No laboratório da UFRGS, estudantes mostram o trabalho que pretendem apresentar nos Estados Unidos - foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Filtro-boia levaria bactéria programada para “comer” glifosato, usado em 90% das lavouras de soja do Brasil. Alunos fazem vaquinha para participar de competição que faria o projeto ser colocado em prática.
Zero Hora.

Alunos de cursos da área de Biologia e Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desenvolveram uma tecnologia com potencial para combater a poluição de rios e mares por glifosato, um polêmico agrotóxico aplicado em larga escala em lavouras do Brasil para combater ervas daninhas. O projeto é uma espécie de filtro-boia que, largado na água, “come” o herbicida.

Agora, o time de 18 estudantes faz uma vaquinha para arrecadar o dinheiro necessário para viajar até Boston, nos Estados Unidos. O objetivo é participar de um campeonato mundial no Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das universidades com maior tradição em Ciência no mundo.

Chamado de Glyfloat, o filtro-boia carrega, em fibras colocadas em um compartimento interno, bactérias da espécie Escherichia coli, que são presentes em nosso intestino e em outros ambientes. Elas naturalmente degradam (“comem”) substâncias que contêm fósforo, elemento presente no glifosato. A ideia é transportar genes de outros micro-organismos para essas bactérias e programá-las para duas funções: “comer” sem parar o fósforo (e, portanto, o herbicida) e morrer caso, eventualmente, saiam do equipamento (para evitar a contaminação da água). A iniciativa, diz o grupo, é inédita no mundo.

— Desenvolvemos desde o fim do ano passado. Queremos modificar a bactéria para que ela sempre queira comer glifosato — diz o estudante do quinto semestre de Biotecnologia João Luiz de Meirelles, 20 anos.

A solução é pensada especificamente para resolver uma polêmica presente no mundo inteiro que coloca, de um lado, defensores do meio ambiente e, de outro, produtores rurais. O glifosato é um importante químico usado em lavouras há mais de 40 anos para matar ervas daninhas que prejudicam o desenvolvimento de plantações — hoje, 90% das lavouras de soja cultivadas no Brasil dependem do uso do herbicida.

Quando chuvas incidem na lavoura, o agrotóxico pode sair das plantações, cair em cursos d’água e acabar em rios, lagos e mares. Aqui, surge uma das críticas: há estudos que relacionam a presença de glifosato em águas a mutações em anfíbios e morte de plantas aquáticas. Em seres humanos, a polêmica é maior, uma vez que há estudos relacionando o químico ao surgimento de câncer em pessoas (algo que está longe de ser consenso na comunidade acadêmica, uma vez que diferentes estudos trazem resultados divergentes).

Sem evidências para relacionar o herbicida ao câncer

A tecnologia desenvolvida na UFRGS adquire maior potencial após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar e regulamentar, na semana passada, o uso de glifosato em lavouras no Brasil, após uma análise que se arrastava há mais de 11 anos.

No relatório, a entidade segue a toada de países como Estados Unidos e também a União Europeia e afirma que não há, até o momento, evidências suficientes relacionando o uso do herbicida ao aparecimento de câncer em humanos, caso o herbicida seja aplicado nos valores indicados. Nesse cenário, combater os resíduos no ambiente pode contribuir para evitar o prejuízo à fauna e flora.

— O projeto ajudaria a diminuir consideravelmente a contaminação de rios e lagos decorrentes da utilização de glifosato. Há uma certa periodicidade nas contaminações e, na primeira chuva, ele cai em afluentes, o que tem impacto em plantas presentes em ambientes aquáticos, assim como potenciais outras formas de vida — diz Charley Christian Staats, farmacêutico chefe do Laboratório de Microbiologia Molecular e Celular do Centro de Biotecnologia da UFRGS.

Especialista avalia ideia como “próspera e inovadora”

O projeto ainda é teórico. Para fazê-lo decolar, a equipe quer participar da International Genetically Engineered Machine Competition (iGEM), a maior competição de Biologia sintética do mundo, que ocorre anualmente no MIT entre estudantes.

Só por participar da feira, os estudantes já ganham um kit com fragmentos de DNA encomendados por eles — isto é, a fórmula necessária para “editar” a bactéria e programá-la para comer glifosato. Para participar do campeonato, no entanto, é preciso pagar uma taxa de inscrição de US$ 5 mil (cerca de R$ 19,5 mil). Em buscar de levantar o valor, a equipe está fazendo uma vaquinha na internet – até a tarde de quinta-feira (7), R$ 16,1 mil haviam sido arrecadados. Veja neste link como ajudar.

Na visão do biólogo Flávio Rodrigues Manoel da Silva, professor de Toxicologia na Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e pesquisador sobre os efeitos de agrotóxicos em organismos e na saúde humana, a ideia do filtro-boia é “próspera e inovadora”. Ele pondera que agências internacionais divergem ao classificar o glifosato como cancerígeno à saúde humana, mas diz que os prejuízos de altas doses do agrotóxico ao ambiente são objeto de maior consenso. A ideia de colocar uma bactéria para comer um químico, afirma, já dá resultado em outros cenários, como regiões poluídas com petróleo ou estações de tratamento de esgoto, onde micro-organismos degradam matéria orgânica.

— Já existem evidências suficientes de que o glifosato é tóxico para muitos organismos não alvo (animais e outras plantas) e que mesmo de maneira indireta pode afetar o dia a dia do ser humano, com perdas ambientais e econômicas irreparáveis — afirma e acrescenta:

— Os grandes desafios estão nos detalhes operacionais, como tempo de degradação, quantidade de micro-organismos, maneiras de evitar que este organismo geneticamente modificado possa escapar do sistema. Mas, principalmente, no desenvolvimento de uma logística para remoção deste herbicida em larga escala, uma vez que a quantidade de glifosato lançada no meio ambiente é imensa.

Fonte: Zero Hora.

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