O esplendor dos Ipês, por Paulo Baía
Há um instante em que a natureza decide tomar para si o centro do palco e vestir-se de festa. Esse instante acontece todos os anos, quando os Ipês do Rio de Janeiro e de Brasília resolvem florescer. O céu se curva para vê-los, as ruas se transformam em salões e o tempo se rende ao espetáculo. Não há rotina que resista à beleza dos Ipês Roxos, dos Amarelos e dos Brancos. É como se o mundo, de repente, se lembrasse de que a vida pulsa em cores intensas, de que a existência ainda pode ser puro milagre.
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A cada ano que passa, a cada ruga que o tempo desenha no rosto, mais cresce a paixão pela floração dos Ipês. Há uma espécie de gratidão silenciosa que brota diante desse ritual da natureza. No Rio de Janeiro, os Ipês se abrem como se quisessem disputar a atenção do mar e das montanhas. Em Brasília, erguem-se solenes contra o horizonte seco, como bandeiras de resistência ao inverno árido do Planalto. Não importa o cenário: quando os Ipês florescem, o mundo inteiro se torna templo.
O Roxo explode em intensidade, como se carregasse a alma dos poetas que nunca se cansam de anunciar o impossível. O Amarelo é sol duplicado, é ouro que não se vende, é clarão que invade as manhãs e enche de alegria os olhos cansados dos transeuntes. O Branco é pureza e silêncio, é paz que se deixa tocar, é promessa de que ainda é possível acreditar na delicadeza em meio ao caos. Cada cor é uma estação dentro da estação, uma vida dentro da vida, um sonho dentro do tempo.
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Não há coração que passe ileso. A pressa diminui, os passos se tornam mais lentos, os olhares se erguem do chão. Homens e mulheres, crianças e velhos, todos se curvam diante desse espetáculo gratuito. É como se a natureza nos lembrasse de que não somos donos de nada, mas convidados de honra de um banquete que não tem fim. A cada flor que cai sobre o asfalto, nasce uma pequena revelação: o tempo é breve, mas a beleza é infinita.
E quando o vento sopra, levando as pétalas como se fossem cartas ao céu, o espírito se abre para a eternidade. A cidade se enche de poesia sem precisar de palavras. O asfalto se cobre de tapetes dourados, lilases, alvos. É chão de festa, é chão de promessa. Brasília se reveste de esplendor contra a secura, o Rio se ilumina em contraste com a umidade. O Brasil se reconhece nesse gesto de generosidade silenciosa, nesse luxo que não depende de dinheiro nem de poder.
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A cada ano que envelheço mais me apaixono pela floração dos Ipês. Porque vejo neles um espelho do que a vida poderia ser: breve, intensa, colorida, generosa. Há algo de sagrado nesse espetáculo, algo que não se explica mas que se sente como pulsação, como chama, como música. O esplendor dos Ipês é mais que uma paisagem: é um chamado. Chamado para viver, para sentir, para não esquecer que, apesar de tudo, o mundo ainda floresce. E nesse instante de epifania, diante do perfume e da cor, diante da abundância que cai sobre nós como bênção gratuita, é impossível não perceber: “a vida presta”.
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* Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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