Guillaume Apollinaire, par Maurice de Vlaminck

Incerteza, oh, que deleite
Vós e eu nos vamos
Como se vão os caranguejos,
para trás, para trás.
– Guillaume Apollinaire “L’écrevisse”

Apollinaire em tradução de Nelson Ascher

Inscrição que se Encontra sobre seu Túmulo
Eu finalmente me afastei
De tudo que há de natural
Posso morrer mas não pecar
E o que ninguém jamais tocou
Não só toquei como apalpei
Já perscrutei o que ninguém
Nunca sequer imaginou
E sopesei vezes sem conta
Até a vida imponderável
Se vou morrer, morro sorrindo

.

Inscription qui se Trouve Sur Le Tombeau D’apollinaire
Je me suis enfin détaché
De toutes choses naturelles
Je peux enfin mourir mais non pêcher
Et ce qu’on n’a jamais touché
Je l’ai touché je l’ai palpé
Et j’ai scruté tout ce que nul
Ne peut en rien imaginer
Et j’ai soupesé maintes fois
Même la vie impondérable
Je peux mourir en souriant
– Guillaume Apollinaire, em “Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos”. [tradução e organização Nelson Ascher]. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998.

§

Apollinaire em tradução de Décio Pignatari

Versos a Lou
                      Cena Noturna de 22 de Abril de 1915
                      (Gui canta para Lou)

Meu lobinho adorado queria morrer no dia em que você me amasse
Queria ser bonito para que você me amasse
Queria ser forte para que você me amasse
Queria ser jovem jovem para que você me amasse
Queria que guerra recomeçasse para que você me amasse
Queria agarrar você para que você me amasse
Queria dar palmadas na sua bunda para que você me amasse
Queria maltratar você para que você me amasse
Queria que estivéssemos sós no meu estudiozinho junto ao terraço deitados na cama do fuminho de ópio para que você me amasse
Queria que você fosse minha irmã para amar você in-ces-tu-o-sa-men-te
Queria que você fosse minha prima para que a gente pudesse se amar bem jovem
Queria que você fosse meu cavalo para cavalgar você muito tempo muito tempo
Queria que você fosse meu coração para sentir você sempre em mim
Queria que você fosse o paraíso ou o inferno conforme o lugar aonde eu vou
Queria que você fosse um menino para que eu fosse o seu professor
Queria que você fosse a noite para eu amar você nas trevas
Queria que você fosse a minha vida para que ela fosse só de você
Queria que você fosse um obus alemão para me matar de um amor súbito

.

Poèmes à Lou
Scène Nocturne du 22 Avril 1915
              (Gui chante pour Lou)

Mon ptit Lou adoré Je voudrais mourir un jour que tu m’aimes
Je voudrais être beau pour que tu m’aimes
Je voudrais être fort pour que tu m’aimes
Je voudrais être jeune jeune pour que tu m’aimes
Je voudrais que la guerre recommençât pour que tu m’aimes
Je voudrais te prendre pour que tu m’aimes
Je voudrais te fesser pour que tu m’aimes
Je voudrais te faire mal pour que tu m’aimes
Je voudrais que nous soyons seuls dans une chambre d’hôtel à Grasse pour que tu m’aimes
Je voudrais que nous soyons seuls dans mon petit bureau près de la terrasse couchés sur le lit de fumerie pour que tu m’aimes
Je voudrais que tu sois ma soeur pour t’aimer incestueusement
Je voudrais que tu eusses été ma cousine pour qu’on se soit aimés très jeunes
Je voudrais que tu sois mon cheval pour te chevaucher longtemps, longtemps
Je voudrais que tu sois mon coeur pour te sentir toujours en moi.
Je voudrais que tu sois le paradis ou l’enfer selon le lieu où j’aille
Je voudrais que tu sois un petit garçon pour être ton précepteur
Je voudrais que tu sois la nuit pour nous aimer dans les ténèbres
Je voudrais que tu sois ma vie pour être par toi seule
Je voudrais que tu sois un obus boche pour me tuer d’un soudain amour
– Guillaume Apollinaire, em “31 Poetas 214 poemas — do Rigveda e Safo a Apollinaire”. [tradução, seleção e organização de Décio Pignatari]. 2ª ed., Campinas: Editora Unicamp, 2007.

§

Versos a Lou
[…]
Vamos ler no mesmo leito.
No livro do seu próprio corpo
– Livro de leitura ao leito –
Leremos o encantador poema
Das graças do seu lindo corpo
[…]
Os ramos que se agitam são seus olhos que tremem
Vejo você em toda parte você tão bela tão terna
Os pregos dos meus sapatos brilham como os seus olhos
A vulva das jumentas é rosada como a sua
E, nossas armas engraxadas são como quando você me quer
A doçura da minha vida é como quando você me ama
[…]
Meu muito querido lobinho eu amo você
Minha querida estrela palpitante eu amo você
Corpo deliciosamente elástico eu amo você
Vulva que aperta como um quebra-nozes eu amo você
Seio esquerdo tão rosa e insolente amo você
Seio direito tão rosa-tenro amo você
Mamilo direito cor de champanhe não champanhizado amo você
Mamilo esquerdo igual à bossa da testa de um garrote que acaba de nascer amo você
Ninfas hiperatrofiadas pelos seus toques freqüentes amo vocês
Nádegas sutilmente ágeis que se arrebitam para trás amo vocês
Umbigo igual à lua côncava sombria amo você
Toutiço claro como uma floresta no inverno amo você
Axilas peludinhas como um cisne filhote amo vocês
Queda de ombros adoravelmente pura amo você
Coxa de linhagem tão estética como uma coluna de tipo antigo amo você
Orelhas ornadas como bijuteria mexicana amo vocês
Cabeleira ensopada no sangue dos amores amo você
Pés sábios pés que se enrijecem amo vocês
Rins que cavalgam rins possantes amo vocês
Talhe que jamais conheceu espartilho talhe macio amo você
Dorso maravilhoso tão bem-feito que se encurva para mim amo você
Boca delícia minha néctar meu amo você
Olhar único olhar-estrela amo você
Mãos adoro os seus movimentos amo vocês
Nariz singularmente aristocrático amo você
Caminhar ondulante e dançante amo você
Ó meu lobinho amo amo amo você
[…]

.

Poèmes à Lou
[…]
Les branches remuées ce sont tes yeux qui tremblent
Et je te vois partout toi si belle et si tendre.
Les clous de mes souliers brillent comme tes yeux
La vulve des juments est rose comme la tienne
Et nos armes graissées c’est comme quand tu me veux
Ô douceurs de ma vie, c’est comme quand tu m’aimes.
[…]
Nous lirons dans le même lit,
Au livre de ton corps lui-même
— C’est un livre qu’au lit on lit —
Nous lirons le charmant poème
Des grâces de ton corps joli.
[…]
Mon très cher petit Lou je t’aime,
Ma chère petite étoile palpitante je t’aime
Corps délicieusement élastique je t’aime
Vulve qui serre comme un casse-noisette je t’aime
Sein gauche si rose et si insolent, je t’aime,
Sein droit si tendrement rosé je t’aime
Mamelon droit couleur de champagne non champagnisé je t’aime
Mamelon gauche semblable à une bosse du front d’un petit veau qui vient de naître je t’aime
Nymphes hypertrophiées par tes attouchements fréquents, je vous aime
Fesses exquisement agiles qui se rejettent bien en arrière je vous aime
Nombril semblable à une lune creuse et sombre je t’aime
Toison claire comme une forêt en hiver je t’aime
Aisselles duvetées comme un cygne naissant je vous aime
Chute des épaules adorablement pure je t’aime
Cuisse au galbe aussi esthétique qu’une colonne de temple antique je t’aime
Oreilles ourlées comme de petits bijoux mexicains je vous aime
Chevelure trempée dans le sang des amours je t’aime
Pieds savants, pieds qui se raidissent je vous aime
Reins chevaucheurs, reins puissants, je vous aime
Taille qui n’a jamais connu le corset, taille souple je t’aime
Dos merveilleusement fait et qui s’est courbé pour moi je t’aime
Bouche, ô mes délices, ô mon nectar je t’aime
Regard unique regard-étoile je t’aime
Mains dont j’adore les mouvements je vous aime
Nez singulièrement aristocratique je t’aime
Démarche onduleuse et dansante je t’aime,
Ô petit Lou, je t’aime je t’aime, je t’aime
[…]
– Guillaume Apollinaire, em “31 Poetas 214 poemas — do Rigveda e Safo a Apollinaire”. [tradução, seleção e organização de Décio Pignatari]. 2ª ed., Campinas: Editora Unicamp, 1997.

§

A Ponte Mirabeau
Escorre sob a ponte o rio Sena
E em nossos amores
A lembrança me acena
Vinha sempre o prazer depois da pena
Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora
Mãos nas mãos esperemos face a face
Até que sob a ponte
Dos nossos braços passe
O eterno desse olhar em nosso enlace
Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora
O amor se vai como água turbulenta
Assim o amor se vai
E como a vida é lenta
E como esta Esperança é violenta
Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora
Os dias passam passam as semanas
Não voltam o passado
Nem as paixões humanas
E o Sena flui em águas soberanas
Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora
Os dias passam passam mas que pena
Passado amor
Nenhuma volta acena
Na ponte Mirabeau se vai o Sena
A noite venha sem demora
Eu fico e o tempo vai embora

.

Le Pont Mirabeau
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’em souvienne
La joie venait toujours après la peine
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennet
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
– Guillaume Apollinaire, em “31 Poetas 214 poemas — do Rigveda e Safo a Apollinaire”. [tradução, seleção e organização de Décio Pignatari]. 2ª ed., Campinas: Editora Unicamp, 1997.

Apollinaire em tradução de Raymundo Magalhães Júnior

A carpa
Carpas, viveis tão longa vida
Nesses viveiros de água fria!
Será que a morte vos olvida,
Ó peixes da melancolia.

.

La carpe
Dans vos viviers, dans vos étangs,
Carpes, que vous vivez longtemps!
Est-ce que la mort vous oublie,
Poissons de la mélancolie.
– Guillaume Apollinaire. “As carpas”. {tradução de Raymundo Magalhães Júnior}. . em “Antologia de poetas franceses”. [organização Raymundo Magalhães Jr.; vários tradutores]. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy Ltda Editora, 1950.

§

Apollinaire em tradução de Maria Gabriela Llansol

Outono mortiço e adorado
Morrerás quando o furacão soprar nos rosais
Quando nos vergéis
Tiver nevado

Pobre outono
Morres em brancura e em riqueza
De neve e de frutos maduros
No fundo do céu
Planam gaviões
Sobre os nixes ingénuos e anões de cabelos verdes
Que nunca amaram

Nas orlas de lá longe
Os veados bramiram

Oh! estação não sabes quanto gosto dos teus rumores
Os frutos caindo sem serem apanhados
O vento e a floresta que choram folha a folha
Todas as suas lágrimas no outono

As folhas
Que pisam
Um comboio
Que passa
A vida
Que se vai

.

Automne malade
Automne malade et adoré
Tu mourras quand l’ouragan soufflera dans les roseraies
Quand il aura neigé
Dans les vergers

Pauvre automne
Meurs en blancheur et en richesse
De neige et de fruits mûrs
Au fond du ciel
Des épreviers planent
Sur les nixes nicettes au cheveux verts et naines
Qui n’ont jamais aimé

Aux lisières lointaines
Les cerfs ont bramé

Et que j’aime ô saison que j’aime tes rumeurs
Les fruits tombant sans qu’on les cueille
Le vent et la forêt qui pleurent
Toutes leurs larmes en automne feuile à feuille

Les feuilles
Qu’on foule
Un train
Qui roule
La vie
S’écoule
– Apollinaire, em “Mais Novembro do que Setembro”. Guillaume Apollinaire. [tradução e prefácio de Maria Gabriela Llansol]. edição bilingue. Lisboa: Relógio d’Água, 2001.

§

Apollinaire em tradução de Jorge de Sena

A ponte Mirabeau
Sob esta ponte passa o rio Sena
e o nosso amor
lembrança tão pequena
sempre o prazer chegava após a pena

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa

Mãos dadas nós fiquemos face a face
enquanto sob
a ponte dos braços passe
de eternas juras tédio que se enlace

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa

E vai-se o amor como água corre atenta
e vai-se o amor
ai como a vida é tão lenta
e como só a esperança é violenta

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa

Dias semanas passam à dezena
nem tempo volta
nem nosso amor nossa pena
sob esta ponte passa o rio Sena

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa
.

Le Pont Mirabeau
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’em souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennet
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
– Guillaume Apollinaire [tradução Jorge de Sena]. em “Poesia de 26 Séculos-de Arquíloco a Nietzsche”. [organização e tradução de Jorge de Sena]. 2 vol., Coleção Antologias universais. Porto: Edições Asa, 3ª ed., 2001.

§

Guillaume Apollinaire en 1913, 1924 by Francis Picabia

Apollinaire em tradução de Álvaro Faleiros

O cavalo
Os meus sonhos formais serão teu cavaleiro,
meu destino luzindo teu belo cocheiro
por rédeas terás tensos levando à agonia,
meus versos, o modelo de toda poesia.

.

Le cheval
Mes durs rêves formels sauront te chevaucher,
Mon destin au char d’or sera ton beau cocher
Qui pour rênes tiendra tendus à frénésie,
Mes vers, les parangons de toute poésie.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

A serpente
Sei que te obstinam as beldades
e que nelas com acuidade
exerceu tua crueldade!
Cleópatra, Eurídice, Eva,
sei de outras três em tua leva.

.

Le serpent
Tu t’acharnes sur la beauté.
Et quelles femmes ont été
Victimes de ta cruauté !
Eve, Eurydice, Cléopâtre;
J’en connais encor trois ou quatre.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

O gato
Desejo manter em meu lar:
uma companheira a pensar,
andando entre livros um gato,
bons amigos sempre a passar
sem os quais o viver é ingrato.

.

Le chat
JE souhaite dans ma maison :
Une femme ayant sa raison,
Un chat passant parmi les livres,
Des amis en toute saison
Sans lesquels je ne peux pas vivre.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

A lebre
Não sejas lascivo e assustado
como a lebre e o apaixonado,
faça com que o célebro seja
a fêmea que vários enseja.

.

Le lièvre
Ne soit pas lascif et peureux
Comme le lièvre et l’amoureux.
Mais que toujours ton cerveau soit
La hase pleine qui conçoit.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

O rato
Belos dias, rato das horas,
roído assim faço-me idas.
Deus! foram-me vinte e oito auroras,
penso eu muito mal vividas.

.

La souris
Belles journées, souris du temps,
Vous rongez peu à peu ma vie.
Dieu! Je vais avoir vingt-huit ans,
Et mal vécus, à mon envie.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

A lagarta
Só o trabalho é que enriquece.
Pobre poeta, à picareta!
A lagarta sem cessar tece
pra transformar-se em borboleta.

.

La chenille
Le travail mène à la richesse.
Pauvres poètes, travaillons!
La chenille en peinant sans cesse
Devient le riche papillon.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

As sereias
Saberei eu porque cantam entediadas
longas ladainhas durante as madrugadas?
Mas, sou como tu, onde há vozes maquinando
meus cantantes barcos são anos navegando.

.

Les sirènes
Saché-je d’où provient, Sirènes, votre ennui
Quand vous vous lamentez, au large, dans la nuit ?
Mer, je suis comme toi, plein de voix machinées
Et mes vaisseaux chantants se nomment les années.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

Orfeu
A fatal fêmea do alcião,
o amor, as aladas Sereias,
sabem uma mortal canção
inumanas e cheias de teias.
Que não te encantem tais ruídos,
só anjos devem ser ouvidos.

.

Orphée
La femelle de l’alcyon,
L’Amour, les volantes Sirènes,
Savent de mortelles chansons
Dangereuses et inhumaines.
N’oyez pas ces oiseaux maudits,
Mais les Anges du paradis.
– Apollinaire, em “O bestiário ou o cortejo de Orfeu” – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.

§

Apollinaire em tradução de Paulo Hecker Filho

Maria
Está dançando menina
E velha ainda dançará
É o ritmo que domina
Todos os sinos soarão
Quando Maria voltará

As máscaras e outros véus
E a música tão afastada
Que parece vir dos céus
Posso amar-te mais um nada
Minha dor é delicada

Os carneiros pela neve
São flocos de prata e lã
Soldados passam quem leve
Meu volúvel coração
Volúvel e talvez não

Sei onde irão teus cabelos
Crespos como o mar sem dono
Sei onde irão teus cabelos
E as tuas mãos folhas de outorno
Juncam também nossos zelos

Passeio à margem do Sena
Com um velho livro na mão
O rio igual à minha pena
Passa e nunca se apequena
Não vejo o fim da quinzena

.

Marie
Vous y dansiez petite fille
Y danserez-vous mère-grand
C’est la maclotte qui sautille
Toute les cloches sonneront
Quand donc reviendrez-vous Marie

Les masques sont silencieux
Et la musique est si lointaine
Qu’elle semble venir des cieux
Oui je veux vous aimer mais vous aimer à peine
Et mon mal est délicieux

Les brebis s’en vont dans la neige
Flocons de laine et ceux d’argent
Des soldats passent et que n’ai-je
Un cœur à moi ce cœur changeant
Changeant et puis encor que sais-je

Sais-je où s’en iront tes cheveux
Crépus comme mer qui moutonne
Sais-je où s’en iront tes cheveux
Et tes mains feuilles de l’automne
Que jonchent aussi nos aveux

Je passais au bord de la Seine
Un livre ancien sous le bras
Le fleuve est pareil à ma peine
Il s’écoule et ne tarit pas
Quand donc finira la semaine
– Guillaume Apollinaire, em “Escritos de Apollinaire”. [tradução, seleção e notas de Paulo Hecker Filho]. coleção Rebeldes malditos. Porto Alegre: Editora L&PM. 1984.

Desejo
Meu desejo é a região diante de mim
Atrás das linhas boches
Meu desejo está também atrás de mim
Depois da zona das tropas

Meu desejo é a colina ardente
Meu desejo está no alvo que miro
Do meu desejo além da zona das tropas
Hoje não falo mas penso

Colina ardente eu te imagino em vão
Arames metralhadoras dos boches demasiado seguros deles mesmos
Demasiado metidos na terra já enterrados

Ca ta clac disparos que morrem se afastando

Em vigília tarde da noite
É um da província que tosse
A telha ondulada sobre a chuva
E sem que a chuva se adoce

Escuta a terra veemente
Vê os clarões antes de ouvir os tiros
O tac clac monótono e breve
Um obus a assobiar demente

Eu te vejo Mão de Massiges
Tão descarnada no mapa

A trincheira Goethe em que atirei
Atirei mesmo sobre a Nietzsche
Francamente eu não respeito
Glória nenhuma

Noite violenta e violenta sombria e por instantes dourada
Noite dos homens apenas
Noite de 24 de setembro de 1915
Amanhã o assalto
Noite violenta ó noite cujo grito espantoso a cada minuto é mais intenso
Noite dos homens apenas
Noite que grita como uma mulher parindo.

.

Désir
Mon désir est la région qui est devant moi
Derrière les lignes boches
Mon désir est aussi derrière moi
Après la zone des armées

Mon désir c’est la butte du Mesnil
Mon désir est là sur quoi je tire
De mon désir qui est au-delà de la zone des armées
Je n’en parle pas aujourd’hui mais j’y pense

Butte du Mesnil je t’imagine en vain
Des fils de fer des mitrailleuses des ennemis trop sûrs d’eux
Trop enfoncés sous terre déjà enterrés

Ca ta clac des coups qui meurent en s’éloignant
En y veillant tard dans la nuit
Le Decauville qui toussote
La tôle ondulée sous la pluie
Et sous la pluie ma bourguignotte

Entends la terre véhémente
Vois les lueurs avant d’entendre les coups

Et tel obus siffler de la démence
Ou le tac tac tac monotone et bref plein de dégoût

Je désire
Te serrer dans ma main Main de Massiges
Si décharnée sur la carte

Le boyau Gœthe où j’ai tiré
J’ai tiré même sur le boyau Nietzsche
Décidément je ne respecte aucune gloire

Nuit violente et violette et sombre et pleine d’or par moments
Nuit des hommes seulement
Nuit du 24 septembre
Demain l’assaut
Nuit violente ô nuit dont l’épouvantable cri profond devenait plus intense de minute en minute
Nuit qui criait comme une femme qui accouche
Nuit des hommes seulement
– Guillaume Apollinaire, em “Escritos de Apollinaire”. [tradução, seleção e notas de Paulo Hecker Filho]. coleção Rebeldes malditos. Porto Alegre: Editora L&PM. 1984.

§

Guillaume Apollinaire, por Picasso (1913)

Apollinaire em tradução de Ivo Barroso, Marcos Siscar, Josely Vianna Baptista, Mário Laranjeira e Nelson Ascher

Zona
Te cansaste afinal desta vida anciã
Pastora ó torre Eiffel teu rebanho de pontos bale esta manhã
Já viveste demais na Antiguidade dos gregos e romanos
Aqui até os automóveis tem um ar de muitos anos
Só a religião permaneceu nova a religião
Permaneceu simples como os hangares do campo de aviação
Antigo na Europa ó Cristianismo só tu não és
O europeu mais moderno sois vós ó Pio Dez
E tu que as janelas espreitam a vergonha te escora
De entrar numa igreja e confessar-te agora
Lês prospectos catálogos cartazes cantando alto seus versos
Eis a poesia da manhã e para a prosa há os jornais
Os folhetins baratos cheio de aventuras policiais
Retratos de figurões e mil fatos diversos
A rua cujo nome esqueço e donde vim
Esta manhã nova e limpa de sol era um clarim
Operários patrões estenógrafas belas
De segunda a sexta passam quatro vezes por ela
Toda manhã por três vezes a sirene branda
Um sino raivoso ao meio-dia ladra
As inscrições das tabuletas e dos outros muros
As placas os avisos parecem araras em apuros
Amo a graça desta rua industrial, no cerne
De Paris entre a Aumout-Thièville e a Avenue de Ternes
Esta é a rua da infância e não passas de um pivete
Tua mãe só de azul e branco é que te veste
És carola e com teu colega mais antigo, ou seja,
René Dalize, amas acima de tudo as pompas da Igreja
São nove horas baixaram o gás azul sais do dormitório às furtadelas
Vocês rezam a noite interna na capela do colégio
Enquanto eterna e adorável profundeza ametista
Gira sem fim a flamejante glória de Cristo
É o belo lírio que cada um de nós carrega
É a tocha de cabelos ruivos que o vento não encerra
É o filho da dolorosa mãe pálido e rubente
É a árvore sempre densa de orações constantes
É a duplo esteio de honra e eternidade
É a estrela de seis pontas
É Deus que morre na sexta e domingo ressuscita
É Cristo que sobe onde aviador nenhum se aventura
Ele é o recordista do mundo em altura
Menina Cristo dos olhos
Vigésima pupila dos séculos disso ele entende
E mudado em pássaro este século como Jesus ascende
Os diabos em seus abismos levantam os olhos para vê-los
Dizem que ele imita Simão o Mago da Judéia
Gritam que se sabe decolar o que seja degolado
O belo volteador pelos anjos é volteado
Ícaro Enoque Elias Apolônio de Tiana
Flutuam em torno do primeiro aeroplano
Afastam-se às vezes para deixar passar aqueles que a Santa Eucaristia transporta
Esses padres que sobem eternamente elevando a hóstia
Finalmente o avião pousa sem fechar as asas
E então as andorinhas enchem os céus aos milhões
Num piscar de olhos vêm os corvos os mochos os falcões
Da África chegam os íbis os flamingos os marabus
O pássaro Roca celebrado em verso e prosa passa
Levantando nas garras o crânio de Adão a primeira cabeça
A águia mergulha do horizonte largando um fundo grito
E da América vem o pequeno colibri
Da China vieram os longos e macios piís
Que têm uma só asa e voam em pares
E eis então a pomba do espírito imaculado
Escortada pelo pássaro-lira e o pavão ocelado
A Fênix que se engendra no fogo que a debela
Entre cinzas ardentes num sopro tudo vela
Três sereias que fogem de estreitos perigosos
E ressurgem entoando seus cantos prazerosos
Com a máquina voadora se estreitam por sua vez
A águia e a fênix e o pihis chinês
Zanza agora em Paris sozinho entre a gente
A seu redor ônibus rodam em rebanho mugente
Os desgostos do amor quase deixam sem ar
Como se nunca mais lhe fosse dado amar
Vivesse noutros tempos teria ingressado num mosteiro
Fica sem jeito ao se pegar rezando qual cordeiro
Troça a si e soa a fogo do Inferno seu riso-estalido
Doura o fundo de sua vida esse faiscar de brasido
É um quadro pendurado num museu sombrio
Que às vezes você fica olhando horas a fio
Hoje anda por Paris as mulheres então vermelho-sangue
Era isso e eu queria esquecer que a beleza ia ficando exangue
Entre chamas ardentes Notre-Dame contemplou-me em Chartres
Sangue de vosso Sacré-Couer inundou-me em Montmartre
De ouvir o verbo bem-aventurado eu tornei-me céreo
O amor que me atormenta é um mal venéreo
A imagem que o invade o faz sobreviver insone e em agonia
Está sempre por perto a imagem fugidia
Você respira agora ares mediterrâneos
Sob o florir perene dos limoeiros litorâneos
Com os companheiros sai de barco a passeio
Dois da Turbie um de Menton de Nice o terceiro
Espreitamos os polvos do fundo com pavor
E entre as algas nadam peixes símbolos do Salvador
Tu estás no jardim de um albergue na região de Praga
Tu te sentes feliz há uma rosa sobre a mesa
E observas em vez de escrever teu conto em prosa
A cetônia a dormir no coração da rosa
Espantada te vês desenhada nas ágatas de Saint-Vit
Morrias de tristeza quando ali te viste
Pareces-te com Lázaro pela luz do aturdido
Os ponteiros do relógio do bairro judeu vão contra o sentido
E tu recuas também na vida devagar
Ao subir ao Hradchin e à noite ao escutar
Nas tavernas cantarem tchecas melodias
Eis que estás em Marselha em meio a melancias
Eis que estás em Coblence no hotel do Gigante
Eis que estás em Roma sentado sob uma nespeira do Japão
Eis que estás em Amsterdã com uma mocinha a quem achas bonita e que é feia
Ela deve casar-se com um estudante de Leyde
Lá se alugam quartos em latim Cubicula locanda
Eu me lembro passei três dias lá e outros tantos em Gouda
Tu estás em Paris junto ao juiz de instrução
Como a um criminoso te põem em estado de prisão
Tu fizeste viagens de dores e prazeres
Antes de a mentira e a idade perceberes
Tu sofreste do amor aos vinte e aos trinta anos
Eu vivi como um louco e perdi um tempo insano
Não ousas mais olhar tuas mãos e a cada instante eu quisera soluçar
Sobre ti sobre aquela que amo sobre tudo que pôde te espantar
Olhas com olhos cheios de lágrimas esses emigrantes rotos
Eles crêem em Deus rezam as mulheres aleitam garotos
Inundam com seu cheiro a estação St Lazare
Seguem como os Reis Magos sua estrela a um lugar
Como a Argentina onde farão fortuna e cada qual
Voltará rico a seu país natal
Uma família leva um edredom como por dentro vós levais
O coração mas o edredom e nossos sonhos não são reais
Há imigrantes que alugam qualquer espelunca
Na rua des Rosiers ou des Ecouffes e não partem nunca
Vejo-os na rua amiúde quando à tarde tomam ar
E como peças de xadrez se movem devagar
São judeus sobretudo cujas pálidas esposas
Que usam perucas ficam só no fundo de suas lojas
Estás frente ao balcão de um bar imundo e ao lado
Dos miseráveis bebes um café barato
À noite estás num belo restaurante
As mulheres daqui não sendo más têm não obstante
Seus problemas e até a mais feia faz sofrer o amante
Seu pai em Jersey de onde vem é um policial
Eu tenho dó das cicatrizes no seu ventre e mal
Havia visto suas duras mãos cheias de calo
Frente à coitada com seu riso atroz me calo
Estás sozinho vem chegando a aurora
Leitores fazem tinir latas rua afora
A noite feito a mais linda mulata
Ferdine a falsa ou Léa a afável já se afasta
O álcool que bebes é tua vida e arde igualmente
Bebes tua vida feito um aguardente
Caminhas rumo a Auteil vais para a casa a pé
dormir entre fetiches da Oceania e da Guiné
que são os Cristos de outras formas dos credos alheios
os Cristos inferiores de enigmáticos anseios
Adeus Adeus
Sol pescoço sem cabeça

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Zone
À la fin tu es las de ce monde ancien
Bergère ô tour Eiffel le troupeau des ponts bêle ce matin
Tu en as assez de vivre dans l’antiquité grecque et romaine
Ici même les automobiles ont l’air d’être anciennes
La religion seule est restée toute neuve la religion
Est restée simple comme les hangars de Port-Aviation
Seul en Europe tu n’es pas antique ô Christianisme
L’Européen le plus moderne c’est vous Pape Pie X
Et toi que les fenêtres observent la honte te retient
D’entrer dans une église et de t’y confesser ce matin
Tu lis les prospectus les catalogues les affiches qui chantent tout haut
Voilà la poésie ce matin et pour la prose il y a les journaux
Il y a les livraisons à 25 centimes pleines d’aventures policières
Portraits des grands hommes et mille titres divers
J’ai vu ce matin une jolie rue dont j’ai oublié le nom
Neuve et propre du soleil elle était le clairon
Les directeurs les ouvriers et les belles sténodactylographes
Du lundi matin au samedi soir quatre fois par jour y passent
Le matin par trois fois la sirène y gémit
Une cloche rageuse y aboie vers midi
Les inscriptions des enseignes et des murailles
Les plaques les avis à la façon des perroquets criaillent
J’aime la grâce de cette rue industrielle
Située à Paris entre la rue Aumont-Thiéville et l’avenue des Ternes
Voilà la jeune rue et tu n’es encore qu’un petit enfant
Ta mère ne t’habille que de bleu et de blanc
Tu es très pieux et avec le plus ancien de tes camarades René Dalize
Vous n’aimez rien tant que les pompes de l’Église
Il est neuf heures le gaz est baissé tout bleu vous sortez du dortoir en cachette
Vous priez toute la nuit dans la chapelle du collège
Tandis qu’éternelle et adorable profondeur améthyste
Tourne à jamais la flamboyante gloire du Christ
C’est le beau lys que tous nous cultivons
C’est la torche aux cheveux roux que n’éteint pas le vent
C’est le fils pâle et vermeil de la douloureuse mère
C’est l’arbre toujours touffu de toutes les prières
C’est la double potence de l’honneur et de l’éternité
C’est l’étoile à six branches
C’est Dieu qui meurt le vendredi et ressuscite le dimanche
C’est le Christ qui monte au ciel mieux que les aviateurs
Il détient le record du monde pour la hauteur
Pupille Christ de l’oeil
Vingtième pupille des siècles il sait y faire
Et changé en oiseau ce siècle comme Jésus monte dans l’air
Les diables dans les abîmes lèvent la tête pour le regarder
Ils disent qu’il imite Simon Mage en Judée
Ils crient s’il sait voler qu’on l’appelle voleur
Les anges voltigent autour du joli voltigeur
Icare Énoch Élie Apollonius de Thyane
Flottent autour du premier aéroplane
Ils s’écartent parfois pour laisser passer ceux qui portent la Sainte-Eucharistie
Ces prêtres qui montent éternellement en élevant l’hostie
L’avion se pose enfin sans refermer les ailes
Le ciel s’emplit alors de millions d’hirondelles
À tire d’aile viennent les corbeaux les faucons les hiboux
D’Afrique arrivent les ibis les flamands les marabouts
L’oiseau Roc célébré par les conteurs et les poètes
Plane tenant dans les serres le crâne d’Adam la première tête
L’aigle fond de l’horizon en poussant un grand cri
Et d’Amérique vient le petit colibri
De Chine sont venus les pihis longs et souples
Qui n’ont qu’une seule aile et qui volent par couples
Puis voici la colombe esprit immaculé
Qu’escortent l’oiseau-lyre et le paon ocellé
Le phénix ce bûcher qui soi-même s’engendre
Un instant voile tout de son ardente cendre
Les sirènes laissant les périlleux détroits
Arrivent en chantant bellement toutes trois
Et tous aigle phénix et pihis de la Chine
Fraternisent avec la volante machine
Maintenant tu marches dans Paris tout seul parmi la foule
Des troupeaux d’autobus mugissants près de toi roulent
L’angoisse de l’amour te serre le gosier
Comme si tu ne devais jamais plus être aimé
Si tu vivais dans l’ancien temps tu entrerais dans un monastère
Vous avez honte quand vous vous surprenez à dire une prière
Tu te moques de toi et comme le feu de l’Enfer ton rire pétille
Les étincelles de ton rire dorent le fond de ta vie
C’est un tableau pendu dans un sombre musée
Et quelquefois tu vas la regarder de près
Aujourd’hui tu marches dans Paris les femmes sont ensanglantées
C’était et je voudrais ne pas m’en souvenir c’était au déclin de la beauté
Entourée de flammes ferventes Notre-Dame m’a regardé à Chartres
Le sang de votre Sacré-Coeur m’a inondé à Montmartre
Je suis malade d’ouïr les paroles bienheureuses
L’amour dont je souffre est une maladie honteuse
Et l’image qui te possède te fait survivre dans l’insomnie et dans l’angoisse
C’est toujours près de toi cette image qui passe
Maintenant tu es au bord de la Méditerranée
Sous les citronniers qui sont en fleur toute l’année
Avec tes amis tu te promènes en barque
L’un est Nissard il y a un Mentonasque et deux Turbiasques
Nous regardons avec effroi les poulpes des profondeurs
Et parmi les algues nagent les poissons images du Sauveur
Tu es dans le jardin d’une auberge aux environs de Prague
Tu te sens tout heureux une rose est sur la table
Et tu observes au lieu d’écrire ton conte en prose
La cétoine qui dort dans le coeur de la rose
Épouvanté tu te vois dessiné dans les agates de Saint-Vit
Tu étais triste à mourir le jour où tu t’y vis
Tu ressembles au Lazare affolé par le jour
Les aiguilles de l’horloge du quartier juif vont à rebours
Et tu recules aussi dans ta vie lentement
En montant au Hradchin et le soir en écoutant
Dans les tavernes chanter des chansons tchèques
Te voici à Marseille au milieu des pastèques
Te voici à Coblence à l’hôtel du Géant
Te voici à Rome assis sous un néflier du Japon
Te voici à Amsterdam avec une jeune fille que tu trouves belle et qui est laide
Elle doit se marier avec un étudiant de Leyde
On y loue des chambres en latin Cubicula locanda
Je me souviens j’y ai passé trois jours et autant à Gouda
Tu es à Paris chez le juge d’instruction
Comme un criminel on te met en état d’arrestation
Tu as fait de douloureux et de joyeux voyages
Avant de t’apercevoir du mensonge et de l’âge
Tu as souffert de l’amour à vingt et à trente ans
J’ai vécu comme un fou et j’ai perdu mon temps
Tu n’oses plus regarder tes mains et à tous moments je voudrais sangloter
Sur toi sur celle que j’aime sur tout ce qui t’a épouvanté
Tu regardes les yeux pleins de larmes ces pauvres émigrants
Ils croient en Dieu ils prient les femmes allaitent les enfants
Ils emplissent de leur odeur le hall de la gare Saint-Lazare
Ils ont foi dans leur étoile comme les rois-mages
Ils espèrent gagner de l’argent dans l’Argentine
Et revenir dans leur pays après avoir fait fortune
Une famille transporte un édredon rouge comme vous transportez votre coeur
Cet édredon et nos rêves sont aussi irréels
Quelques-uns de ces émigrants restent ici et se logent
Rue des Rosiers ou rue des Écouffes dans des bouges
Je les ai vu souvent le soir ils prennent l’air dans la rue
Et se déplacent rarement comme les pièces aux échecs
Il y a surtout des juifs leurs femmes portent perruque
Elles restent assises exsangues au fond des boutiques
Tu es debout devant le zinc d’un bar crapuleux
Tu prends un café à deux sous parmi les malheureux
Tu es la nuit dans un grand restaurant
Ces femmes ne sont pas méchantes elles ont des soucis cependant
Toutes même la plus laide a fait souffrir son amant
Elle est la fille d’un sergent de ville de Jersey
Ses mains que je n’avais pas vues sont dures et gercées
J’ai une pitié immense pour les coutures de son ventre
J’humilie maintenant à une pauvre fille au rire horrible ma bouche
Tu es seul le matin va venir
Les laitiers font tinter leurs bidons dans les rues
La nuit s’éloigne ainsi qu’une belle Métive
C’est Ferdine la fausse ou Léa l’attentive
Et tu bois cet alcool brûlant comme ta vie
Ta vie que tu bois comme une eau-de-vie
Tu marches vers Auteuil tu veux aller chez toi à pied
Dormir parmi tes fétiches d’Océanie et de Guinée
Ils sont des Christ d’une autre forme et d’une autre croyance
Ce sont les Christ inférieurs des obscures espérances
Adieu Adieu
Soleil cou coupé
– Apollinaire. [tradução Ivo Barroso, Marcos Siscar, Josely Vianna Baptista, Mário Laranjeira e Nelson Ascher]. em “Os 100 Melhores Poemas Internacionais do Século XX”. in: Folha de São Paulo, 2/1/2000.

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caligramas de apollinaire

(Caligramas. Guillaume Apollinaire. [introdução, organização, tradução e notas de Álvaro Faleiros; Prefácio de Véronique Dahlet].São Paulo: Ateliê Editorial; Brasília: Editora UnB, 2009). Fonte/imagens: antônio miranda

BREVE BIOGRAFIA DE APOLLINAIRE
Guillaume Apollinaire (escritor e crítico de arte francês) nasceu em 26 de agosto de 1880 e morreu em 9 de novembro de 1918, em Paris, próximo ao fim da primeira Grande Guerra, da qual participou e onde foi ferido gravemente em março de 1916. Participou ativamente e influenciou os movimentos de vanguarda que sacudiram Paris no princípio do século XX e acabaram por transformar definitivamente todas as artes.

Sua obra é vasta e fragmentada, tendo sido publicada durante quase duas décadas em jornais, revistas, panfletos e livros. Percorreu todos os gêneros – poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica – e entre tantas obras podemos destacar L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (1913), Le poète Assassiné (1916), Os pintores cubistas (1913).
Fonte: L&PM editores

Guillaume Apollinaire, por Jean Metzinger (1910)

Obra de Apollinaire em português
:: Escritos de Apollinaire. [tradução, seleção e notas de Paulo Hecker Filho]. coleção Rebeldes malditos. Porto Alegre: Editora L&PM. 1984.
:: Contos breves/ o mago apodrecido. Guillaume Apollinaire. [tradução de Henrique Araújo Mesquita]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998.
:: Pintores cubistas. Guillaume Apollinaire. [tradução de Sueli Barros Cassal]. Porto Alegre: L&PM Pocket
:: O bestiário ou o cortejo de Orfeu – Guillaume Apollinaire. [tradução e apresentação Álvaro Faleiros]. São Paulo: Editora: Iluminuras, 2000.
:: Mais Novembro do que Setembro. Guillaume Apollinaire. [tradução e prefácio de Maria Gabriela Llansol]. edição bilingue. Lisboa: Relógio d’Água, 2001.
:: Alcoois e outros poemas. Guillaume Apollinaire. [tradução Daniel Fresnot]. São Paulo: Martin Claret, 2005.
:: Caligramas. Guillaume Apollinaire. [introdução, organização, tradução e notas de Álvaro Faleiros; Prefácio de Véronique Dahlet].São Paulo: Ateliê Editorial; Brasília: Editora UnB, 2009.
:: Álcoois – poemas (1898 -1913). [tradução Mário Laranjeiras]. São Paulo: editora Hedra, 2013.

Antologia (participação)
:: Antologia de poetas franceses. [organização, seleção e tradução Raymundo Magalhães Jr.; vários tradutores]. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy Ltda Editora, 1950.
:: Folhetim: poemas traduzidos. [tradução Nelson Ascher e outros]. São Paulo: Editora Folha, 1987.
:: Poesia erótica em tradução. Antologia. [seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes]. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
:: Antologia da poesia francesa — do século IX ao século XX. [tradução e organização de Cláudio Veiga]. Rio de Janeiro: Editora Record, 1991.
:: 31 poetas, 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apollinaire. [tradução, notas e comentários Décio Pignatari]. Campinas: Editora da Unicamp, 1996; 2ª ed., 2007.
:: Poesia francesa: pequena antologia bilíngue. [tradução e seleção de José Jeronymo Rivera]. Brasília: Thesaurus, 1998; 2ª ed., revista e aumentada, 2005.
:: Poesia Alheia, 124 Poemas traduzidos. [tradução e organização Nelson Ascher]. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998.
:: Pequenas traduções de grandes poetas. [tradução Milton Lins; prefácio de Anderson Braga Horta; ‘orelhas’ de Murilo Melo Filho e Ivan Junqueira]. Vol. 4, Recife: Editora Recife, 2009.

outros cantos (poemas e traduções de apollinaire)
:: revista zunai

© Direitos reservados aos herdeiros

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

Apollinaire et ses amis – ©Marie Laurencin (1909)

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