Ninguém aqui,
e o corpo diz: tudo que se diga
não se deve dizer. Mas ninguém
também é corpo, e o que diz o corpo
ninguém escuta
além de ti.
.
Neve e noite. A iteração
de um assassinato
entre as árvores. A pena
corre pela terra: não sabe mais
o que há de ser, e a mão que a sustém
sumiu.
.
Mesmo assim, escreve.
Escreve: no começo,
entre as árvores, um corpo vem andando
da noite. Escreve:
o branco do corpo
é da cor da terra. É a terra,
e a terra escreve: tudo
é da cor do silêncio.
.
Não estou mais aqui. Jamais disse
o que dizes
que disse. E, no entanto, o corpo é um lugar
onde nada morre. E a noite toda,
dentre o silêncio das árvores, tu sabes
que minha voz
vem andando para ti.

White Nights
No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.
.
Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.
.
Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body’s whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.
.
I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.
.
– Paul Auster, no livro “todos os poemas”. tradução Caetano W. Galindo. Companhia das Letras, 2013

SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - Noites brancas (White Nights) - Paul Auster
No final da década de 1970, Paul Auster ainda era um nome quase desconhecido das letras norte-americanas. Havia publicado somente algumas coletâneas de poemas, com escassa repercussão fora dos círculos de connaisseurs agrupados em torno de revistas especializadas, tais como Daimone The Mysterious Barricades. Poucos anos depois, o jovem poeta seria catapultado à fama internacional com o grande êxito de público e crítica dos romances filosófico-policiais da Trilogia de Nova York, que inauguraram uma brilhante carreira na prosa de ficção. À diferença dos escritores que iniciam suas carreiras com a composição de poemas e costumam renegar sua produção juvenil quando se tornam ficcionistas consagrados, Auster não se esqueceu dos versos que ganharam versão para o português pelo mesmo tradutor do Ulysses de James Joyce, com que se lançou na exploração da escrita literária. Ao contrário, o autor de Timbuktu costuma ressaltar a relevância pessoal e estética de sua poesia. “Continuo muito ligado à poesia que escrevi […]. Pensando bem, pode ser a melhor coisa que eu já fiz”, como afirmou em entrevista na década de 1990.
.
FICHA TÉCNICA
Título: Todos os poemas
Páginas: 352
Formato: 21 x 14 x 2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 22/2/2013 (1ª edição)
ISBN: 978-8535922172
Selo: Companhia das Letras
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