Marina Colasanti - foto: Agência RIFF
Enquanto o respirar
O amor morreu
diz quem não sabe amar,
morreu a arte
o romance se foi
o autor está defunto.
Aninham-se os coveiros nas suas frases
enquanto o respirar das coisas mortas
ergue
sereno
o peito do mundo.
— Marina Colasanti, no livro “Passageira em trânsito“. Record, 2009.
§
Jardinagem abaixo do equador
Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisas de europeu
com galgos, gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas,
séculos de batalhas
e sangue nas raízes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistência cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
— Marina Colasanti, no livro “Poesia em 4 tempos“. Global, 2008.
§
Lá fora, a noite
É quando a família dorme
– inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha –
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.
— Marina Colasanti, no livro “Rota de colisão”. Rocco, 1993.
§
Outras palavras
Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.
— Marina Colasanti, em “Fino sangue“. Record, 2005.
§
Canção para um homem e um rio
Porque era um homem sincero
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas sincero não era
era só homem
e deixei nos junquilhos a esperança
de dar à minha espera serventia.
Porque era um homem forte
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas forte ele não era
era só homem
e entre pedras deixei o meu desejo
de abandonar o arado, a forja, e a lança.
Porque podia me amar
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas amante não era
era só homem
e na água afoguei a minha sede
de palavras mais doces que ambrosia.
Porque era um homem
só homem
eu o levei ao rio entre junquilhos.
— Marina Colasanti, no livro “Rota de colisão”. Rocco, 1993.
§
Frutos e flores
Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
— Marina Colasanti, no livro “Rota de colisão”. Rocco, 1993.
§
Porta do armário aberta
Abro a porta do armário
como abro um diário,
a minha vida ali
dependurada
meu frusto cotidiano
sem segredos
intimidade exposta
que os botões não defendem
nem se veda nos bolsos,
espelho mais real que todo espelho
entregando à devassa
as medidas do corpo.
Armário
tabernáculo do quarto
que abro de manhã
como à janela
para sagrar o ritual do dia.
Sala de Barba Azul
coalhada de pingentes
longas saias e véus
emaranhados sem que sangue goteje.
Corpos decapitados
ausentes minhas mãos
dos murchos braços.
Do armário minhas roupas
me perseguem
como baú de herança ou
maldição.
Peles minhas pendentes
em repouso
silenciosas guardiãs
dos meus perfumes
tessituras de mim
mais delicadas
que a luz desbota
que o tempo gasta
que a traça rói
ainda assim durarão nos seus cabides
muito mais do que eu sobre meus ossos.
Nenhuma levarei.
Irei despida
deixando atrás de mim
a porta aberta.
— Marina Colasanti, no livro “Rota de colisão”. Rocco, 1993.
§
Rota de colisão
De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.
— Marina Colasanti, no livro “Rota de colisão”. Rocco, 1993.
§
Vincent
Ciprestes de Van Gogh
imóveis labaredas
verdes incêndios sobre a tela
verdes mulheres nuas
em seus cabelos.
Ciprestes de Van Gogh
bizantinas colunas
da paisagem
vórtice
remoinho erguido
como o grito
o fallus
o arremesso de gozo
do pintor.
— Marina Colasanti, no livro “Rota de colisão”. Rocco, 1993.
BREVE BIOGRAFIA
Marina Colasanti (Sant’Anna) nasceu em 26 de setembro de 1937, em Asmara (Eritréia), Etiópia. Viveu sua infância na Africa (Eritréia, Líbia). Depois seguiu para a Itália, onde morou 11 anos. Chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro, onde reside desde então. Possui nacionalidade brasileira e naturalidade italiana. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Ingressou no Jornal do Brasil em 1962, como redatora do Caderno B, desenvolveu as atividades de: cronista, colunista, ilustradora, sub-editora, Secretária de Texto. Foi também editora do Caderno Infantil do mesmo jornal. Participou do Suplemento do Livro com numerosas resenhas. No mesmo período editou o Segundo Tempo, do Jornal dos Sports. Assinou seções nas revistas: Senhor, Fatos & Fotos, Ele e Ela, Fairplay, Claudia e Jóia.Em 1976 ingressou na Editora Abril, na revista Nova da qual já era colaboradora, com a função de editora de comportamento.De fevereiro a julho de 1986 escreveu crônicas para a revista Manchete. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; desde então, publicou mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992) que recebeu outro prêmio Jabuti, além de Rota de Colisão igualmente premiado. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Dentre outros escreveu E por falar em amor; Contos de amor rasgados; Aqui entre nós, Intimidade pública, Eu sozinha, Zooilógico, A morada do ser, A nova mulher (que vendeu mais de 100.000 exemplares), Mulher daqui pra frente, O leopardo é um animal delicado, Gargantas abertas e os escritos para crianças Uma idéia toda azul e Doze reis e a moça do labirinto de vento. Colabora, atualmente, em revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna com quem teve duas filhas: Fabiana e Alessandra. Em suas obras, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.
Fonte: A poesia do Brasil
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Saiba mais sobre Marina Colasanti:
:: Marina Colasanti (contos, poemas, crônicas e entrevistas)
:: Site oficial da Marina Colasanti
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ALGUNS DOS LIVROS CITADOS
Passageira em trânsito
Ganhadora de quatro Jabutis, Marina Colasanti é uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira, com mais de 40 livros publicados. Palestrante requisitada, ensaísta, contista e autora premiada, Marina volta à poesia em PASSAGEIRA EM TRÂNSITO. Nascida na capital de uma antiga colônia italiana na África e criada na Itália, de onde emigrou para o Brasil com sua família após a Segunda Guerra Mundial, a poeta retoma sua condição itinerante neste livro. Ao registrar suas percepções de maneira tão sensível e delicada, ela nos proporciona uma deliciosa e requintada volta ao mundo (e a si) através de seu apurado olhar. “E logo”, o primeiro poema do livro, anuncia o tom da jornada em que estamos prestes a embarcar. A autora se declara a bordo de um avião que ainda taxia na pista, mas que “faz-se ave” ao se desprender do chão. Com essa belíssima imagem, podemos perceber que não estamos diante de uma passageira que simplesmente aguarda a decolagem, mas de uma viajante pronta para voar. E então, “Adiante às cegas”, como bem sugere o título do poema seguinte, Marina se lança e nos conduz em uma viagem de sensações. De um insólito dia chuvoso em Seoul a mais um domingo que se gasta em Mury, ou de uma orquídea que cresce em pleno Mar Báltico à silenciosa vida marinha de Galápagos, sempre a mesma percepção aguçada que, por vezes, chega a tornar-se avassaladora, como no dia em que ela não sai do quarto do hotel em Miami para acompanhar o peculiar “deslizar das horas no vidrespelho do edifício em frente”.
FICHA TÉCNICA
Título: Passageira em trânsito
Páginas: 128
Formato: 20.8 x 13.8 x 1.2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 31/03/2009 (1ª edição)
ISBN: 978-8501084958
Selo: Record
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Poesia em 4 tempos
Para a publicação de Poesia em 4 tempos, Marina Colasanti selecionou 25 de seus poemas – alguns inéditos e outros já editados – e agrupou-os em quatro títulos: “Lembrando de mim”, “Contando os outros”, “Olhando a natureza” e “Pensando o hoje”. Atenta a um universo de fatos, de situações, de pessoas, de emoções e de sentimentos do cotidiano, a autora transforma esses pequenos mistérios do dia a dia, esses temas comuns a todos, em arte. Em arte poética da mais alta qualidade, para ser lida e sentida em qualquer idade. A respeito dos temas abordados, a autora comenta: Meu olhar vasculha ao redor, acompanhando os carros no estacionamento de um shopping, pousando-se num porteiro de prédio. E, se nas lembranças de infância dei preferência àquelas da guerra, foi para mostrar que a guerra assola a vida de crianças do mundo inteiro, em todos os tempos, quer seja militar e declarada, como a que vivi, quer seja a guerra de exclusão que vivem hoje nossos jovens brasileiros.
FICHA TÉCNICA
Título: Poesia em 4 tempos
Páginas: 48
Formato: 20.2 x 20.4 x 0.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 01/01/2008 (1ª edição)
ISBN: 978-8526012554
Selo: Global
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Fino sangue
Marina Colasanti é um das mais importantes escritoras da literatura brasileira. Palestrante requisitada, ensaísta, contista e autora premiada, Marina volta à poesia em FINO SANGUE, livro inédito que comprova, mais uma vez, seu inegável talento. Detalhista por natureza e observadora incansável do pequeno, Marina tira grandeza das miudezas do dia-a-dia.
FICHA TÉCNICA
Título: Fino sangue
Páginas: 128
Formato: 20.8 x 13.6 x 1.2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 29/04/2005 (1ª edição)
ISBN: 978-8501069535
Selo: Record
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