Capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin) e Dersu Uzala (Maxim Munzuk)

Um poema de Akira Kurosawa sobre a amizade, a solidariedade, o amor à natureza e o valor do conhecimento.

Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa
por Rubens Rodrigues/O Povo

A vastidão da Sibéria e os efeitos da continentalidade serviram bem à obra do japonês Akira Kurosawa num momento de necessário desprendimento das raízes. Depois de três décadas de carreira, tentativa de suicídio e exílio, foi na União Soviética onde ele encontrou espaço para contar uma das mais bonitas histórias que cruzou até então.

Após reimaginar Shakespeare e Dostoiévski, era a vez de adaptar “Dersu Uzala”, livro do explorador russo Vladimir Arsenyev, lançado originalmente em 1923. Um conto de amizade resistente, pendular da civilização à natureza em sua essência. A narrativa busca responder uma questão clássica: o que acontece quando dois indivíduos culturalmente diferentes precisam um do outro para sobreviver?

Para isso, Kurosawa atravessa florestas, corredeiras e o clima extremo da Sibéria com o Capitão Arseniev (Yuri Solomin) para reconhecer as montanhas da Mongólia, e o caçador que dá nome ao filme, interpretado pelo carismático Maxim Munzuk. Amizade que se consolida entre contratempos e um longo caminho em expedição topográfica.

Arsenyev e Dersu Uzala.

Dersu tem impressionantes habilidades de viver em uma relação profunda com a natureza e uma espiritualidade que o guia de forma indiscutível. Arseniev tem um senso de responsabilidade, ética e sensibilidade que, numa trajetória quase metafísica, permitem enxergar a essência da jornada ao lado do caçador mongol.

São perspectivas que colocam em questão os valores daquilo que é ou não permitido, daquilo que é humano ou selvagem. Questiona propósito e estilos de vida completamente diferentes enquanto prova que é tudo construção social.

Por tudo isso é um filme tão coerente com o momento que Kurosawa vivia ao passo em que é diferente do cinema de gênero e da identidade tão apurada pelo qual o cineasta japonês era conhecido.

Aqui, aparecem os planos de contemplação ainda que seja evidente a dificuldade de se filmar na província russa. Isso é possível perceber, seja na câmera tremida nos movimentos, seja pela falta de dinamicidade da obra de 141 minutos ou pela falta da percepção de profundidade mesmo em cenários tão propícios.

Ainda assim, há muita alma nessa história que Kurosawa decidiu contar. Há fortes crenças. Há origem. Há a família como instituição e a solidão como posicionamento perante o mundo.

E há, principalmente, o homem diante de si mesmo e do outro enquanto reflexo dele próprio. Esses dois sobrevivem e se fortalecem até onde é possível – e é isso que acontece quando eles precisam um do outro. Porque esse outro indivíduo se faz necessário. Uma história simples, muito bem contada e extremamente poderosa que toca nos aspectos mais humanos.

***

Dersu Uzala – Akira Kurosawa (Japão/Rússia, 1975)

Filme: Dersu Uzala | Direção: Akira Kurosawa | Drama/aventura | 142 min | Japão/Rússia | 1975

Sinopse: Dersu Uzala é um canto perfeito sobre a delicada relação entre dois mundos em vias de extinção: os cavaleiros exploradores do século XIX e os homens livres das montanhas. O capitão Vladimir Arseniev (1872-1930), um dos maiores exploradores russos, percorre a floresta oriental da Sibéria, elaborando mapas, cruzando rios e atravessando grandes florestas virgens. É uma viagem iniciática. A narração vai revelando o sentido da vida através dos olhos e das palavras de Dersu Uzala, o grande mestre vital, o Basho de Kamchatka. Baseado no livro de viagens escrito pelo capitão durante as suas três expedições geológicas, levadas a cabo por ordem do Czar entre 1902 e 1908. Dersu é a representação da vida do homem em conexão com a natureza, algo que já vai ficando longe das requintadas sociedades urbanas do início do século XX na Rússia. Com Dersu a floresta está animada, plena de mensagens: o fogo e a lua falam, o rio e as árvores são os seus habitantes. Dersu ensinará Vladimir e conviver em harmonia com a natureza e a respeitá-la para não perturbar a sua existência. Quando Arseniev e Kurosawa nos revelam o fascínio crescente que a taiga tem sobre eles, surgem as cores das estações na floresta mágica da Sibéria.
** Disponível online/legendas em português.

– ficha técnica –
Elenco: Aleksandr Pyatkov, B. Khorulev, Dmitri Korshikov, Maksim Munzuk, Mikhail Bychkov, Nikolai Volkov, Sovetbek Dzhumadylov, Suimenkul Chokmorov, Svetlana Danilchenko, Vladimir Kremena e Yuri Solomin
Argumento original: Vladimir Arsenyev
Roteiro: Akira Kurosawa, Yuri Nagibin
Direção de fotografia: Asakazu Nakai, Fyodor Dobronravov e Yuri Gantman
Trilha sonora: Issak Shvarts
Direção de arte: Yuri Raksha
Edição: Valentina Stepanova
Produção: Nikolai Sizov e Yoichi Matsue
Estúdios: Mosfilm; Atelier 41; Daiei Motion Picture Company

Verbete biográfico:

Akira Kurosawa

Direção: Akira Kurosawa (1910-1998)
Nascido em Oimachi, distrito de Tóquio, Akira Kurosawa, um dos mais brilhantes e influentes cineastas do mundo, estudou desenho no Centro Proletário de Pesquisas de Arte. Trabalhou como ilustrador de revista e assistente de direção no Estúdio PCL (hoje, Toho). Sua estreia como diretor se deu em 1943, com “A Saga do Judô”. Crítico do fascismo japonês, mas também da colonização cultural americana que sobreveio à ocupação, criou o gênero samurai – baseado no valor da preservação da honra em qualquer situação – que celebrizou o cinema do Japão. Amante da literatura ocidental, transpôs para o ambiente japonês clássicos de Gorki, Dostoievsky e Shakespeare. Realizou 30 filmes, entre os quais “Rashomon” (1950), Leão de Ouro no Festival de Veneza; “O Idiota” (1951); “Viver” (1952); “Os Sete Samurais” (1954), Leão de Prata em Veneza; “Trono Manchado de Sangue” (1957); “Ralé” (1957); “A Fortaleza Escondida” (1958), Urso de Prata no Festival de Berlim; “Yojimbo” (1961); “Céu e Inferno” (1963); “Dodeskaden” (1970); “Dersu Uzala” (1975), Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Medalha de Ouro no Festival de Moscou; “Kagemusha” (1980); ”Ran” (1985), Palma de Ouro em Cannes e César de Melhor Filme Estrangeiro; “Sonhos” (1990); “Rapsódia em Agosto” (1991), “Mandayo” (1993).

Argumento original: Vladimir Arsenyev (1872-1930)
Vladimir Klavdiyevich Arsenyev nasceu em São Petersburgo. Após uma educação militar, começou suas expedições às florestas do Extremo Oriente. Escreveu muitos livros sobre essas explorações, incluindo cerca de 60 obras sobre geografia, vida selvagem e etnografia das regiões em que viajou. Seu livro mais famoso, “Dersu Uzala”, reúne memórias de três expedições na taga siberiana do norte da Ásia. O título do livro é o nome de seu guia nessas aventuras, um nativo da tribo Nanai/Goldi. O livro recebeu duas adaptações cinematográficas, uma pelo diretor soviético Agasi Babayan em 1961, a outra, realizada pelo cineasta japonês Akira Kurosawa em 1975, ganhou o Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

O Livro: ARSENIEV, Vladimir. Dersu uzala. [tradução Aguinaldo Anselmo Franco de Bastos e Lucy Ribeiro de Moura; ilustrações S. V. Iukin]. Belo Horizonte: Veredas, 1989; 2ª ed., 1997 | Sinopse: Este livro é um hino às montanhas, planícies e florestas; às cavernas e gargantas, às corredeiras e cascatas. Canta o vento e o silêncio antes da tempestade, os bichos da Sibéria Oriental e a gente que vai e vem pelas veredas, habita os vales ou as margens do rio, e vive da caça e da pesca ou da plantação. Mas o que nos toca é quando nos apresenta um homem que é modelo de pureza, de coragem e de desprendimento, de sabedoria e de tolerância. Esse homem é Dersu da tribo dos Uzala, um velho caçador indígena que o autor conheceu quando realizava uma expedição pelos confins da Sibéria, e a quem se ligou por uma forte amizade. Convivendo com as plantas e as estrelas, Dersu decifra com grande sagacidade e intuição prodigiosa os segredos da natureza. Ele conhece, compreende e ama todas as formas e manifestações da vida.

Isaak Shwarts

Música original: Isaak Shwarts (1923-2009)
Isaak Iosifovich Schwartz nasceu em Romny, Ucrânia. Sua família mudou-se para Leningrado em 1930. Estudou piano e deu seu primeiro concerto em 1935 com a Orquestra Filarmônica daquela cidade. Durante a 2ª. Guerra Mundial, dirigiu uma das seções do Coro do Exército Vermelho. Estreou no cinema compondo a trilha de “O Nosso Correspondente” (Anatoliy Granik) em 1959. Criou a música de mais de 100 filmes, incluindo “O Sol Branco do Deserto” ( Vladimir Motyl, 1969), “A Cativante Estrela da Felicidade” (Vladimir Motyl, 1975), “Dersu Uzala” (Akira Kurosawa, 1975). Recebeu o prestigiado Prêmio Nika da Academia Russa de Artes e Ciências do Cinema, em 1992, por sua música para os filmes “Rei Branco, Rainha Vermelha” (Serguey Bodrov) e “Luna Park” (Pavel Lungin). Também escreveu música para balés, teatro e televisão.

Prêmios

  • Oscar 1976 – Melhor Filme Estrangeiro
  • Festival de Cinema de Moscovo 1975 – Grande Prêmio, Prêmio FIPRESCI
  • Prêmios David di Donatello 1976 – Melhor Realizador Estrangeiro

Outras referências biográficas do livro e filme ‘Dersu Uzala’

ARSENIEV, Vladimir. Dersu uzala. [tradução Aguinaldo Anselmo Franco de Bastos e Lucy Ribeiro de Moura; ilustrações S. V. Iukin]. Belo Horizonte: Veredas, 1989; 2ª ed., 1997.
CONDORELLI, Antonino. Dersu Uzala – Hibridação Homem-Natureza. (Dissertação Mestrado em Educação). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, UFRN, 2011. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
CONDORELLI, Antonino. O pequeno homem das grandes florestas: diálogo entre saberes e educação transcultural e partir de Dersu Uzala. in: Revista Metáfora Educacional, on-line, n. 10, jun./2011. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
DEDA, Rodrigo. Dersu Uzala, ou como aprendi que é necessário deixar um legado. in: Gazeta do Povo, 4.2.2016. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
DICK, André. Dersu Uzala (1975). in: Cinematographecinemafilmes, nov/2018. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
DUARTE, Miguel Fernandes. ‘Dersu Uzala’: um olhar sobre a humanidade. in: Comunidade Cultura e Arte, 4.8.2016. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
FAN. Ritter. Crítica. Dersu Uzala. in: Plano Crítico, 5.8.2018. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
IZIDORO, Chico. Dersu Uzala – Longa mostra a amizade improvável de um militar e um caçador na Sibéria. in: Correio do Povo, 5.8.2020. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
MARCELINO, Camila Barbosa. Dersu Uzala (Akira Kurosawa, 1975). in: RUA – Revista Universitária do Audiovisual, 14.8.2008. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
MARQUES, Vasco Baptista. O último dos bravos – Um filme de aventuras que se lê como um tratado de epistemologia: é a reposição em sala de uma obra-prima de Akira Kurosawa. in: Expresso, 15.8.2016. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
MENDOZA, Helder Quiroga. Cinema e poesia – uma relação intersemiótica em Akira Kurosawa. (Dissertação Mestrado em Comunicação). Universidade de Brasília, UnB, 2006. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
OLIVEIRA, Luís Miguel. A natureza é o sangue de Dersu Uzala. in: Público, 3.8.2016. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
PEDRO, Arlindenor. Por que (re)ver Dersu Uzala. in: Outras Palavras, 4.1.2012. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).
RODRIGUES, Rubens. Crítica: Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa. in: Correio do Povo, 2.12.2019. Disponível no link. (acessado em 1.3.2021).

 

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