Mulher moçambicana - foto Carlos Serra

Uma breve seleção de poemas da poeta Nara Rúbia Ribeiro
“Sou devedora da Humanidade inteira.
Por isso, toda a dor do mundo me pertence
E não há sangue humano que não seja meu.” 

A HORA
A porta do tempo é opaca,
mas menino a viu entreaberta.
Foi espiar.
“- Mãe, cada minuto é feito de sessenta borboletas coloridas
Que voam depressa pra todo lugar.”
A mãe sorriu.
“- E qual a estrutura da hora, filho?”
“- A hora, mãe, é quando a matemática das borboletas se junta
E elas seguram as asas umas das outras,
cirandadas,
Como se fosse a humanidade inteira… “
A humanidade inteira,
Essa é a hora.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Não Borboletarás”, Editora Kelps, 2013.

§

SEM PELE
A alma de toda a gente tem cercanias.
A minha, não tem.
É um descampado.
Não tem telhado, não tem paredes.
Muitas vezes, nem chão.

E sinto no peito as encostas
de tudo o que sangra e corrói.

Também toda a beleza me visita sem licença
e a poesia de tudo me acontece.
Mas a beleza, não raro, ela fere.

As garras de um beija-flor podem ser mortais
a uma alma sem pele.

Então, por isso, às vezes me exaspero e grito
para que o meu peito,
em desabrigo,
não seja tão violado.

Mas quando me sai o protesto,
as minhas palavras também me sangram
e morro mais um tanto por dentro.

Já não quero a palavra que afugenta a dor.
Quero o silêncio que cicatriza a ferida
e que me prepara para a dor mais forte:
a própria Vida.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

§

AO POBRE
Tens apenas duas moedas
e a miséria te abate?
Compra um pão,
com a moeda primeira.

Com a segunda,
compra o orvalho da noite,
a amplidão: silêncio dos astros todos.
Compra os lírios que se libram
nas hastes do infinito.

Ainda com a segunda moeda,
compra o sol da manhã do destino,
a dor de amor em verso curto,
a liturgia das aves,
o ritual de acasalamento da aurora das cores.

Compra o clarão de sonho da alma do infante.
Compra, e a vida, de troco,
em troca,
dar-te-á a essência
das vidas de tua vida.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

Karen Bengo Dimenion, Dancer – foto: Alfred Weidinger

§

SENTIDO
Eu quero mais é a dor de ser gente
e esse medo macabro de já não o ser.

Quero a angústia de quem sente,
se ressente por sentir,
mas se dói dos insensíveis.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

§

TERMINAL
O passarinho estava ali,
sob a mesa há pouco desocupada
por um casal desencontrado.

Ele ciscava o chão
e comia passados.

Fagulhas de pão, fragmentos de sonho,
restolhos de dor,
partículas pequeninas de esperança.

Seu interior é uma mistura minha
do não sabido e do inventado
no ardor e no alívio
do sereno sacrifício do amar.

E quando ele voa
para as bandas de outros tempos
também ele sangra em meu pensamento.

E nem se sabe flagrado e findo
nas telas tênues do vento.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

§

SEDE
Não é a água
que me dá a vida.
É a sede.

Já não podes ser a fonte
que sacia e reabastece
o lago profundo
que sou.

És minha sede.

Sei,
teu peito encerra vasos alados
transbordantes de sonho e de azul.

Mas
é no calor dos teus lábios
que sinto o gosto orvalhado do sol.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

§

OBSERVATÓRIO DO MEU ANJO DA GUARDA
Meu anjo anda meio cansado.
Sentou-se ao pé do meu leito
E dormiu.

O tempo apiedou-se dele
E parou a contagem das horas.

Estática,
Parei de validar os medos.

Um anjo que dorme
Vale mais que mil anjos de pé:
Meu anjo da guarda não vela
O meu anjo
Sonha por mim.
– Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Não Borboletarás”, Editora Kelps, 2013.

Nsanje, Malauí – foto: Travis Silva

CONFISSÃO
Sou devedora da Humanidade inteira.
Por isso, toda a dor do mundo me pertence
E não há sangue humano que não seja meu.

Sei, contudo,
Que não tenho olhos de medir
As engrenagens do Tempo.

Aquilo que o Eterno engendra
Não cabe na minha agenda.
E Ele me empresta os passarinhos
E a ternura das estrelas mortas.

Então caminho em paz pela vida,
Mesmo que a estrada me pareça torta.
– Nara Rúbia Ribeiro, doo livro “Pazes”, a publicar.

§

HISTORINHA PRA NINAR GIGANTE
Um rei medroso
Ordenou que fossem mortos
Todos os pássaros do seu reino.
Assim se cumpriu.

Daquele dia em diante
O canto que nascia vinha das entranhas das pedras.
Deu-se uma quebra no encantamento das coisas
E dragões desembocaram do espaço.
Parecia que o mundo inteiro findava.

O rei,
Desobrigado de sonho,
Fechou os seus olhos de esquecer de acordar.
Então, as crianças se aliaram aos poetas
E desenharam um poema
De passarinhos ressuscitados.

Foi aí que pequeninas pedras
Animaram-se a levitar.
Pouco a pouco ganharam penas,
Bico, asas, gorjeio de pássaro.
E as crianças descobriram
Que pedrinhas coloridas
São passarinhos disfarçados de chão.
Segredo milenarmente guardado.
Só o sabem as crianças e os poetas.
– Nara Rúbia Ribeiro, doo livro “Pazes”, a publicar.

§

GRAÇA
O meu para sempre
é provisório.
Sou viço falho de infinitos
Fagulha afogada de sonho
Ave aviltada de si.
Grito falhado,
sorte ufanada.
Mas onde sou vencida em tudo
um anjo mudo
me abençoa os nadas.
– Nara Rúbia Ribeiro, doo livro “Pazes”, a publicar.

§

BREVE BIOGRAFIA

Nara Rúbia Ribeiro – arquivo pessoal

Nara Rúbia Ribeiro nasceu, em 1977, em São Luis de Montes Belos, interior do Estado de Goiás. Ainda na adolescência, mudou-se para Goiânia.
Estudou Direito e especializou-se em Direito Penal. A sua grande inclinação, contudo, na esfera jurídica, gira em torno dos Direitos Humanos.
Nascida no seio de uma família protestante, dedicou-se ao estudo da Teologia Cristã. interessando-se ainda a compreender outras vertentes religiosas espiritualistas. Para Nara, Deus é Poesia.
Escreve desde os 9 anos de idade. O seu primeiro livro, “Não Borboletarás”, foi publicado o seu primeiro livro no ano de 2013, pela Editora Kelps.

Outros poemas na fanpage da autora:
Escritos de Nara Rúbia Ribeiro

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