Há pessoas que iluminam um tempo, uma cidade, uma infância inteira. Eu acompanho, com atenção e encantamento, a trajetória de uma jovem professora do ensino básico da Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, e confesso que nela deposito esperanças de um presente tecido de lutas e de um futuro que talvez nos traga conquistas. Ela não é apenas uma professora. É militante social, feminista, profundamente apaixonada pelo magistério e pelo ensino público gratuito e de qualidade. É apaixonada por seus alunos e alunas, por essas crianças que vivem no universo tão singular da Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro, onde convivem carências e invenções, violência e ternura, falta e excesso de sonhos.
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Só alguém verdadeiramente apaixonado pela população periférica consegue ensinar com a intensidade que transforma. Porque não basta transmitir conteúdos. É preciso enxergar em cada rosto uma promessa, em cada caderno um gesto de resistência, em cada rabisco uma tentativa de se afirmar no mundo. Essa professora da Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro faz exatamente isso. Ela não dá apenas aulas. Ela se entrega. É corpo e alma a serviço de uma missão que só se cumpre quando partilhada. A cada relato que escreve em suas crônicas improvisadas, percebe-se que não ensina apenas português, matemática ou história. Ensina humanidade.
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Ela é também cronista do cotidiano. Talvez sem se dar conta, carrega dentro de si a alma de quem transforma em literatura os instantes mais simples. Narra com entusiasmo as pequenas vitórias de seus alunos, relata o brilho no olhar da criança que compreende pela primeira vez o segredo de uma palavra, o sorriso de quem consegue escrever o próprio nome. É a pedagogia que se converte em poesia, é a sala de aula que se expande para além dos muros, revelando que a educação é, antes de tudo, uma experiência coletiva de construção de sentido.
E como se não bastasse, ela é flamenguista. Compartilha comigo essa paixão rubro-negra que arrasta corações e histórias. Há algo simbólico nesse detalhe. O Flamengo é paixão, resistência, mistura, periferia e grandeza. Ensinar também é isso: torcer pela vitória alheia. Vibrar quando o outro aprende, sofrer nas derrotas e acreditar sempre no próximo jogo. Ela leva para a escola esse espírito de arquibancada que ensina a nunca desistir.
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Outro dia, ri sozinho diante da tela ao ler seu relato sobre um bilhete de aluno em processo de alfabetização. A criança, com delicada invenção, escreveu que a professora era “cremosa”. A genialidade da infância se expressa nesses gestos. A palavra escolhida pode não estar nos manuais pedagógicos, mas revela o afeto, a doçura, o olhar que encontra no carinho uma forma de dizer o indizível. “Professora cremosa”: título mais nobre que qualquer medalha acadêmica. Ali está a consagração verdadeira, o reconhecimento que nasce da alma infantil.
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Esse universo da infância, de símbolos e entendimentos originais do mundo, é um espetáculo silencioso e fascinante. Para quem se entrega à docência, torna-se matéria-prima do ofício. A criança inventa imagens, cria palavras, estabelece conexões inesperadas. O professor que sabe escutar aprende mais do que ensina. Aprende sobre humanidade, sobre a capacidade de enfrentar a vida com imaginação. Aprende que educar não é impor moldes, mas estimular a liberdade de ser.
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Eu torço muito por essa professora da Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro, por seus alunos, por sua escola pública, pela própria Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro e, claro, pelo Flamengo. Mas minha torcida vai além. Torço por todos os professores e professoras do Brasil, especialmente aqueles que atuam no ensino básico, fundamental e médio. São eles que enfrentam salas superlotadas, salários desvalorizados, estruturas precárias. São eles que acordam de madrugada, muitas vezes depois de longas viagens, para encontrar crianças que carregam nas mochilas histórias de luta, ausência e esperança. São eles que resistem a políticas equivocadas, ao descaso dos governantes, à violência que tantas vezes ameaça a escola.
Se ainda mantemos acesa a chama da democracia, da cidadania e da possibilidade de futuro, é porque esses professores resistem. São guardiões da memória e da imaginação. São escultores de palavras e de mundos possíveis. São tradutores do presente e anunciadores do amanhã. Em suas mãos, o giz ou o pincel atômico se transformam em armas poéticas contra a ignorância e a desigualdade. A cada aula, escrevem silenciosamente a história de uma nação que insiste em se reinventar.
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É por isso que dói tanto ver a indiferença da sociedade diante deles. Fala-se em progresso, em tecnologia, em inovação, mas raramente se lembra que nada disso existe sem a base sólida da educação. E essa base começa com professoras e professores que alfabetizam, que ensinam os primeiros cálculos, que revelam a beleza da ciência, da arte, da literatura. São eles que plantam a semente do pensamento crítico, da capacidade de questionar, de criar, de transformar.
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Essa professora da Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro, ao ser chamada de “cremosa” por uma criança, nos lembra que o magistério é feito de afeto. Não há aprendizado sem vínculo. Não há conhecimento sem emoção. Não há futuro sem amor. O professor que ensina de verdade não é aquele que apenas transmite conteúdos. É aquele que olha nos olhos, que escuta, que se importa, que se deixa afetar pela vida do outro. A docência é uma troca permanente. O aluno aprende com o professor, o professor aprende com o aluno, e ambos crescem juntos.
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Talvez devêssemos reinventar os títulos acadêmicos. Doutor, mestre, especialista: nada disso traduz a grandeza de quem forma pessoas. Quem sabe devêssemos dizer “professora cremosa”, “professor luminoso”. Criar medalhas de ternura, diplomas de coragem, troféus de paciência. Porque o reconhecimento verdadeiro sempre virá dos gestos mais simples: um bilhete, um abraço, um sorriso, uma palavra inventada. Ali está a essência do ensinar.
Se a sociedade brasileira quiser um dia se reconstruir plenamente, precisará reconhecer a centralidade dos professores. Sem eles, não haverá economia forte, não haverá política decente, não haverá justiça social. Com eles, tudo é possível. Porque são eles que ensinam a ler o mundo, a escrever a própria história, a calcular os caminhos da vida. São eles que abrem portas invisíveis para horizontes maiores.
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A crônica dessa jovem professora da Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro é metáfora de um Brasil que resiste. Ela é símbolo de tantas outras que, em diferentes cidades, carregam o mesmo entusiasmo, o mesmo compromisso, a mesma paixão. Em cada sala de aula periférica, em cada escola esquecida pelos governantes, há professores que acreditam. E enquanto houver quem acredite, haverá esperança.
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E se uma criança, entre letras trocadas e palavras inventadas, ousa escrever que a professora é “cremosa”, talvez devêssemos escutar. Ali está a voz da infância, que ainda sabe dizer a verdade com poesia. E talvez seja exatamente disso que precisamos para seguir em frente: de professores cremosos, luminosos, corajosos, que transformam a dureza do mundo em ternura ensinada no quadro, repetida no caderno e eternizada na vida.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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