Haverá sempre duas Célia Barth nesta narrativa, como duas janelas abertas sobre a mesma paisagem, duas presenças que se completam no tempo. A primeira será a Célia histórica, a mulher que já viveu, que já ousou, que já escreveu seu nome na contracultura e na vida cultural e política brasileira. A segunda será a Célia do futuro, a que receberá esta receita como presente e transformará, com as próprias mãos, a memória em gesto e o gesto em prato. O passado e o presente se encontrarão na mesa, e o futuro será promessa servida em travessa branca, com cheiro de manteiga e ervas frescas.
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A Célia histórica terá sido a menina nascida entre maresia e rigor, entre Copacabana e o colégio alemão. A infância trará as manhãs de praia, os pés na areia, o horizonte largo, e trará também os corredores silenciosos do colégio germânico, onde o som das consoantes marcadas e das vogais abertas moldará uma disciplina que não apagará a rebeldia. Aprenderá matemática com a precisão de quem monta quebra-cabeças, aprenderá a gramática da língua portuguesa com a seriedade de quem compreende que cada palavra é uma ferramenta. Mas desde cedo perceberá que a vida não se deixa reduzir a esquadros. E assim, ainda muito jovem, se tornará feminista, não como palavra de moda, mas como experiência viva, como ato de afirmação em uma sociedade que desejava confiná-la.
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Nos anos 1960 e 1970, Copacabana será palco. Ela atravessará o bairro como quem atravessa um manifesto. O Rio de Janeiro pulsará entre ditadura e rebeldia, entre repressão e sonho, entre violência e poesia. Célia será parte da juventude que escolherá sonhar. Hippie, contracultural, libertária, ela trará nas roupas leves e no espírito solto a recusa às amarras. A praia será cenário, mas também será resistência. Ao mesmo tempo, o cinema a acolherá. Nas salas escuras, ela encontrará mundos paralelos, revisitará filmes tantas vezes que poderá decorar pausas, detalhes de cenário, respirações de atores. O cinema será não apenas arte, mas espelho. Cada filme revisto será uma metáfora da própria vida: a cada repetição, um detalhe novo, uma nuance antes invisível, um sinal escondido.
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A Célia histórica amará também a Serra de Friburgo, onde a natureza se revelará como refúgio. Entre árvores, entre montanhas, entre o silêncio cortado apenas pelo vento, encontrará outra forma de liberdade. Sua vida será feita de contrastes que se equilibrarão: a disciplina germânica e o improviso tropical; o estudo acadêmico da sociologia e da antropologia e o aprendizado intuitivo das ruas; o cinema repetido e a vida irrepetível; a praia ruidosa e a serra silenciosa. Essa será a Célia já vivida, já lembrada, já inscrita no passado e no presente.
Mas haverá ainda a Célia do futuro. Essa será a que receberá esta receita como presente e que, diante de uma mesa posta, fará do ato de cozinhar um prolongamento de sua própria história. Essa Célia acenderá a luz da cozinha como quem reacenderá a memória. Caminhará até a bancada, reunirá os ingredientes, disporá cada um como personagens à espera de sua entrada. E quando a chama se erguer sob a panela, não será apenas o calor da cozinha, será o calor de uma amizade de mais de cinquenta e cinco anos que começará a se materializar em vapor.
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A receita pedirá penne, porque o penne será civilizado, prático, elegante para ser servido em público. Pedirá filé mignon, cortado em iscas finas, porque a carne vermelha será para ela sinônimo de prazer, de substância, de completude. Não pedirá tomates, nem azeitonas, nem rúcula, nem azeite, porque preferências são marcas de identidade, são recados que dizem “aqui estou eu”. Pedirá manteiga, pedirá salsa, pedirá cebolinha, pedirá manjericão, pedirá pimentões coloridos. Pedirá também parmesão e provolone, dois queijos que darão corpo e alma ao prato.
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Na cozinha, a Célia do futuro colocará a panela grande no fogo. A água começará a aquecer como um mar de Copacabana visto de longe. O sal cairá generoso, lembrando que generosidade será sempre tempero. A água entrará em ebulição, e o penne mergulhará nela. Dançará por minutos, firme, até alcançar o ponto certo: al dente, nem mole, nem duro, mas equilibrado. Antes de escorrer, meia xícara dessa água será guardada em um copo transparente. Essa reserva será memória líquida, uma lembrança que servirá para dar consistência ao molho, porque cozinhar sempre pedirá memória.
Enquanto a massa cozinhar, a frigideira aquecerá. A manteiga se espalhará e derreterá, clara, aveludada. As iscas de filé mignon entrarão rápidas, em lotes pequenos, para que o calor as sele com respeito. Dourarão por fora, permanecerão rubras por dentro. O cheiro da carne se espalhará como lembrança da vida intensa. Dois minutos bastarão, e então sairão para descansar.
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Na mesma frigideira, nova manteiga se abrirá. Se o alho for convidado, entrará por segundos apenas, para deixar um perfume breve, como uma nota musical que desaparece antes de se tornar melodia. Logo depois virão os pimentões, vermelho e amarelo, cortados em tiras finas. Refogarão até ficarem ligeiramente macios, mas sem perder o frescor. A cozinha se encherá de cor e cheiro, como os cartazes psicodélicos que decoravam as ruas da juventude.
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Será então o momento da crema. O creme de leite fresco cairá lentamente, envolvendo os pimentões. O fogo baixo permitirá que o molho se espesse sem pressa. O parmesão e o provolone, ralados, cairão como neve grossa. Derreterão, se dissolverão, transformarão o molho em textura sedosa. O provolone deixará um recado defumado, o parmesão dará solidez e equilíbrio. Se o molho pedir leveza, colheradas da água do cozimento entrarão, trazendo de volta a memória líquida que fora guardada.
Então virá o reencontro. As iscas de filé mignon voltarão à frigideira, mergulhando na crema. O penne escorrido seguirá atrás, será abraçado pelo molho, se unirá à carne. A colher misturará tudo, lentamente, como quem junta amigos em uma mesa. O prato ganhará forma, cheiros, texturas.
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No final, as ervas cairão como assinatura. Salsa fresca picada, cebolinha viva, manjericão rasgado com as mãos. Três verdes diferentes, três tons de frescor, três gestos de delicadeza. Serão chuva leve sobre o prato quente. O fogo se apagará, e o prato estará pronto. Será servido em pratos fundos e brancos, onde o contraste realçará a beleza da crema clara, da carne vermelha, dos pimentões coloridos, do verde das ervas.
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O vinho completará a cena. Um Pinot Noir jovem, ou talvez um Merlot brasileiro do Vale dos Vinhedos, estará na taça. Não será protagonista, será acompanhante discreto. Conversará com o prato, não brigará com ele.
E assim será o Penne à Célia Barth com Iscas de Filé Mignon e Creme de Queijos. Será mais que uma receita: será uma homenagem, um presente, uma crônica servida em futuro. A Célia histórica terá sido a que ousou, a que lutou, a que viveu a contracultura, a que amou o cinema, a que estudou a sociedade e a cultura, a que uniu disciplina germânica e cores tropicais. A Célia do futuro será a que preparará a massa, a que misturará ingredientes, a que sorrirá diante da mesa posta, a que provará a primeira garfada e reconhecerá nela não apenas o sabor dos queijos e da carne, mas o sabor da amizade.
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Porque esta receita será também um retrato da amizade que começou em 1970 e atravessará o tempo. Serão mais de cinquenta e cinco anos de histórias, sonhos, conversas, risos e silêncios partilhados. O prato será, então, metáfora dessa amizade: sem pressa, sem excessos, fiel às preferências, rico em sabores, profundo em significados.
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E quando o prato for servido, haverá um instante de silêncio. Não será vazio. Será silêncio cheio, como o que antecede o início de um filme. Será silêncio de reconhecimento: de que o passado está presente, de que o presente é memória, de que o futuro será celebração.
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Será, enfim, o Penne à Célia Barth com Iscas de Filé Mignon e Creme de Queijos — prato, presente, promessa e crônica.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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