Estarei no Bairro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, e será outubro de 2025. A primavera estará de novo pintando as árvores da orla com uma luz clara que entra pelas janelas como quem pede licença, e o vento do mar chegará sem aviso, misturando sal, flores e uma certa melancolia que insiste em sobreviver na beleza. Nesse cenário, vou receber três casais de amigos e amigas, cada um trazendo suas histórias, suas memórias e seus sorrisos. E eu, que agora planejo este encontro ao mesmo tempo em que leio e relembro a trajetória de Cláudia Cardinale, vou transformar a noite em uma homenagem. Um jantar que será também uma cena de cinema. Uma receita que quero batizar de Espaguete à Cláudia Cardinale.
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Penso nisso agora, em silêncio, como quem abre um livro antigo. Cláudia Cardinale aparece em minha memória como uma presença que atravessa o tempo com simplicidade e esplendor, com uma beleza que não se cansa de existir e uma sensibilidade que parece universal. Lembro dela nas telas, os cabelos soltos, o olhar intenso e suave, a voz que não precisava se impor porque bastava estar. E percebo que o prato que vou cozinhar para os meus amigos precisa ter exatamente isso: a intensidade do presunto cru ou defumado, a delicadeza do creme, o frescor verde do manjericão e da salsa, a alegria do limão siciliano. Precisa ser um prato que, como uma cena inesquecível, ficará guardado em nós.
Vejo a cozinha do meu apartamento no Flamengo como um set de filmagem. A mesa de madeira será a praça, a faca será a câmera, o fogo será o diretor. A primeira tomada será da panela de água, generosa, onde mergulharei dois litros e meio, talvez três, e uma colher de sopa rasa de sal grosso cairá como neve breve. Nela mergulharei duzentos gramas de espaguete italiano, o que carrega em cada fio o grão que conheceu sol, vento e tempo. Enquanto a água dança, os outros atores estarão prontos: cem gramas de presunto cru de Parma ou Serrano, ou talvez defumado, cortado em tiras finas que lembram fitas de um vestido de festa; uma cebola pequena picada como quem escreve com calma; um dente de alho amassado; cem mililitros de vinho branco seco, para dar à cena o perfume das uvas maduras; duzentos mililitros de creme de leite fresco, pronto para o veludo; cinquenta gramas de parmesão ralado na hora, que cairá como neve madura; raspas de meio limão siciliano para abrir janelas no prato; folhas frescas de manjericão e duas colheres de sopa de salsa picada; uma colher de sopa de azeite de oliva extravirgem e outra de manteiga sem sal; pimenta do reino moída na hora e, se for preciso, um punhado mínimo de sal.
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Será nesse momento que me lembrarei de novo de Cláudia Cardinale. Pensarei nela como atriz e como mulher, simples e deslumbrante, universal e cotidiana. Haverá nela o mesmo equilíbrio que quero imprimir no prato: algo que não se impõe pela força, mas conquista pela presença.
Quando a água da massa estiver em fervura intensa, mergulharei o espaguete e o deixarei se dobrar, rígido primeiro, maleável depois, como quem aprende a confiar. Enquanto isso, a frigideira larga estará no fogo. O azeite e a manteiga se encontrarão e a cebola picada descerá, ficando translúcida, iluminada por dentro. O alho entrará por instantes, apenas para dar perfume. O vinho branco deglaceará o fundo, soltará segredos. Então o creme de leite fresco será cortina que se abre lentamente. O molho pedirá calma e colher de pau. Pimenta moída na hora. Sal apenas se necessário. O presunto entrará por último, com discrição: se cru, delicado, apenas aquecido para soltar perfume; se defumado, com passo curto, sem dominar.
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A massa chegará ao ponto al dente. Guardarei meia xícara da água do cozimento. Levantarei o espaguete e o levarei direto à frigideira. Esse será o encontro central. O molho envolverá as cordas douradas, o parmesão cairá em neve suave, e talvez eu acrescente um pouco da água quente reservada, até o creme se transformar em veludo. As raspas do limão siciliano iluminarão o prato como luz mediterrânea. O silêncio da cozinha será interrompido apenas pelo perfume que invadirá a sala..

Mas esse prato não será só técnica. Ele será memória e homenagem. Enquanto mexer o espaguete, pensarei que cozinhar será como montar uma cena. O creme deslizando será um travelling. O presunto que libera seus aromas será um close. O limão será o corte para uma janela aberta sobre o mar. O manjericão será música, a salsa será figurino, o parmesão será luz refletida nos olhos da plateia. E quando eu servir, o prato terá se tornado mais que alimento: será narrativa.
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Estarei no Flamengo, e os meus amigos chegarão com suas histórias e risadas. Vou dispor a mesa com pratos fundos, colocar o espaguete em pequenas torres que respiram. Salpicarei a salsa, deixarei folhas inteiras de manjericão como joias verdes. Se houver, usarei um fio mínimo de azeite trufado, apenas para dar brilho de tapete vermelho. Cada garfada será uma cena. Cada silêncio será cumplicidade.
Naquele momento, eu saberei que todo o esforço de agora, enquanto planejo e escrevo, valerá a pena. Porque cozinhar não será apenas cumprir etapas, será linguagem. Será memória. Será homenagem.
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E se alguém pedir instruções práticas, eu repetirei: uma panela com água e sal. Duzentos gramas de espaguete. Em frigideira, azeite e manteiga em partes iguais. Uma cebola pequena picada, um dente de alho, cem mililitros de vinho branco, duzentos mililitros de creme de leite fresco, presunto cru ou defumado em tiras, parmesão, raspas de limão. Finalizar com salsa e manjericão. E servir sem pressa.
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Acompanhamentos? Um vinho branco seco, fresco mas não gelado, que converse com o creme. Ou um tinto leve, de taninos educados, se o presunto for defumado. Pão para raspar o fundo do prato. Uma salada verde como prólogo. Um café curto como epílogo.
Quando a noite terminar, ficará o perfume do manjericão, o frescor do limão, as migalhas na toalha, o agradecimento silencioso por existirem receitas que atravessam países e décadas. Ficará também a lição da simplicidade: um punhado de ervas, um fio de azeite, um creme que acolhe, um presunto que compartilha sua história.
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E então eu erguerei uma última vez a taça com meus amigos no Flamengo. Estaremos em outubro de 2025. O mundo continuará correndo do lado de fora, mas ali dentro haverá um intervalo luminoso. Uma pausa em que tudo fará sentido. E quando a cozinha voltar ao silêncio, o título permanecerá aceso como letreiro antigo: Espaguete à Cláudia Cardinale.
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E eu saberei que cada vez que repetir essa receita, ela será nova. Porque cada noite terá seu próprio público. Cada prato, se feito com verdade, será uma estreia. Cada lembrança de Cláudia Cardinale me devolverá a sensação de que a vida pode ser simples e deslumbrante, universal e íntima. E nesse gesto de cozinhar para amigos, no Bairro do Flamengo, em outubro de 2025, o cinema encontrará a mesa, e a mesa será também um filme em que todos nós seremos personagens de uma história inesquecível.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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