Luis Barcelos lança álbum ‘Choros, Afetos’

Em seu novo projeto, Luis Barcelos volta o olhar para o Rio Grande do Sul e transforma em música as memórias e os afetos que moldaram sua trajetória.
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Luis Barcelos – Choros, Afetos
Conheci o Luis Barcelos no fim dos anos 2000, numa roda de samba no Trapiche Gamboa. Naquela noite, eu e ele estávamos fazendo subs para o Pedro Miranda e o Pedro Amorim, respectivamente, no grupo Samba de Fato, que se apresentava semanalmente lá. Desde então, e lá se vão quase vinte anos, a música nos fez companhia em muitos lugares – rodas, discos, teatros, shows, muitos projetos.
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Tenho, portanto, alguma dificuldade em escrever sobre o Luis, o querido “Luisinho”, como se estivesse falando de um músico que conheço apenas de ouvir. Minha história com ele é também feita de trabalho, amizade e admiração. Tenho orgulho de tê-lo aproximado do teatro, onde fez a direção musical de dois espetáculos de minha autoria: Amigo Cyro, muito te admiro, sobre Cyro Monteiro, e A cuíca do Laurindo, pelo qual foi indicado ao Prêmio Cesgranrio de melhor direção musical. Entre outras aventuras compartilhadas, ele também assinou a direção musical do disco duplo Wilson Baptista – Eu Sou Assim, que eu e a Carolina Miranda produzimos para o Selo Sesc.
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O que sempre me impressionou nesses trabalhos não foi apenas o músico espetacular, mas a qualidade do parceiro: a energia para trabalhar, a escuta, a paciência, a generosidade com as ideias alheias e uma espécie de modéstia que não diminui a sua personalidade musical – ao contrário, permite que ela esteja a serviço da música. Luis é daqueles que dá vontade de ter sempre por perto. É um cavalheiro, uma presença boa, alguém que torna o trabalho mais leve.
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Talvez por isso, ao ouvir Choros, Afetos, seu novo disco, uma coisa tenha me parecido familiar: ninguém está ali por acaso. Tem discos que nascem de um projeto, mas esse parece que nasceu quase sem querer – de uma conversa, da ideia de uma “permuta” e de uma vontade de voltar a tocar para si mesmo.

Nos últimos anos, o Luis vinha fazendo muita música para os outros: dando aulas, criando arranjos, acompanhando artistas, participando de projetos diversos. O trabalho autoral, embora nunca tenha desaparecido, ficou um pouco à margem. Até que, numa gravação no Estúdio Lontra, ali na subida para Santa Teresa, papeando com o amigo João Ferraz, dono do estúdio, o Luis comentou que tinha algum dinheiro guardado e gostaria de gravar um disco. João propôs uma troca: participações do Luis em suas produções pagas com horas de estúdio. Foi assim que o disco começou a existir. E tem poesia nisso: um álbum chamado Choros, Afetos nasceu de uma troca. Assim como, de certo modo, as próprias músicas que o compõem.
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As sete faixas do disco têm nomes e histórias que, juntas, contam muito da vida do Luis. Em cada uma existe alguém, algum lugar ou alguma lembrança. Um professor, um amigo, a mãe, uma percussionista, um flautista, o Rio de Janeiro, Pelotas, o Internacional. São pessoas e paisagens que encontrou pelo caminho e que, de algum modo, continuam com ele. O que ele faz no disco é reconhecer isso e revisitar esses momentos, em forma de música.
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A história começa antes do Luis se tornar o músico que é hoje. Um Choro pro Avendano, que abre o álbum, é uma homenagem ao cavaquinista Avendano Jr., de Pelotas, conhecido por Luis ainda na adolescência por intermédio de seu professor, Luiz Machado. A música começou a ser composta em 2012, quando o Avendano morreu, e só seria concluída anos depois, para um festival em 2025, no qual acabou premiada. Na gravação, a presença do pianista Fernando Leitzke faz todo o sentido: ele também fez parte daquela comunidade de músicos do choro de Pelotas.
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A relação com o Luiz Machado reaparece em Fraterno, composto por volta de 2011 para homenagear o professor e seu grupo, Reminiscências. Foi o Luiz (com z) quem apresentou o choro ao Luis (com s) quando o guri tinha apenas 12 anos – e, além disso, quem o incentivou a imaginar que a música poderia ser uma profissão. Muitos anos depois, o menino volta ao professor e agradece em compasso de choro.
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Há também espaço para as geografias afetivas. Água de coco é uma espécie de cartão postal sonoro: uma melodia serena, preguiçosa e praieira, que celebra o Rio de Janeiro adotado por Luis – ainda que ele continue firme no chimarrão, mesmo nos verões cariocas escaldantes. O buliçoso Colorado, por outro lado, nasceu longe do Rio. Torcedor do Internacional, o Luis se reaproximou do futebol durante a pandemia e aproveitou para fazer um choro para o seu time. A música começou a ser pensada no violão tenor durante um festival no Rio Grande do Sul e encontrou no bandolim sua expressão definitiva.
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Thayan no Marinho guarda outra história de amizade e música. Dedicada à percussionista Thayan Martins, a faixa remete a uma roda de choro no Bar do Marinho, em Porto Alegre, e a um momento importante da trajetória do Luis: o choro foi gravado pelo Conjunto Época de Ouro antes mesmo de sua entrada oficial no grupo. É também uma rara faixa em que o bandolim se destaca como único solista, numa interpretação que busca, segundo o próprio Luis, a linguagem do Ronaldo do Bandolim.

Já a polca-maxixe Pro Lucian foi feita para o flautista Lucian Krolow, parceiro do Luis em suas visitas a Pelotas, e procura evocar o fraseado dos choros do século XIX, especialmente os de Joaquim Callado e Candinho do Trombone. Marion, dedicada à mãe do Luis, é talvez a peça mais íntima do álbum. Com flauta da Andrea Ernest Dias e clarinete do Rui Alvim, a valsa ganha tratamento camerístico, delicado, com vozes abertas. É uma música que o Luis compôs especialmente para o disco – e ele se orgulha de ter encontrado, enfim, a maneira de dizer aquilo que queria à mãe. Imagino a alegria de Marion com a homenagem.
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É possível ouvir Choros, Afetos como um disco de choro. E ele é, de fato, profundamente ligado à tradição do gênero, mas sem amarras. É como uma língua que o Luis aprendeu a falar para, a partir dela, encontrar a sua própria voz – sem deixar de honrar o que passou, nem de apontar para o futuro.
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Essa relação com o choro começou cedo. Depois das primeiras experiências nos palcos cariocas, em 2005, a convite do Marco Pereira, o Luis aprofundou na Escola Portátil de Música a formação iniciada na infância com o Luiz Machado. Sua trajetória passa por grupos como o Conjunto Época de Ouro, a Bandolinata e o Choro da Esquina, além de colaborações com artistas como Dona Ivone Lara, Roberta Sá e Zélia Duncan. Em 2016, recebeu o Prêmio da Música Brasileira pelo projeto Tocata à amizade. Hoje também se dedica ao ensino de improvisação e harmonia para bandolim.
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Luis Barcelos reuniu em Choros, Afetos pedaços do seu caminho: pessoas que ensinaram, amigos com quem tocou, lugares onde viveu, paixões, família. O resultado é um disco autoral em que ele fala de si mesmo – mas através dos outros. Talvez seja esse o paradoxo bonito deste trabalho: quanto mais Luis se volta para dentro, mais gente aparece. Há um mundo interno criativo e transbordante, mas também uma disponibilidade permanente para o mundo – para escutar, colaborar, se deixar afetar.
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É assim que conheço o Luis. E talvez seja também por isso que Choros, Afetos me pareça tão fiel a ele. Parabéns, meu amigo.
— Rodrigo Alzuguir —

Capa do disco Choros, Afetos • Luis Barcelos • Selo Independente / Tratore • 2026

Disco Choros, Afetos • Luis Barcelos • Selo Independente / Tratore • 2026
Músicas / compositor
1. Um choro pro Avendano (Luis Barcelos)
2. Thayan no Marinho (Luis Barcelos)
3. Água de côco (Luis Barcelos)
4. Colorado (Luis Barcelos)
5. Marion (Luis Barcelos)
6. Fraterno (Luis Barcelos)
7. Pro Lucian (Luis Barcelos)
– ficha técnica –
Luis Barcelos – Bandolim de 10 cordas | Fernando Leitzke – Piano (faixas 1, 4, 5 e 6) | Rafael Mallmith – Violão 7 cordas (faixas 2, 3 e 7) | Lucas Porto – Violão 7 cordas (faixas 4, 5 e 6) | Glauber Seixas – Violão 6 cordas | Léo Pereira – Cavaquinho | Marcus Thadeu – Pandeiro, tamborins e repique de anel (faixa 2), afoxé e caixeta (faixa 5), reco-reco (faixa 7) | Rui Alvim – Clarinete (faixas 1 e 5) | Andrea Ernest Dias – Flauta (faixa 5) | Aquiles Moraes – Trompete (faixas 4 e 7) | Produzido por Luis Barcelos | Direção musical, composições e arranjos: Luis Barcelos | Gravado em 28 e 29 de Janeiro de 2026 | Gravado, mixado e masterizado no estúdio Lontra, por João Ferraz | Fotos de Bel Junqueira | Selo: Independente | Distribuição digital: Tratore | Formato: CD digital | Ano: 2026 | Lançamento: 13 de agosto | ♪Ouça o álbum: clique aqui

Luis Barcelos – acompanhado por Fernando Leitzke (piano), Rafael Mallmith (violão de sete cordas), Iuri Bittar (violão), Leo Pereira (cavaquinho) e Marcus Thadeu (percussão), Luis Barcelos apresenta o álbum solo ‘Choros, Afetos’ | foto: Bel Junqueira

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Série: Discografia Brasileira / Música instrumental / Choro / álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske/Templo Cultural Delfos
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Revista Prosa Verso e Arte

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