para o novo cargo.
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Por fim, o Senado decidiu por um surpreendente “não” — episódio que, para alguns historiadores, inaugurou uma nova fase na relação entre o Congresso e a Casa Branca que ainda permanece.
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“Este é o segundo dia mais vergonhoso na história do Senado”, disse na época Eisenhower sobre a decisão.
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Foi uma derrota humilhante para Strauss e o fim de sua carreira.
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Ele acabou marginalizado do poder e dedicado ao trabalho filantrópico.

Pfau, biógrafo de Strauss, descreveu-o como um homem irritado e reservado que nunca recuou ou pediu desculpas, independente das consequências.
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Ainda assim, nas próprias palavras de Pfau, foi ele quem “dominou a política nuclear americana mais do que qualquer outro homem nos anos de formação da era atômica”.
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Depois de lutar contra um linfoma durante três anos, Strauss morreu em 1974 aos 77 anos.







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