Acabo de terminar a leitura de O Pensamento Chinês de Marcel Granet e me encontro tomado por um prazer raro e por um espanto ainda mais raro. Não é apenas a descoberta de um livro. É o mergulho em uma forma de ver o mundo que se desdobra em ritmos, números, ritos, cosmos, moral e política, uma visão que parece tão distante da nossa mas que, aos poucos, se revela de uma clareza e de uma beleza que só pode ser descrita como sedutora. A obra de Granet não é apenas uma incursão pela história do pensamento da China antiga. É uma observação sociológica inspirada pela tradição de Durkheim e Marcel Mauss. Nela o autor articula categorias, correspondências e sistemas simbólicos que revelam um universo inteiro sustentado por uma lógica própria. Ao ler o texto senti a presença da herança durkheimiana: a tentativa de compreender a vida social por meio dos rituais, das formas coletivas de sentir e pensar, do modo como o simbólico organiza o real. Também percebi a marca de Mauss: a atenção aos gestos, aos dons, às relações, às trocas, aos modos concretos de articular a vida em comum.
A leitura me transportou para um espaço de pensamento que não é o da filosofia ocidental clássica, mas o de uma sabedoria prática, histórica, comunitária, ritualizada, sensível ao ritmo e às relações. Não encontrei o dualismo que me habitua, não vi sujeito e objeto, espírito e matéria, ser e não ser. Encontrei números que se desdobram em ordens de mundo, direções que se cruzam em mapas do cosmos, ritos que organizam a vida, governantes que legitimam seu poder pela benevolência, pelos ritos ou pela história. O livro é um quadro vivo, uma tapeçaria, uma pintura feita de correspondências. Ele se apresenta como um ensaio, mas sua estrutura é tão precisa que se lê como um tratado.
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Não posso esconder que meu conhecimento sobre a China é quase zero. Não sou especialista, não domino a língua, não conheço profundamente sua história. Mas li com atenção e entusiasmo textos da professora Carmen Lícia Palazzo, minha principal fonte sobre a China e sobre a Ásia. E é justo dizer que, sem essa mediação, talvez eu não tivesse me aventurado com tanto gosto nas páginas de Granet. Os textos de Carmen Lícia Palazzo são lindos, impactantes, emocionantes. Ela escreve com um rigor sociológico, mas também com uma intensidade literária que transforma a leitura em experiência. Quando fala dos viajantes, dos missionários, das rotas que ligam o Ocidente e o Oriente, sua escrita abre janelas, provoca um deslumbramento que se mistura à análise. Sua visão radicalmente literária e sociológica ensinou-me a ler a China como se lê uma obra de arte: com espanto, com abertura, com entrega.
Foi nesse espírito que recebi O Pensamento Chinês. Granet descreve um mundo que não é o da abstração filosófica, mas o das correlações concretas. As ideias não se separam da vida. As teorias não se separam dos gestos. O pensamento chinês, tal como apresentado por ele, não busca princípios universais, mas organiza os acontecimentos por ritmos, harmonias, correspondências. Quando Mêncio fala de benevolência, quando Xunzi fala dos ritos, quando Dong Zhongshu fala da história, todos estão articulando ética, política e cosmologia em uma unidade. Não há a separação entre política e religião, entre ciência e mito, entre moral e natureza. Há um tecido vivo em que tudo se entrelaça.
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Ao ler esse texto compreendi por que Mauss o considerava um dos melhores exemplos de sociologia aplicada à história. Granet não interpreta os clássicos chineses apenas como filosofia. Ele os lê como expressão de uma sociedade, como cristalização de uma forma de viver. O livro não é apenas uma tradução de conceitos, mas uma sociologia do pensamento. O efeito disso é duplo: por um lado, é um exercício erudito de análise; por outro, é um convite a repensar os limites de nossa própria forma de pensar.
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Enquanto avançava pelas páginas, percebia que minha curiosidade sobre a China e sobre a Ásia crescia. Cada conceito, cada ritual, cada correspondência, cada descrição de calendário ou de número abria um horizonte novo. Passei a imaginar a Ásia não apenas como um espaço distante, mas como um continente de ideias que ainda me falta conhecer. Senti o mesmo prazer que Carmen Lícia Palazzo me transmitiu em seus textos quando fala da Rota da Seda, dos jesuítas na China, das viagens de Alexandra David-Néel. Essa curiosidade não é apenas intelectual. É também afetiva. É o desejo de compreender como outros povos organizaram sua visão de mundo, como se articularam suas cosmologias, como traduziram em práticas e ritos as perguntas fundamentais da existência.

É preciso dizer que O Pensamento Chinês é um texto sedutor porque não se limita a expor fatos. Ele constrói uma narrativa que nos prende. É erudito, mas é também literário. Sua densidade não impede que seja lido com emoção. Há passagens que parecem composições poéticas, na medida em que o autor descreve o calendário, os números, os espaços, como se descrevesse uma dança cósmica. Essa beleza literária se soma à força sociológica da análise. O resultado é um texto que se lê como se lê um romance intelectual.
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Termino a leitura com uma sensação paradoxal: de ignorância e de descoberta. Ignorância, porque sei que minha bagagem sobre a China ainda é mínima. Descoberta, porque percebo que existe um mundo de saberes que me chama. Granet me abriu uma porta e Carmen Lícia Palazzo me deu a chave para entrar. A combinação de ambos me deixou mais curioso do que nunca. Sinto que preciso explorar mais, aprender mais, mergulhar mais fundo. A Ásia, que me parecia distante, agora se apresenta como território de pensamento, como campo de estudo, como horizonte de encantamento.
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Escrevo esta resenha ensaio como registro desse momento: prazer e espanto. A tradição sociológica de Durkheim e Mauss, filtrada pelo olhar de Granet, tornou-se para mim não apenas uma teoria, mas uma experiência de leitura. A mediação de Carmen Lícia Palazzo, com sua escrita literária e sociológica, intensificou essa experiência e me ensinou a ler com espanto e curiosidade. Minha aventura com O Pensamento Chinês não termina aqui. É apenas o começo de um caminho que quero percorrer.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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