SOCIEDADE

Francisco: a morte não é o fim de tudo, mas um novo começo

Publicamos o prefácio que o Papa Francisco tinha escrito em 7 de fevereiro, portanto antes da sua internação de 14 de fevereiro no Hospital Gemelli de Roma, para o livro do cardeal Angelo Scola, arcebispo emérito de Milão, intitulado “À espera de um novo começo. Reflexões sobre a velhice”. A obra em italiano da LEV, a Livraria Editora Vaticana, chegou às bancas em 24 de abril 2025.

Papa Francisco _ foto @AFP

Prefácio por Francisco
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Li com emoção estas páginas que saíram dos pensamentos e do afeto de Angelo Scola, querido irmão no episcopado e pessoa que cobriu cargos delicados na Igreja, por exemplo, como reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, depois Patriarca de Veneza e arcebispo de Milão. Antes de mais nada, quero expressar meus agradecimentos por essa reflexão que une experiência pessoal e sensibilidade cultural como poucas vezes aconteceu de eu ler. Uma, a experiência, ilumina a outra, a cultura; a segunda fundamenta a primeira. Nesse feliz entrelaçamento, a vida e a cultura florescem com beleza.

Não se deixe enganar pelo formato curto deste livro: são páginas muito densas, que devem ser lidas e relidas. Extraio das reflexões de Angelo Scola alguns pontos de particular consonância com o que a minha experiência me fez perceber.
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Angelo Scola nos fala da velhice, da sua velhice, que – escreve com um toque de confiança desarmante – “veio sobre mim com uma aceleração repentina e, em muitos aspectos, inesperada”.

Já na escolha da palavra com a qual se autodefine, “velho”, encontro uma consonância com o autor. Sim, não devemos ter medo da velhice, não devemos ter medo de abraçar o tonar-se velhos, porque a vida é a vida e adoçar a realidade significa trair a verdade das coisas. Restaurar o orgulho de um termo muitas vezes considerado doentio é um gesto pelo qual devemos ser gratos ao cardeal Scola. Porque dizer “velho” não significa “ser jogado fora”, como uma degradada cultura do descarte às vezes nos leva a pensar. Dizer velho, por outro lado, significa dizer experiência, sabedoria, discernimento, ponderação, escuta, lentidão… Valores de que precisamos muito!
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É verdade que ficamos velhos, mas esse não é o problema: o problema é como se tornar velho. Se vivermos esse tempo da vida como uma graça, e não com ressentimento; se acolhermos o tempo (mesmo longo) em que experimentamos forças reduzidas, a fadiga do corpo que aumenta, os reflexos não mais iguais aos da nossa juventude, com um senso de gratidão e de agradecimento, bem, até mesmo a velhice se torna uma idade da vida, como nos ensinou Romano Guardini, verdadeiramente fecunda e que pode irradiar o bem.

Angelo Scola destaca o valor, humano e social, dos avós. Já enfatizei várias vezes como o papel dos avós seja de fundamental importância para o desenvolvimento equilibrado dos jovens e, em última análise, para uma sociedade mais pacífica. Porque o exemplo deles, a palavra e a sabedoria deles podem incutir nos mais jovens uma longa visão, a memória do passado e a ancoragem em valores duradouros. Em meio ao frenesi das nossas sociedades, muitas vezes dedicadas ao efêmero e ao gosto doentio de aparecer, a sabedoria dos avós se torna um farol que brilha, ilumina a incerteza e dá direção aos netos, que podem extrair da experiência deles um “mais” em relação à própria vida cotidiana.
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As palavras que Angelo Scola dedica ao tema do sofrimento, que muitas vezes se instaura ao se tornar velho e, consequentemente, com a morte, são preciosas joias de fé e esperança. Ao argumentar sobre este irmão bispo, ouço ecos da teologia de Hans Urs von Balthasar e de Joseph Ratzinger, uma teologia “feita de joelhos”, mergulhada na oração e no diálogo com o Senhor. Por esse motivo que eu disse há pouco que essas são páginas que saíram “do pensamento e do afeto” do cardeal Scola: não só do pensamento, mas também da dimensão afetiva, que é a que se refere a fé cristã, sendo o cristianismo não tanto uma ação intelectual ou uma escolha moral, mas o afeto por uma pessoa, aquele Cristo que veio ao nosso encontro e decidiu nos chamar de amigos.

A própria conclusão dessas páginas de Angelo Scola, que são uma confissão de coração aberto sobre como ele está se preparando para o encontro final com Jesus, nos dá uma certeza consoladora: a morte não é o fim de tudo, mas o começo de algo. É um novo começo, como o título sabiamente indica, porque a vida eterna, que aqueles que amam já experimentam na terra em suas ocupações diárias, é começar algo que não terá fim. E é exatamente por esse motivo que é um “novo” começo, porque experimentaremos algo que nunca experimentamos plenamente: a eternidade.
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Com estas páginas em minhas mãos, eu gostaria, idealmente, de repetir o mesmo gesto que fiz assim que vesti o hábito branco do papa, na Capela Sistina: abraçar o irmão Angelo com grande estima e afeto, agora, ambos mais velhos do que naquele dia de março de 2013. Mas sempre unidos pela gratidão a esse Deus amoroso que nos oferece vida e esperança em qualquer idade do nosso viver.
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Cidade do Vaticano, 7 de fevereiro de 2025
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Fonte:  Vatican News

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