Músico Italiano Emmanuele Baldini e o violinista mineiro Guilherme Pimenta lançam álbum com clássicos da musica instrumental brasileira em duo de violinos. Disco Baião Ma Non Troppo traz versões de grandes clássicos de Sivuca, Luiz Gonzaga, Garoto, Tom Jobim e Noel Rosa
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O duo dos renomados violinistas Emmanuele Baldini e Guilherme Pimenta aposta na derrubada do muro que marca a fronteira entre os gêneros musicais. O violino, desde a sua origem, sempre esteve a serviço da dança e das manifestações populares. A despeito dessa raiz na música popular, o instrumento também se consolidou como um dos principais símbolos da música erudita. O trabalho de Baldini e Pimenta afirma a capacidade das cordas friccionadas de reaproximar os universos musicais ao usar violinos e viola para celebrar e enaltecer a diversidade da música popular brasileira. O duo é formado por dois expoentes da música instrumental, cada qual em sua especialidade: o italiano Emmanuele Baldini é spalla da OSESP enquanto o mineiro Guilherme Pimenta é um dos principais nomes do violino popular brasileiro da atualidade além de trazer também a viola para esta parceria.
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Essa união de forças e capacidades resulta em uma sonoridade camerística diferenciada tanto pela escolha do repertório quanto pelos arranjos, assinados por Guilherme. Ao interpretar a música de figuras ilustres como Sivuca, Luiz Gonzaga, Garoto, Tom Jobim e Noel Rosa, o duo chega a soar como se mais instrumentos estivessem presentes. Os arranjos valorizam a riqueza da música popular brasileira ao mesmo tempo que exploram a versatilidade da viola e do violino. Contribuindo também com a exaltação de peças compotas por violinistas populares, foram arranjadas para essa instrumentação, músicas de Nicolas Krassik, Wanessa Dourado e do próprio Guilherme. Fazendo um verdadeiro passeio musical pelo Brasil, os instrumentistas levam o público consigo para apreciar a milonga da região sul, percorrendo o choro e o samba do sudeste e chegando até a abundância cultural nordestina com o xote, o frevo e o baião. Assim, se origina o duo Baldini & Pimenta, através da conexão entre um artista italiano e outro brasileiro que, apaixonados pelo violino, fazem de seu instrumento um meio de festejar a grandiosidade da nossa música popular.
Faixa a faixa
1 – Cabaceira Mon Amour: ao lado do Feira de Mangaio, é um dos baiões mais conhecidos do compositor Sivuca. Lançada em 1984 no álbum Sivuca e Chiquinho do Acordeom, a obra também recebeu o título de Cheirinho de Mulher através da versão com letra de sua esposa Glória Gadelha. Tendo se consolidado nos bailes de forró pelo mundo, esse baião também foi gravado por músicos como Kiko Horta, Marcelo Caldi, Paulo Sérgio Santos e Nicolas Krassik. Na versão em duo de violinos deste disco, Emmanuele Baldini e Guilherme Pimenta se alternam entre melodia e acompanhamento. O arranjo escrito por Pimenta, busca representar o balanço do forró ao utilizar o arco do violino para imitar o resfolego da sanfona e a marcação da zabumba. Na parte final, os músicos celebram a alegria desse estilo tocando e cantando um sonoro “ê, laiê”.
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2 – O Xote Das Meninas: se destaca como uma das canções mais emblemáticas do nosso rei do baião Luiz Gonzaga. Feita em parceria com Zé Dantas, esse xote foi lançado em 1953 com uma letra que relaciona a transição da infância para a adolescência com elementos da natureza. A canção já foi gravada por nomes como Gilberto Gil, Dominguinhos e Elba Ramalho. Nesta versão instrumental para duo de violinos, técnicas como pizzicato e harmônicos artificiais são exploradas enquanto o suingue do xote, acentuando os contratempos, é executado pelos arcos dos instrumentos.
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3 – Violino Na Roda: é um choro sambado composto pelo violinista Guilherme Pimenta em 2014, quando da sua mudança para o Rio de Janeiro. Buscando ilustrar a presença de seu instrumento nas rodas de choro carioca dessa época, a música foi lançada primeiramente em seu EP em 2018 e em seguida, regravada no álbum Catopê de 2019. Neste arranjo para dois violinos, a escrita de Pimenta explora tanto a abertura de vozes entre os instrumentos como a contraposição entre melodia e acompanhamento. A linguagem do violão de 7 cordas, caraterizada pela alternância entre seus contrapontos na região grave (“baixaria”) com as levadas, é traduzida para o violino acompanhador. Devido à complexidade das polirritmias geradas entre a melodia e o acompanhamento, este arranjo se destaca como um dos mais difíceis do projeto.
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4 – Conversa de Botequim: este samba foi lançado em 1935 por Noel Rosa e Vadico e ainda se faz presente em muitas rodas contemporâneas. Gravada por nomes como Moreira da Silva, João Nogueira, Dolores Duran e Elza Soares, a canção retrata com fidelidade o cotidiano da boemia carioca de meados do século XX. Nesta versão para violino e viola de arco, alguns recursos modernos contrastam com o tradicionalismo de um dos sambas mais conhecidos de Noel. A introdução da viola solo, por exemplo, recorre ao motivo inicial da música para criar modulações inusitadas que se resolvem com a entrada do violino. Depois que os instrumentos se alternam na apresentação dos temas (AABA), há uma espécie de “improviso em duo” no qual ambos os instrumentos tocam exatamente o mesmo ritmo, porém cada um com sua voz. A seção seguinte, relativa à parte B da canção, surge com substituições harmônicas que, assim como na introdução, conferem um sabor inovador ao arranjo. Após esse pequeno passeio modernista, voltamos à normalidade cotidiana dos bares cariocas com seu café, cigarro, pão e resultado do futebol.
5 – Beatriz: é uma valsa lenta e sentimental que combina a melodia marcante de Edu Lobo com a poesia de Chico Buarque. Composta como trilha para o balé O Grande Circo Místico, a peça foi lançada em 1983 e, apesar considerada de difícil interpretação devido às suas modulações e extensão vocal, se firmou como um dos clássicos da música popular moderna no Brasil. Neste arranjo para duo de cordas, a viola pontua de forma simples as mudanças harmônicas enquanto a parte do violino explora diversos registros do instrumento, com uma escrita que tenta aproximá-lo da voz humana. A sinuosa melodia de Edu Lobo surge, por vezes, disfarçada dentro das texturas polifônicas das cordas.
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6 – Cordestinos: é um baião tranquilo, com melodias memoráveis e que trazem também algumas influências do ijexá baiano. Composta pelo violinista Nicolas Krassik, a música se consagrou em vários bailes de forró pelo mundo após ter sido lançada pelo músico em 2008. Mesmo sendo francês, Krassik conseguiu representar um pouco da diversidade da cultura nordestina nesta peça. No arranjo para duo, o 2º violino começa com um acompanhamento em pizzicato enquanto o 1º fica responsável pela melodia principal. Já durante o ijexá da segunda parte, o violino acompanhador aplica a técnica do chop, utilizando o arco de forma percussiva para simular o agogô típico desse estilo. Nesta versão, ambos violinos têm seções que propõe que os instrumentistas improvisem, tornando cada performance ainda mais única.
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7 – Milonga Para As Missões: é um clássico da música instrumental gaúcha. Composta pelo gaiteiro (a gaita-ponto também é conhecida como acordeom argentino) Gilberto Monteiro, esse tema se tornou conhecido pela gravação de 1984 de Renato Borghetti. O arranjo para dois violinos, assim como em outras peças do projeto, sugere que os violinistas improvisem em alguns trechos. Na introdução, por exemplo, o 2º violino segura uma nota mi-pedal enquanto o 1º violino passeia entre vários acordes que utilizam essa nota para então, chegar ao mesmo pedal que servirá de base para o improviso do outro violino. O tema principal é exposto com um acompanhamento super enérgico, marcado e que explora claves rítmicas que lembram ora um baião rápido e outrora um tango. Após uma seção de alternâncias dos violinos entre improvisos e acompanhamento, chegamos a um trecho de total liberdade de notas e de ritmo, na qual os violinistas “dialogam” espontaneamente antes de voltarem para o tema e finalizarem a milonga de forma apoteótica.
8 – Correnteza: é uma canção singela de Tom Jobim e Luiz Bonfá. Lançada em 1973, a música ganhou versões de Edu Lobo e Maria Bethânia, mas encontrou seu maior sucesso pela gravação de Djavan de 1995. Nesta versão, o arranjo se inspira em diversos aspectos da nossa cultura regional, indo desde a toada dos violeiros sertanejos (representada pela melodia em terças da introdução e pela célula rítmica do acompanhamento), passando pela cantiga de ninar e lembrando um pouco da música de Villa-Lobos. Enquanto o 1º violino com surdina apresenta a melodia da parte A de uma maneira desconstruída, o 2º violino imita um bandolim com um acompanhamento pizzicato que se sustenta durante todo o arranjo. Na parte B, a melodia aparece com harmônicos que emulam o som de uma flauta. O arranjo termina com uma coda que brinca com modulações rítmicas em dó maior, unindo pizzicato, arco e voz.
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9 – Desvairada: é uma valsa/choro rápida e virtuosística composta por Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, originalmente para violão tenor e que se tornou um standard no repertório do violão popular brasileiro. Gravada pela primeira vez em 1950 pelo próprio compositor, a valsa ganhou releituras de Raphael Rabello, Dino 7 Cordas e Paulo Bellinati. Neste arranjo para dois violinos, a parte A é apresentada pelo 1º violino solo e reexposta pelo 2º violino com o acompanhamento do 1º. Já os temas das partes B e C são divididas entre os dois instrumentistas, seja tocando o tema principal ou variações desenvolvidas sobre a mesma harmonia. Na última apresentação do A, apesar de cada violino tocar um compasso, o arranjo nos dá a impressão de que estamos ouvindo um único instrumento. A versão para duo enfatiza a efervescência típica desse gênero de valsa mais apressada.
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10 – Espevitado: é um frevo da violinista e compositora Wanessa Dourado. Em janeiro de 2024, Wanessa morria aos 32 anos em um terrível acidente de moto no interior de São Paulo. Tendo acabado de lançar seu álbum solo e já com vários discos gravados com seu grupo Fios de Choro, essa musicista incrível partiu de forma precoce, mas deixando um legado super valioso para a história do violino popular brasileiro e da nossa cultura musical. Sua música merece ser ouvida, tocada e celebrada. Nessa circunstância, o arranjo para dois violinos foi feito como uma forma de homenageá-la. O Espevitado acabou se destacando como um dos maiores desafios do repertório do duo tanto pela sua velocidade e por sua complexidade rítmica. Os violinos se alternam entre melodia, acompanhamento e variações em um andamento desafiador que deixa explícito o quanto o frevo pode exigir um alto nível técnico dos instrumentistas.
Disco ‘Baião Ma Non Troppo’ • Emmanuele Baldini & Guilherme Pimenta • Selo Kuarup • 2025
Músicas / compositores
1. Cabaceira mon amour (Sivuca e Gloria Gadelha)
2. O xote das meninas (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
3. Violino na roda (Guilherme Pimenta)
4. Conversa de botequim (Noel Rosa e Vadico)
5. Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque)
6. Cordestinos (Nicolas Krassik)
7. Milonga para as missões (Gilberto Monteiro)
8. Correnteza (Tom Jobim e Luiz Bonfá)
9. Desvairada (Garoto)
10. Espevitado (Wanessa Dourado)
– ficha técnica –
Emmanuele Baldini – violino 1 | Guilherme Pimenta – violino 2, viola | Produção musical e arranjos: Guilherme Pimenta | Gravação, mixagem e masterização: Adonias Jr./Estúdio Arsis | Textos: Guilherme Pimenta | Arte gráfica: Amanda Parmegiani | Fotos e vídeos: Abraham Orozco | Álbum de partituras: Editora Ilustre / lançamento | Selo: Kuarup | Formato: CD físico / digital | Ano: 2025 | Lançamento: 26 de setembro | ♪Ouça o álbum: clique aqui | ♩Assista o vídeo: clique aqui.
Sobre Emmanuele Baldini
Emmanuele Baldini é o Spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, regente titular da Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí e membro do Quarteto de Cordas OSESP. Em 2017 recebeu o Prêmio de Melhor Instrumentista da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) e em 2021 foi agraciado pelo Governo do Estado de São Paulo com a Medalha Tarsila do Amaral para seus méritos artísticos. Venceu o primeiro concurso internacional aos 12 anos de idade e, mais tarde, o Virtuositè de Genebra e o primeiro Prêmio do Fórum Junger Künstler de Viena. Apresentou-se em recitais nas principais cidades italianas e europeias e participou de longas turnês pela América do Sul, Estados Unidos, Europa, Austrália e Japão. Tem gravados mais de 40 CDs, entre os quais se destacam obras italianas e brasileiras de música de câmara para o Selo Naxos e obras virtuosísticas para violino solo para o Selo Sesc. Baldini também foi Spalla da Orquestra do Teatro Comunale de Bolonha e no Teatro Giuseppe Verdi de Trieste, atuando também como concertino na Orquestra do Teatro Alla Scala, de Milão. Entre 2017 e 2020 Baldini foi diretor artístico da Orquestra da Câmera de Valdivia, no Chile. Como solista, tocou com a Rundfunk Sinfonieorchester Berlin, a Orchestre de la Suisse Romande, a Wierner Kammerorchester, a Flanders Youth Philharmonic Orchestra, a Orquestra Estatal da Moldávia e a Orquestra do Teatro Giuseppe Verdi de Trieste. Nascido em Trieste, na Itália, iniciou os estudos de violino com Bruno Polli e em seguida aperfeiçoou-se na classe de virtuosidade de Corrado Romano em Genebra, com Ruggiero Ricci em Berlim e Salzburgo e, em música de câmara, com o Trio de Trieste e com Franco Rossi, violoncelista do Quartetto Italiano.
Sobre Guilherme Pimenta
Guilherme Pimenta é violinista, violista, rabequista, compositor e arranjador. Natural de Minas Gerais e radicado no Rio de Janeiro desde 2014, o músico vem se destacando na cena instrumental por trazer o violino para os contextos da improvisação e da música popular. Guilherme já se apresentou como solista convidado por grupos como Conjunto Época de Ouro, Geraes Big Band e Orquestra de Sopros da Pró Arte, trabalhou ao lado de grandes nomes como Carlos Malta, Bebê Kramer, Alma Thomas e Gabriel Grossi, além de ter tocado em diferentes projetos por países como França, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha, Polônia, Estados Unidos e Colômbia. Durante a sua formação, Guilherme concluiu a graduação pela Escola da Música da UFMG, fez mestrado nos EUA com o violinista Cármelo de Los Santos e recentemente, conquistou o título de doutor em música pela UNIRIO. Paralelamente, o músico também acumula cursos tanto no meio da música erudita quanto da popular, tendo estudado com professores como Miriam Fried, Shmuel Ashkenasi e Nailor “Proveta” Azevedo. Dentre os prêmios conquistados pelo instrumentista, destacam-se: Jovem Músico BDMG (2009), Melhor Instrumentista no Festival do Zimba (2017), Melhor Música Instrumental pelo Festival de Música da Rádio Mec (2019) e o 23º BDMG Instrumental (2024), que é um dos prêmios mais importantes do Brasil nessa categoria. Guilherme já gravou com diversos projetos, produziu seu primeiro EP em 2018, lançou discos com selos importantes como Freshsound Records (Espanha) e Kuarup e em 2025, está lançando seu quinto álbum, que consiste em um duo com o violinista Emanuelle Baldini, que o convidou para escrever arranjos para essa formação. Em 2024, o artista publicou um livro de partituras com seus arranjos para violino solo e em 2025, lança a versão do mesmo trabalho transcrito para viola, além do seu livro de duos. Na área didática, o violinista se dedica há vários anos ao ensino do violino popular, levando seu método para diversas instituições no Brasil e no exterior. Além disso, Guilherme trabalhou recentemente como professor substituto de violino na UFRJ. Atuando também com outros instrumentos, o músico integra atualmente, o quarteto de cordas Baile de Quarteto com a viola e o projeto Forró do Pimenta com a rabeca. Seu projeto Pimenta Jazz Trio, no qual toca violino, foi premiado pelo edital Sesc Pulsar 2025, realizando uma turnê pelo estado do Rio de Janeiro.
Sobre a Kuarup
Especializada em música brasileira de alta qualidade, o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros.
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Série: Discografia da Música Brasileira / Música instrumental / Álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske
