LITERATURA

Nos reinos de Goiás (A vida e suas contradições) – Cora Coralina

O medo é uma presilha e o medroso não sai do lugar.
Estabeleceu um cercadinho limitante e ali se estabeleceu limitado.
O corajoso caminha sempre para a frente,
aceita as paradas e aproveita as ofertas.
E sua tulha transbordará no final.
.
Há um determinismo constrangendo as criaturas.
Minha gente do Estado de Goiás, muitos poderiam estar,
senão ricos, remediados.
Da mudança para Goiânia, suas ofertas, lotes, casas e chácaras,
terrenos baratos em sua volta. Um decreto do Governador
oferecendo lotes na “nova” a todos os proprietários da “velha”
que requeressem no sentido de compensação generosa,
consequente a desvalorização da velha Capital.

Vendedores de lotes a prestação ofereciam de porta em porta,
traziam mapas, informavam.
Na minha terra, seus costumes: batiam no corredor.
A dona da casa mandava espiar pelo buraco da fechadura:
“Se for vendedor de lote de Goiânia, fala que não tem
ninguém em casa…”
Lotes de ótima procedência, prazo longo,
tolerância nos possíveis atrasos,
amortização de vinte mil réis por mês.
Qualquer pobre podia pagar. Rejeitaram esses, os ladinos.
Não acreditavam, tinham medo de perder suas vinte pratas.
Cá ficaram no “ora vejam”.

Os destemidos e crédulos avançaram e estão na crista da valorização
imobiliária. A mesma situação conheci em Andradina.
Vi pessoas entregarem seus lotes à Firma, Moura Andrade.
Outras casas feitas de material. Diziam: “Ah! Seu Andrade quer
é que a gente abra isso aqui pra ele. Depois toma tudo da gente…”
Estão pra lá, e os que acreditaram e tiveram boa-fé, enriqueceram.
A vida e suas contradições.
.
– Cora Coralina, no livro “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”. Global Editora, 2024.
.
§§

“Faz tempo, queria contar para sua ternura,
essas coisas miúdas que nós entendemos.
Ah! Meu amigo e confrade…
As rolinhas… as últimas, fogo-pagou, cantaram a cantiga
da despedida no telhado negro da Velha Casa.
Cantaram em nostalgia toda uma certa manhã passada.
Olhei. Eram cinco, as derradeiras.
Levantaram vôo e se foram para sempre.”
– Cora Coralina, trecho do poema “Meu amigo (in memoriam)”, no livro “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha“. Global Editora, 2024.

***

SOBRE O LIVRO
Em Cora Coralina estão as raízes de todos nós. Sua poesia constrói-se na tradição que vem dos tempos passados em busca da afirmação futura. Seu Vintém de Cobre é ouro.
Quase memórias, ou meias confissões como a autora prefere, Vintém de cobre reúne poemas ricos de experiência humana, escritos em tom simples e comunicativo, no lirismo quase de toada sertaneja, peculiar a Cora Coralina. Chamados de vintém de cobre, por malícia, são na realidade puras e autênticas moedas de ouro.
A obra de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (1889-1985), nome de batismo da autora, é um dos marcos recentes de nossa literatura.
Nascida em Goiás, em 1889, Cora teve uma trajetória literária peculiar. Embora escrevesse desde moça, tinha 76 anos quando seu primeiro livro foi publicado, e quase noventa quando sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade, responsável por sua apresentação ao mercado nacional. Desde então, sua literatura vem conquistando crítica e público.
Cora Coralina não se filiou a nenhuma corrente literária. Com um estilo pessoal, foi poeta e uma grande contadora de histórias e coisas de sua terra. O cotidiano, os causos, a velha Goiás, as inquietações humanas são temas constantes em sua obra, considerada por vários autores um registro histórico-social do século XX.

FICHA TÉCNICA
Título: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha
Páginas: 240
Formato: 23 x 1 x 16 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 25/11/2024 (11ª edição)
ISBN: 978-6556125107
Selo: Global
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Saiba mais sobre Cora Coralina:
:: Cora Coralina – venho do século passado e trago comigo todas as idades
:: Cora Coralina (outros poemas)

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