MÚSICA

O cancioneiro de Ella Fitzgerald

A inesquecível cantora de jazz gravou os clássicos do grande repertório norte-americano
– por Carlos Galilea/ El País*

Ella Fitzgerald tinha a mesma idade que o primeiro disco de jazz. Sua ascensão foi rápida: já em 1937 os leitores da revista Down Beat a elegeram como sua cantora favorita. Na década de cinquenta, o empresário Norman Granz a convenceu a deixá-lo conduzir a sua carreira, até então administrada por seu representante, Mo Gale, e o produtor de discos Milt Gabler. Em 1955, ela deixou a Decca, companhia fonográfica na qual passara vinte anos e com a qual gravava desde que começou como cantora da orquestra de Chick Webb com apenas 17 anos. Ela ainda não sabia, mas a chamada Primeira Dama do Swing estava prestes a se tornar a Primeira Dama da Canção.

Seus últimos discos não estavam vendendo bem e Ella se sentia frustrada. Em janeiro de 1956, levada por Granz, assinou contrato com a Verve. O primeiro projeto com o novo selo foi um LP duplo com canções de Cole Porter. Somente no primeiro mês, venderam-se 100.000 cópias. Entre fevereiro de 1956 –Elvis Presley acabara de chegar ao topo das listas de mais vendidos—e julho de 1959, Ella Fitzgerald gravou oito discos com alguns dos melhores títulos do grande cancioneiro norte-americano: aquele que floresceu desde os anos vinte até meados do século passado e no qual Bob Dylan cavava o seu caminho.

Os discos saíram entre 56 e 64, na seguinte ordem: Sings the Cole Porter Songbook, Sings the Rodgers & Hart Songbook, Sings the Duke Ellington Songbook, Sings the Irving Berlin Songbook, Sings the George and Ira Gershwin Songbook, Sings the Harold Arlen Songbook, Sings the Jerome Kern Songbook y Sings the Johnny Mercer Songbook. Atribui-se a Ira Gershwin o seguinte comentário: “Eu não sabia como eram boas as nossas canções até que ouvi Ella cantá-las”. Um último disco seria acrescentado à série em 1981, lançado pela Pablo Records e dedicado a um compositor da América do Sul: Ella abraça Jobim (Ella Fitzgerald Sings the Antonio Carlos Jobim Songbook).

Depois de sua morte, Frank Rich escreveu no The New York Times que, com seus songbooks, a cantora “realizou uma operação cultural tão extraordinária como a integração contemporânea de Elvis entre a alma branca e a afro-americana. Era uma mulher negra popularizando canções urbanas muitas vezes compostas por imigrantes judeus para um público predominantemente de brancos cristãos”.

Ella não tinha muita consciência daquilo que sua obra significou. E nunca deu margem a que o público pudesse achar que a letra de alguma das canções que interpretava se referisse à sua vida privada, a respeito da qual evitava falar. Becoming Ella: The Jazz Genius Who Transformed American Song, biografia que está sendo escrita pela professora Judith Tick, que dará uma atenção especial para todo o contexto cultural em que viveu a cantora. A mulher que cantava com a espontaneidade inocente e alegre de quem provavelmente jamais deixou de ser uma criança. A mesma que dizia que gostaria de ter sido bonita e que afirmava que a única coisa melhor do que cantar é cantar ainda mais.

:: Site oficial: Ella Fitzgerald
:: Canal oficial Ella Fitzgerald no youtube.

*Originalmente publicado em El País/Brasil.

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Paulinho Moska apresenta ‘Os Violões Fênix do Museu Nacional’ na Caixa Cultural Rio

Moska leva aos palcos da CAIXA Cultural RJ, violões de alta qualidade feitos de madeiras…

1 dia ago

Projeto Vozes Vissungueiras lança em São Paulo documentário e vinil dedicado à preservação da memória afro-mineira

Vozes Vissungueiras amplia legado com documentário inédito e edição exclusiva em vinil do álbum dedicado…

2 dias ago

Altemar Dutra Jr. homenageia Frank Sinatra em concerto com a SP Pop’s Big Band no Teatro B32

No dia 9 de agosto, às 18h, o interprete Altemar Dutra Jr. apresenta o espetáculo…

3 dias ago

Celebração do Dia Fora do Tempo com concerto musical na Casa de Mystérios

Mediterrâneo e Oriente Médio em Diálogo Musical. No sábado, 25 de julho, às 18h, o…

3 dias ago

Livro: Coletânea reúne textos raros de Pierre Verger

Em parceria, instituto Çarê e Fundação Pierre Verger publicam ensaios escritos pelo etnógrafo entre os…

3 dias ago

Álbum reúne Rodrigo Vellozo, Rodrigo Campos, Thiago França e Fumaça em releituras contemporâneas da obra de Benito Di Paula

Disco celebra os 85 anos de Benito Di Paula e reafirma a atualidade de um…

3 dias ago