segunda-feira, julho 22, 2024

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado… – Fernando Pessoa

01.03.1920

Ophelinha:
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Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de “razões” tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.
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Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação — creio eu — de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
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Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso “entalar”.
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Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal — nem a si, nem a ninguém —, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
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Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica disto tudo sou eu.
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Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…
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Aí fica o “documento escrito” que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.
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Fernando Pessoa, no livro “Cartas de amor”. Nova Fronteira, 2011.

SOBRE O LIVROrevistaprosaversoearte.com - Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado... - Fernando Pessoa
O livro reúne curiosas cartas de amor enviadas por Fernando Pessoa a Ophélia Queiroz. As cartas não vêm carregadas com arroubos de saudades – o que se espera de cartas de amor – porque Pessoa e Ophélia se viam quase todos os dias. Neste livro, o leitor vai ter acesso a autoanálises e sensações do escritor, a intromissões de Álvaro de Campos ― que não gostava de Ophélia ― e a um pouco da genialidade de Pessoa, um obsessivo criador.
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FICHA TÉCNICA
Páginas: 112
Formato: 20.83 x 13.72 x 0.76 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 01/08/2011
ISBN: 978-8520926796
Selo: Nova Fronteira
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Leia Fernando Pessoa: Fernando Pessoa (poemas e textos)


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