©Sorin Dumitrescu Mihaesti
Que se passa com este garoto, que não quer dormir? Acorda cedo, vai à praia, almoça um boi, janta outro, pula feito macaco, está exausto até o sabugo da alma; entretanto, quando o sol se recolhe, ele não faz o mesmo. Pretenderá abolir a noite, prosseguindo infindavelmente nos jogos e experiências do dia claro.
Livros especializados responderiam à pergunta. Mas um avô que se preza jamais recorreria à ciência dos outros para iluminar sua ignorância. A resposta deve vir da compreensão amorosa, forrada de paciência, que costuma falecer aos avós mais aperfeiçoados.
Não, o guri não quer saltar sempre, como brinquedo a que se desse corda infinita. Seus olhos já não têm aquele foguinho azul-claro que crepitava a cada hipótese de prazer, durante o dia. Estão baços e estreitos, como convém à viagem do sono. E se o menino não se dispõe a empreendê-la, é porque sabe que irá sozinho, que todos nós dormimos abandonados e ermos, que o mundo murcha em nosso redor, e perdemos todo contato com a corrente da vida. Se a casa inteira fosse dormir, bem seria um mergulho geral, e os sonos se sentiriam solidários; mas é cruel ir para a cama, e saber que lá embaixo a vida está acontecendo em volta à mesa do jantar, e o riso imprudente dos adultos soa como um odioso privilégio. Então se desenrola o entreato da escada.
A escada marca a separação de dois mundos: o mundo propriamente dito e a solidão. É longa, e cada degrau que se sobe representa um passo para o exílio. Deve-se subi-la devagarinho, e descê-la em ritmo de carga de cavalaria. Infelizmente, é hora de subir. As autoridades, sob compromisso de recolhimento pacífico, prometeram um serão mais longo, mas tudo acaba, e temos de enfrentar a noite e seus espaços vazios e desolados.
— Anda mais depressa, menino.
— Um momentito. Tenho ganas de coçar-me as rodijas.
Senta-se e começa a coçar-se, na calma. Levanta-se e olha para baixo, saudoso, como do alto de um clipper.
— Mamãe…
— Que é?
— Amanhã bos me regalás uma cosita que eu quero mucho?
— Que coisa, filhinho?
— Todavia não sé. Es um negocio mui lindo, focê sabe?
— Bem, amanhã você lembra e me diz. Agora vai dormirzinho, vai.
— Quero água.
— Mas, meu bem, agorinha mesmo você bebeu um copo d’água!
— Quero más.
— Deita, e mamãe te traz água.
— Sim, voi acostarme. E me contás um conto de Ruãozinho e Maria?
Vários contos são contados, já na cama, e o menino parece vencido. A família janta, satisfeita. Ouve-se um lamento débil:
— Mamãe…
— Que é?
— Me olvidê de cepijar os dentes.
— É engano, filhinho, você escovou.
— Escovê mal.
— Vai dormir, menino.
Ruído na escada. Então, ele não estava falando da cama?
— Volte para o quarto e fique quietinho.
Faz que volta, sobe um degrau. Nova pausa, e recomeçam os apelos suaves e melancólicos de comunhão. Precisa contar o tombo que o Valdemar levou hoje na escola. Recorda-se de que a porta do “comedor” em Buenos Aires não ficou fechada aquele dia, e entrou um imenso galo cor de escuridão. Precisa atender a uma necessidade urgente; não podem ajudá-lo a acender a luz, tão alta? Quando baixarão los marcianos, que viajam em aviões-foguetes?
As pessoas perdem a paciência, divertem-se, ameaçam, imploram-lhe que durma só um pouquinho. Imagem de vigília, mãos no rosto, bocejante e perseverante, sentado no alto da escada, seu pequenino corpo escondido no pijama parece aguardar que um cataclismo subverta a face da terra, e as pessoas crescidas voltem a ser crianças para entenderem a tristura de adormecer.
— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.
SOBRE O LIVRO
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.
FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
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