Drummond (foto: O fazendeiro do ar | Reprodução)
Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.
Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.
Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.
Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
Os que zombam de ti não te conhecem
na força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.
Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doidos nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som, Minas Gerais.
— Carlos Drummond de Andrade, no livro “A vida passada a limpo“. Companhia das Letras, 2013
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SOBRE O LIVRO
Fazendo parte pela primeira vez do livro Poemas (1959), volume que então reunia praticamente toda a poesia publicada de Drummond, A vida passada a limpo apareceu entre alguns dos maiores livros não só da obra do mineiro, mas de toda a moderna lírica brasileira, como Alguma poesia, Sentimento do mundo, A rosa do povo e Claro enigma. O presente volume promete trazer uma nova leitura a esta reunião de poemas. Os poemas de A vida passada a limpo, diferentemente daqueles enfeixados em Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945), os grandes momentos da lírica engajada de Drummond, tratam de temas menos calcados na observação do presente – embora sejam contundentes em sua visão de mundo. O amor, a linguagem, a memória e os afetos tomam a proa dessa lírica, trazendo alguns dos grandes poemas drummondianos como “Especulações em torno da palavra homem”, “Prece de mineiro no Rio” e “A um hotel em demolição”, entre outros.
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FICHA TÉCNICA
Título: A vida passada a limpo
Páginas: 96
Formato: 21 x 13.8 x 1.8 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 15/10/2013 (1ª edição)
ISBN: 978-8535923483
Selo: Companhia das Letras
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