Há intelectuais que envelhecem com o tempo e há aqueles que, paradoxalmente, se tornam mais atuais à medida que o país reencontra seus dilemas estruturais. Manuel Nunes Pereira pertence a esse segundo grupo. Sua obra, escrita ao longo do século XX, dialoga com o Brasil de 2026 com uma nitidez quase desconcertante. Num momento em que o debate público brasileiro se vê atravessado por disputas intensas em torno de raça, negritude, mestiçagem e parditude, revisitar Nunes Pereira não é um exercício de arqueologia intelectual. É um gesto de lucidez sociológica. Sua trajetória e seus escritos oferecem instrumentos sofisticados para pensar um país que insiste em simplificar a si mesmo, ora pela negação das desigualdades raciais, ora por leituras que, ao absolutizarem identidades, perdem de vista a complexidade histórica da formação social brasileira.
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Nunes Pereira foi um mestiço que se declarava mestiço. Essa afirmação, simples na forma, é densa em implicações. Ao assumir publicamente sua condição mestiça, ele não apenas descrevia uma origem familiar ou um traço fenotípico. Ele afirmava uma posição social, histórica e intelectual. A mestiçagem, para ele, não era metáfora conciliatória nem retórica ideológica. Era experiência vivida, atravessada por hierarquias, afetos, ambiguidades e conflitos. Era condição concreta de existência no Brasil. Ao reconhecer-se mestiço, Nunes Pereira falava de um lugar social que conhecia por dentro. Falava de um Brasil que se fez no cruzamento entre matrizes africanas, indígenas e europeias, sem que esse cruzamento apagasse violências, desigualdades ou assimetrias de poder.
Sua obra antecipa, com impressionante sensibilidade empírica, questões que hoje ocupam o centro do debate público. Quando se discute, no Brasil de 2026, a categoria pardo, suas disputas simbólicas, seus usos políticos e suas ambiguidades identitárias, Nunes Pereira surge como referência incontornável. Ele compreendeu cedo que a mestiçagem não dissolvia a questão racial. Ao contrário, produzia formas específicas de vivência da cor, do pertencimento e do reconhecimento social. Sua leitura da mestiçagem é tudo menos ingênua. Não celebra uma harmonia inexistente. Não encobre desigualdades. Mas também não reduz a experiência social brasileira a um esquema binário incapaz de dar conta da complexidade histórica do país.
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Esse olhar refinado nasce de uma trajetória intelectual singular. Nunes Pereira foi autodidata, mas nunca improvisado. Seu autodidatismo foi rigor, disciplina e curiosidade permanente. Leu muito, observou muito, escutou muito. Formou-se intelectualmente na convivência prolongada com a vida social amazônica e maranhense. Prestou atenção ao cotidiano. À fala comum. Aos gestos ordinários. Às práticas religiosas. Às narrativas indígenas. À sociabilidade popular. Sua erudição não se construiu à margem da vida. Construiu-se dentro dela. Essa característica confere à sua obra uma densidade que resiste ao tempo.
O pioneirismo de Nunes Pereira no estudo dos Negros Mina, no Maranhão, constitui um dos pilares de sua importância para as ciências sociais brasileiras. Ao dedicar atenção sistemática à Casa das Minas e ao Tambor de Mina, ele rompeu com leituras redutoras que viam as religiões afro-brasileiras como folclore residual ou como sobrevivências fragmentadas de uma África congelada no passado. Para Nunes Pereira, a Casa das Minas era instituição histórica viva. Era espaço de organização social, de transmissão de saber, de elaboração ética e estética. Era arquivo atlântico, guardião de uma memória africana reelaborada no Brasil.
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Ao tratar os Negros Mina como sujeitos históricos, Nunes Pereira produziu uma inflexão decisiva no modo de compreender a religiosidade popular afro-brasileira. O culto não aparece como crença isolada. Aparece como forma social completa. Como linguagem coletiva. Como tecnologia simbólica de proteção e resistência num contexto de racismo estrutural e exclusão social. Sua escrita registra rituais, hierarquias, nomes e silêncios com respeito e precisão. Ele compreende que há saberes que não se oferecem facilmente à exposição pública. E, ao respeitar esses limites, confere ainda mais densidade sociológica à sua obra.
Esse gesto é de enorme atualidade. No Brasil contemporâneo, marcado por disputas em torno da visibilidade das religiões de matriz africana e pela persistência da intolerância religiosa, Nunes Pereira ensina que compreender é também proteger. Que estudar não é violar. Que produzir conhecimento sobre o outro exige ética, responsabilidade e consciência das assimetrias de poder envolvidas no ato de pesquisar. Sua obra oferece um contraponto sofisticado tanto às leituras exotizantes quanto às abordagens que instrumentalizam a religiosidade afro-brasileira como simples dado ilustrativo.
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Mas a grandeza de Nunes Pereira não se limita ao universo afro-maranhense. Sua atenção à cosmovisão indígena amazônica amplia ainda mais o alcance de sua contribuição. Ao recolher mitos, narrativas e sistemas simbólicos indígenas, ele recusa a ideia de que esses povos representariam um passado condenado ao desaparecimento. Para Nunes Pereira, os mitos indígenas são formas de pensamento. São modos de compreender o mundo. São narrativas carregadas de lógica, ética e imaginação social. Sua escrita preserva o ritmo e a ambiguidade dessas narrativas. Não as reduz a esquemas explicativos simplificadores. Permite que a alteridade permaneça visível.
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Essa postura confere à sua obra indígena uma atualidade impressionante. Em tempos em que se discute a pluralidade de formas de conhecimento, a legitimidade de epistemologias não ocidentais e a necessidade de ouvir os povos indígenas como sujeitos de pensamento, Nunes Pereira surge como precursor sensível. Ele não usou o vocabulário contemporâneo dessas discussões. Mas praticou, na escrita e na escuta, aquilo que hoje se reivindica como princípio teórico. Levou a sério o pensamento indígena. Reconheceu sua autonomia. Respeitou sua complexidade.
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Ao articular o Brasil afro-atlântico e o Brasil indígena, Nunes Pereira recusou uma divisão artificial que marcou por muito tempo as ciências sociais brasileiras. Em sua obra, esses mundos se comunicam. Revelam a pluralidade constitutiva da formação social do país. Revelam que a mestiçagem não é apenas cruzamento biológico, mas também trânsito simbólico, circulação de saberes, convivência de cosmologias distintas no mesmo espaço social.
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Sua vida no Rio de Janeiro, especialmente em Santa Teresa, foi extensão dessa postura intelectual. Foi em seu apartamento na rua Almirante Alexandrino que tive o privilégio de conhecê-lo, em 1980, levado pela amiga e professora Moema Toscano. A memória desse encontro é inseparável da compreensão de sua obra. Nunes Pereira falava com serenidade, ironia discreta e conhecimento profundo da vida brasileira. Não havia afetação. Não havia arrogância acadêmica. Havia curiosidade permanente. Havia atenção ao detalhe. Havia consciência de que o saber se constrói na escuta.
Seu gosto pelos sábados no Bar e Restaurante Amarelinho, na Cinelândia, onde ia comer uma feijoada, não é anedota irrelevante. É dado sociológico. Revela um intelectual que não se afastou da vida urbana popular. Que circulava pela cidade. Que observava práticas ordinárias. Que compreendia a sociabilidade como espaço de produção de sentido. Sua sociologia não se fazia apenas nos livros. Fazia-se também na mesa do bar, na conversa informal, no contato com a cidade viva.
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A presença de Nunes Pereira na obra e no horizonte de outros estudiosos das ciências sociais brasileiras se dá de modo particular. Ele não foi fundador de escola institucionalizada. Foi precursor empírico. Foi fonte. Foi aquele que abriu caminhos e forneceu material que outros sistematizariam teoricamente. Sua obra aparece como referência histórica fundamental em estudos posteriores sobre religiosidade afro-brasileira e culturas indígenas. Essa presença, muitas vezes silenciosa, revela tanto sua importância quanto as limitações de um campo acadêmico que, ao se institucionalizar, nem sempre soube reconhecer plenamente aqueles que o antecederam.
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Revisitar Nunes Pereira no Brasil de 2026 é, portanto, um gesto político e intelectual. É reconhecer que os debates contemporâneos sobre raça, negritude, mestiçagem e parditude exigem mais do que slogans ou categorias rígidas. Exigem compreensão histórica. Exigem sensibilidade sociológica. Exigem atenção às experiências vividas. Nunes Pereira oferece exatamente isso. Uma leitura do Brasil que não apaga conflitos, mas também não se rende à simplificação. Uma leitura que reconhece a violência da formação social brasileira sem reduzir seus sujeitos a caricaturas analíticas.
Sua obra ensina que a mestiçagem pode ser pensada como inteligência social. Como capacidade histórica de produzir sentidos, práticas e formas de convivência em contextos adversos. Ensina que a negritude, no Brasil, não se constrói apenas pela oposição, mas também pela invenção cultural contínua. Ensina que a parditude, longe de ser categoria vazia, expressa experiências concretas de pertencimento e exclusão. Ensina que compreender o Brasil exige lidar com essas camadas simultaneamente.
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Nunes Pereira permanece atual porque recusou as soluções fáceis. Porque escolheu o caminho mais difícil. O da observação paciente. O da escuta respeitosa. O da escrita atenta às formas da vida social. Sua contribuição às ciências sociais brasileiras não é apenas histórica. É intelectual e moral. Ele nos lembra que o rigor sociológico não se opõe à sensibilidade. Que a erudição não exclui a emoção. Que a ciência social ganha força quando se deixa atravessar pela vida.
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Este ensaio reafirma a necessidade urgente de reler Nunes Pereira. De visitar seus textos. De escutar novamente sua voz. Num país atravessado por disputas identitárias intensas e, muitas vezes, empobrecidas, sua obra oferece uma compreensão sofisticada, capaz de iluminar o presente sem negar o passado. Nunes Pereira nos ajuda a pensar o Brasil como ele é. Mestiço. Plural. Conflitivo. Criativo. Multiracial. Vivo.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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