Se você é daqueles que nunca encontra as palavras certas para terminar um relacionamento, saiba que existe um site com dicas para romper. Há cartas em estilo formal ou poético para rompimento por escrito. (02/03/2005)
Ele era um rapaz sério, trabalhador. Ela era uma moça séria, trabalhadora. Namoravam havia muitos anos. Desde a infância, na verdade. Porque as famílias se conheciam, e faziam gosto de que os dois namorassem. E assim eles namoravam, e até falavam em noivar e em casar.
A verdade, porém, é que o relacionamento entre ambos era, no máximo, morno. Muito respeito mútuo, bastante afeto, tratamento cordial; mas paixão, paixão arrebatadora, isso não havia. De qualquer modo foram levando o relacionamento e falando vagamente em datas para o matrimônio.
Mas aí ele conheceu outra garota. Encontro casual, num supermercado. Ela estava atrapalhada com o carrinho, ele a ajudou, começaram a conversar, saíram para tomar alguma coisa, marcaram um encontro – e quando deu por si ele estava, aí sim, apaixonado.
O que representava um tremendo problema de consciência. Como contar à namorada de tantos anos o que estava acontecendo? Como terminar aquela antiga ligação?
Foi então que ouviu falar do site que dava dicas para romper. De imediato entrou ali. Havia numerosos modelos de cartas, desde as curtas e brutais (“Estou cheio de sua cara, desapareça”) até as mais sofisticadas e elegantes. Destas, escolheu uma que lhe pareceu particularmente satisfatória: “Durante muitos anos convivemos com afeto e alegria. Durante muitos anos nossa existência foi iluminada pela lâmpada do amor. Mas seja por falta de energia, seja por outra razão qualquer, a lâmpada do amor está se apagando. Antes que fiquemos totalmente no escuro, é melhor que terminemos nossa relação como amigos. É melhor que busquemos a luz em outros amores. Guardaremos, um do outro, uma terna lembrança; é isso o que importa”.
Imprimiu a carta, assinou-a e telefonou para a namorada marcando um encontro naquela mesma noite. Era uma segunda-feira, e ela não gostava de sair nas segundas-feiras, mas, para surpresa dele, aceitou o convite de imediato: eu também precisava falar com você, é muita coincidência.
Foi mais fácil do que ele esperava, muito mais fácil. Disse que algo tinha acontecido, algo que uma carta explicaria, e entregou-lhe o envelope fechado. Ela replicou que também tinha uma carta para ele. Despediram-se, numa boa.
Ele entrou num bar, abriu o envelope, e leu: “Durante muitos anos convivemos com afeto e alegria. Durante muitos anos nossa existência foi iluminada pela lâmpada do amor. Mas seja por falta de energia, seja por outra razão qualquer, a lâmpada do amor está se apagando. Antes que fiquemos totalmente no escuro, é melhor que terminemos nossa relação como amigos. É melhor que busquemos a luz em outros amores. Guardaremos, um do outro, uma terna lembrança; é isso o que importa”.
Com o que ele concluiu: grandes amores são para poucos. Mas sites na internet estão ao alcance de todos.
— Moacyr Scliar, no livro “Histórias que os jornais não contam“. Companhia das Letras, 2013
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SOBRE O LIVRO 
Para além das notícias de jornal Casal se divorcia após descobrir que marido e mulher flertavam pela internet (um com o outro); cartão de Natal postado em 1914 chega a seu destino 93 anos depois; British Airways se desculpa por colocar cadáver na primeira classe; Polícia Federal apreende 250 kg de cabelos que entraram ilegalmente no Brasil; Britânico descobre que a namorada tinha um amante graças às indiscrições de um papagaio. Você acha que essas manchetes são falsas ou verdadeiras? Totalmente verdadeiras. Nada mais impactante do que a própria realidade. Moacyr Scliar, de posse desse material extraído da Folha de S.Paulo, manteve uma coluna por quase duas décadas no próprio jornal, onde exercitou o ofício de escritor: seus relatos começavam onde a notícia terminava. Ao desafiar a fronteira entre realidade e ficção, encontrou histórias esperando para serem contadas. Esta seleção reúne 54 crônicas, fruto da combinação do inusitado da vida com o encantamento da literatura.
FICHA TÉCNICA
Título: Histórias que os jornais não contam
Páginas: 160
Formato: 20.8 x 14 x 1 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 01/12/2007 (1ª edição)
ISBN: 978-8525434418
Selo: L&PM
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Saiba mais sobre Moacyr Scliar:
Moacyr Scliar – uma vida entre a medicina e a literatura


