Paul Éluard

Lembrança afetuosa
Houve um grande riso triste
O pêndulo parou
Um bicho do mato salvava seus filhotes.
Risos opacos em quadros de agonia
Tantas nudezes transformando em irrisão a sua palidez
Transformando em irrisão
Os olhos virtuosos do farol dos náufragos.
.

Souvenir affectueux
Il y eut un grand rire triste
La pendule s’arrêta
Une bête fauve sauvait ses petits.
Rires opaques dans les cadres d’agonie
Autant de nudités tournant en dérision leur pâleur
Tournant en dérision
Les yeux vertueux du phare des naufrages.
– Paul Éluard, em “Poemas: Paul Éluard”. [seleção e tradução de José Paulo Paes] Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

§

Teu olhar faz a volta do meu coração,
Uma roda de dança e de doçura,
Auréola do tempo, berço noturno e seguro,
E se não sei mais o que tenho vivido
É porque teus olhos nem sempre me enxergaram.
Folhas do dia e musgo do rocio,
Caniços do vento, sorrisos perfumados,
Asas que cobrem o mundo de luz,
Barcos carregados de céu e mar,
Caçadores de ruídos e fontes de cores.
Aromas nascidos de uma ninhada de auroras
Que sempre jaz sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos puros
E o meu sangue todo flui nos olhares deles.
.

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse e de douceur
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
E si je ne sais plus tout ce que j’ai vécu
C’est que tes yeux ne m’ont pas toujours vu.
Feiulles de jour e mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel e de la mer,
Chasseurs de bruits et sources des coulers,
Parfums éclos d’une couvée d’aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l’innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
E tout mon sang coule das leurs regards.
– Paul Éluard, em “Poemas: Paul Éluard”. [seleção e tradução de José Paulo Paes] Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

§

Seus olhos sempre puros
Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte dos mares,
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.
Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.
Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, vi-os.
Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu vôo a sacudir minha miséria.
Seu vôo de estrela e luz,
Seu vôo de terra, seu vôo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.
Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.
.

Leurs yeux toujours purs
Jours de lenteur, jours de pluie,
Jours de miroirs brisés e d’aiguilles perdues,
Jours de paupières closes a l’horizon des mers,
D’heures toutes semblables, jours de captivité,
Mon esprit qui brillait encore sur les feuilles
E les fleurs, mon esprit est nu comme l’amour,
L’aurore qu’il oublie lui fait baisser la tête
Et contempler son corps obéissant et vain.
Pourtant, j’ai vu les plus beux yeaux du monde,
Dieux d’argent qui tenaient des saphirs dans leurs mains,
De véritables dieux, des oiseaux dans la terre
E dans l’eau, je les ai vus.
Leus ailes sont les miennes, rien n’existe
Que leur vol qui secoue ma misère,
Leur vol d’étoile e de lumière
Leur vol de terre, leur vol de pierre
Sur les flots de leurs ailes,
Ma pensée soutenue par la vie e la mort.
– Paul Éluard, em “Poemas: Paul Éluard”. [seleção e tradução de José Paulo Paes] Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

§

A noite
Acaricia o horizonte da noite, busca o coração de azeviche que a aurora recobre de carne. Ele te porá nos olhos pensamentos inocentes, chamas, asas e verduras que o sol ainda não inventou.
Não é a noite que te falta, mas o seu poder.
.

La nuit
Caresse l’horizon de la nuit, cherche le coeur de jais que l’aube recouvre de chair. Il mettrait dans tes yeux des pensées innocentes, des flammes, des ailes et des verdures que le soleil n’inventa pas.
Ce n’est pas la nuit qui te manque, mais sa puissance.
– Paul Éluard, em “Poemas: Paul Éluard”. [seleção e tradução de José Paulo Paes] Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

§

Gritar
Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo
Fiz retroceder os limites do grito
A acção simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim
Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
.

Crier
Ici l’action se simplifie
J’ai renversé le paysage inexplicable du mensonge
J’ai renversé les gestes sans lumière et les jours impuissants
J’ai par-dessus terre jeté les propos lus et entendus
Je me mets à crier
Chacun parlait trop bas et écrivait
Trop bas
J’ai reculé les limites du cri
L’action se simplifie
Car j’enlève à la mort cette vue sur la vie
Qui lui donnait sa place devant moi
D’un cri
Tant de choses ont disparu
Que rien jamais ne disparaîtra plus
De ce qui mérite de vivre
Je suis bien sûr maintenant que l’été
Chante sous les portes froides
Sous des armures opposées
Les saisons brûlent dans mon cœur
Les saisons les hommes leurs astres
Tout tremblants d’être si semblables
Et mon cri nu monte une marche
De l’immense escalier de joie
Et ce feu nu qui m’alourdit
Me rend ma force douce et dure
Ainsi voici mûrir un fruit
Brûlant de froid givré de sueur
Voici la place généreuse
Où ne dorment que les rêveurs
Le temps est beau crions plus fort
Pour que les rêveurs dorment mieux
Enveloppés dans des paroles
Qui font le beau temps dans mes yeux
Je suis bien sûr qu’à tout moment
Aïeul et fils de mes amours
De mon espoir
Le bonheur jaillit de mon cri
Pour la recherche la plus haute
Un cri dont le mien soit l’écho.

1940
– Paul Éluard, em “Algumas das palavras: antologia. Paul Éluard”. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1977.

§

A morte o amor a vida
Julguei que podia quebrar a profundeza a
[imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro
[nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula

Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de
[estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
[para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
[as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
[tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens

A de todos os tempos.
.

La mort l’amour la vie
J’ai cru pouvoir briser la profondeur l’immensité
Par mon chagrin tout nu sans contact sans écho
Je me suis étendu dans ma prison aux portes vierges
Comme un mort raisonnable qui a su mourir
Un mort non couronné sinon de son néant
Je me suis étendu sur les vagues absurdes
Du poison absorbé par amour de la cendre
La solitude m’a semblé plus vive que le sang

Je voulais désunir la vie
Je voulais partager la mort avec la mort
Rendre mon cœur au vide et le vide à la vie
Tout effacer qu’il n’y ait rien ni vitre ni buée
Ni rien devant ni rien derrière rien entier
J’avais éliminé le glaçon des mains jointes
J’avais éliminé l’hivernale ossature
Du vœu qui s’annule

Tu es venue le feu s’est alors ranimé
L’ombre a cédé le froid d’en bas s’est étoilé
Et la terre s’est recouverte
De ta chair claire et je me suis senti léger
Tu es venue la solitude était vaincue
J’avais un guide sur la terre je savais
Me diriger je me savais démesuré
J’avançais je gagnais de l’espace et du temps

J’allais vers toi j’allais sans fin vers la lumière
La vie avait un corps l’espoir tendait sa voile
Le sommeil ruisselait de rêves et la nuit
Promettait à l’aurore des regards confiants
Les rayons de tes bras entrouvraient le brouillard
Ta bouche était mouillée des premières rosées
Le repos ébloui remplaçait la fatigue
Et j’adorais l’amour comme à mes premiers jours

Les champs sont labourés les usines rayonnent
Et le blé fait son nid dans une houle énorme
La moisson la vendange ont des témoins sans nombre
Rien n’est simple ni singulier
La mer est dans les yeux du ciel ou de la nuit
La forêt donne aux arbres la sécurité
Et les murs des maisons ont une peau commune
Et les routes toujours se croisent.

Les hommes sont faits pour s’entendre
Pour se comprendre pour s’aimer
Ont des enfants qui deviendront pères des hommes
Ont des enfants sans feu ni lieu
Qui réinventeront les hommes
Et la nature et leur patrie
Celle de tous les hommes

Celle de tous les temps.
– Paul Éluard, em “Algumas das palavras: antologia. Paul Éluard”. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1977.

§

A perder de vista
Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e de outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas doa ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.
.

A perte de vue
Tous les arbres toutes leurs branches toutes leurs feuilles
L’herbe à la base les rochers et les maisons en masse
Au loin la mer que ton oeil baigne
Ces images d’un jour après l’autre
Les vices les vertus tellement imparfaits
La transparence des passants dans les rues de hasard
Et des passants exhalées par tes recherches obstinées
Tes idées fixes au coeur de plomb aux lèvres vierges
Les vices les vertus tellement imparfaits
La ressemblance des regards de permission avec les yeux que tu conquis
L’imitation des mots des attitudes des idées
Les vices les vertus tellement imparfaits

L’amour c’est l’homme inachevé.
– Paul Éluard, em “Algumas das palavras: antologia. Paul Éluard”. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1977.

§

A não perder de vista
Dissipa o dia,
Mostra aos homens as leves imagens da aparência,
Retira aos homens a possibilidade de se distraírem.
É duro como a pedra,
A pedra informe,
A pedra do movimento e da vista,
E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras,
se tornam falsas.
O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão,
O que foi compreendido já não existe,
A ave confundiu-se com o vento,
O céu com a sua verdade,
O homem com a sua realidade.
.

Le miroir d’un moment
Il dissipe le jour,
Il montre aux hommes les imagens déliées
de l`apparence,
Il enlevé aux hommes la possibilité de se distraire.
Il est dur comme la pierre,
La Pierre informe,
La Pierre du mouvement et de la vue,
et son éclat est tel that toutes les Armures,
tous les masques en sont Fausses.
Ce que la main uma pris dédaigne même de prendre
la forme de la main,
Ce qui a été compris n`existe plus,
L`oiseau s`est confondu avec le respiradouro,
Le ciel avec savérité, L`homme avec sa Realité.
– Paul Éluard, em “Algumas das palavras: antologia. Paul Éluard”. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1977.

§

A curva dos teus olhos
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
.

La Courbe de tes yeux
La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j’ai vécu
C’est que tes yeux ne m’ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d’une couvée d’aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l’innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

(Capitale de la douleur, 1926)
– Paul Éluard, em “Algumas das palavras: antologia. Paul Éluard”. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1977.

§

© Salvador Dalí

O POEMA “LIBERDADE” EM 2 TRADUÇÕES

1) EM TRADUÇÃO DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE E MANUEL BANDEIRA (INCLUI O ORIGINAL)

Liberdade (*)
Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade
.

Liberté
Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.
– Paul Éluard, “Liberdade | Liberté”. [tradução Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira], em “Antologia de Poetas Franceses do Século XV ao Século XX”. [organização JR. R. Magalhães]. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.

(*) O primeiro título desse poema foi “Une seule pensée”, isto é, “Um único pensamento”, título empregado por Bandeira e Drummond em sua tradução. Alguns anos depois, o próprio Éluard alterou esse título para “Liberté”, isto é, “Liberdade”.

Mais sobre o poema “Liberdade”:
Além de ser um magnífico poema do ponto de vista literário, “Liberté”, de Paul Éluard, carrega consigo o peso da História. Escrito em 1942, com o título “Une Seule Pensée” (Um Único Pensamento), esse texto foi transportado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra.
Em 1943, traduzido para vários idiomas, o poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus da Europa conflagrada.
O responsável por contrabandear essa preciosidade da França ocupada para a Inglaterra foi um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Em reconhecimento a essa proeza, Dias foi condecorado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito, em 1998.
Paul Éluard — nom de plume de Eugène-Émile-Paul Grindel (1895-1952) — foi um dos expoentes da poesia surrealista. Membro do partido comunista francês, participou da Resistência aos nazistas na Segunda Guerra Mundial.
Além do ato heróico de Cícero Dias, Éluard tem outro ponto de contato com o Brasil. Em 1913-14, foi colega do poeta Manuel Bandeira num sanatório em Clavadel, na Suíça. Lá, ambos se tratavam de tuberculose.
Fonte: alguma poesia. (acessado em 2.7.2016).

§

2) EM TRADUÇÃO DE JORGE DE SENA

Liberdade
Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

No bafejar das auroras
no oceano nos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome

Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Por poder de uma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te

Liberdade.
– Paul Éluard [tradução Jorge de Sena].

§

Paul Eluard – foto: Granger

BREVE BIOGRAFIA DE PAUL ÉLUARD
O poeta Paul Éluard — ou, no cartório, Eugène-Émile-Paul Grindel —, nasceu no ano de 1895 em Saint-Denis, hoje um subúrbio ao norte de Paris. O “Éluard”, adotado depois, era o sobrenome de sua avó materna. Com 16 anos, acometido de tuberculose, foi internado no sanatório de Clavadel, na Suíça, onde teve como colega o nosso Manuel Bandeira. Foi o primeiro encontro de Éluard com um grande artista brasileiro.
Também no sanatório de Clavadel, Éluard conheceu e se apaixonou por uma jovem russa, Helena Diakonova, a quem deu o apelido de Gala. Os dois casaram-se durante a guerra, em 1917. Viveram juntos até 1929. Gala em seguida se casaria com o pintor espanhol Salvador Dalí.
Embora o trabalho de Paul Éluard tenha conhecido várias fases — foram dezenas de títulos publicados entre 1913 e 1952, ano de sua morte —, Paul Éluard tornou-se conhecido principalmente pela sua poesia surrealista. O poeta formou-se num momento extraordinário da vida cultural francesa. Conviveu intensamente com poetas como André Breton e Louis Aragon e uma esfuziante plêiade de artistas plásticos como Picasso, De Chirico, Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall.
Dos nomes citados, alguns, como Aragon, se tornariam companheiros de Éluard no Partido Comunista francês. O poeta aderiu ao partido durante a Resistência, nos anos 40. É dessa época o poema mais conhecido de Paul Éluard, “Liberté”, publicado no livro Poésie et Verité (Poesia e Verdade), de 1942. No ano seguinte, aviões da Força Aérea Britânica lançaram milhares de cópias desse texto sobre Paris.
Para que o poema fosse impresso na Inglaterra, foi contrabandeado, desde a França ocupada, pelo pintor pernambucano Cícero Dias. Assim se deu outro encontro de Éluard com um artista brasileiro. A terceira convergência seria com Manuel Bandeira (outra vez) e Carlos Drummond de Andrade. Eles traduziram o poema “Liberté” a quatro mãos, ainda nos anos 40.
Fonte: Alguma Poesia (acessado em 3.7.2016)

Pablo Picasso – Cover of the book La barre d’appui, by Paul Eluard (Paris, early june, 1936)

Obras de Paul Éluard em português
:: Poemas políticos. Paul Éluard. [prefácio Louis Aragon; tradução Carlos Grifo]. Colecção Forma nº 6. Lisboa: Presença, [197-].
:: André Breton e Paul Éluard: A imaculada concepção. [tradução franco de sousa]. Colecção Mocho. Lisboa: Estúdios Cor, 1972.
:: Algumas das palavras: Paul Éluard – antologia. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1969; 2ª ed., bilíngue. Dom Quixote, 1977.
:: Poemas: Paul Éluard. [seleção e tradução de José Paulo Paes] Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
:: Poemas de amor e de liberdade. Paul Éluard. [escolhidos por Jacques Gaucheron e os seus amigos; tradução Egito Gonçalves]. 1ª ed., Porto: Campo das Letras, 2000.
:: Últimos poemas de amor. Paul Éluard. [tradução e prefácio de Maria Gabriela Llansol]. Liboa: Relógio d’Água, 2002.
.
Antologias (participação)
:: Transverso – coletânea de poemas traduzidos. [organização e posfácio de José Paulo Paes]. Campinas: Editora Unicamp, 1988.
:: Poetas de França. [organizada, compilada e traduzida por Guilherme de Almeida]. edição bilíngue. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936; 2ª ed., 1944; [apresentação de Marcelo Tápia]. São Paulo: Editora Babel, 2011.
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Alguns estudos e referências de pesquisa
CUNHA, Betina Ribeiro Rodrigues da.. A poética da natureza na obra de Eluard e Bandeira. São Paulo: Annablume, 2000.

Man Ray, Max Ernst, Salvador Dali, André Breton, Tristan Tzara. (rear) Rene Crevel, Yves Tanguy, Hanz Arp and Paul Eluard – photo: Man Ray, 1930
Paul Eluard and Nusch Éluard Mignières, photo: Man Ray

© Direitos reservados aos herdeiros

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

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