Em que momento a masculinidade passa a ser “tóxica”?

por Gabriel Albuquerque – Jornal da USP

Heloísa Almeida explica que o conceito de masculinidade é algo complexo e diverso e que mudanças sociais não devem ser consideradas ameaças ao gênero masculino

Um estudo divulgado pela revista Nature definiu diversos indicadores da chamada “masculinidade tóxica” em homens heterossexuais, que incluem sexismo, conduta violenta e preconceito contra outras sexualidades. Porém, o estudo descobriu que a masculinidade não é necessariamente um aspecto problemático entre os homens. Heloísa Almeida, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explica que o termo pode ser problemático.

“No campo da antropologia, esse termo ‘masculinidade tóxica’ não é muito utilizado, porque é um termo avaliativo, que pressupõe a existência de uma normatividade e uma masculinidade boa, oposta à ‘masculinidade tóxica’. Na realidade, quando se estuda gênero, é abordado tanto as masculinidades quanto as feminilidades, como o que é ser uma mulher ou o que é ser um homem socialmente. Hoje em dia nós também temos novas questões de gênero, como, por exemplo, as pessoas trans e as pessoas não binárias, que também estão no nosso escopo do campo dos estudos de gênero. Cada época, cada sociedade, cada período histórico tem construções sobre o que é uma masculinidade ideal, uma feminilidade ideal, e o que tem sido observado nos últimos tempos é que não existe uma masculinidade ou um modo de ser homem, porque a gente pensa sempre o gênero atravessado por outros marcadores sociais da diferença.”

Comportamentos violentos

Heloísa ressalta que, apesar da ideia equivocada de “masculinidade tóxica”, alguns comportamentos violentos associados à masculinidade surgem como uma resposta às conquistas do feminismo. “Das pesquisas que nós temos sobre violência, seja violência doméstica ou contra mulheres em geral, a gente percebe que, quando as mulheres começam a ganhar um pouco mais de direitos, essa violência, no início, aumenta. É uma relação que os homens sentem, de algum modo, ameaçados por novas formas de poder e pelos direitos das mulheres. Na violência doméstica, por exemplo, se a esposa começa a ganhar um pouco mais do que o marido, ele começa a ficar violento. É uma masculinidade muito frágil e que se sente ameaçada por qualquer coisa, resultando nessa violência.”

“Se a gente quer melhorar a violência de gênero, a gente tem que falar de gênero na escola, com as crianças mais novas. O modo, por exemplo, que a gente produz a violência é uma masculinidade bastante convencional, que é, por exemplo, o menino chega na escola e chora, e o pai vira para ele e fala: ‘Menino não chora! engole o choro!’ Ou o menino chega em casa, triste, e diz que alguém lhe bateu, e as pessoas em volta falam: ‘Bate de volta!’ Esse comportamento é uma forma de ensinar uma masculinidade que determina que o menino não pode chorar ou ter sentimentos, mas que ele pode bater. Se ele ficar infeliz com alguma coisa ou se ele se sentir ameaçado, a reação dele será violenta. Esses ensinamentos sempre foram muito naturalizados na sociedade brasileira”, explica Heloísa.

Mudanças não devem ser consideradas ameaças

A professora explica que as mudanças da sociedade não devem ser consideradas ameaças à masculinidade, mas atitudes que promovem a igualdade. “Esse tipo de masculinidade que pode ser violenta e agressiva é a responsável por isso que a gente está vendo no Brasil: o aumento de feminicídios, da violência contra as mulheres, crianças, idosos e pessoas LGBT+. Isso vem de uma masculinidade que se sente muito questionada no mundo de hoje, porque a gente tem leis que favorecem os direitos das mulheres, que promovem a igualdade e que criminalizam esse tipo de violência, mas eles, com isso, se sentem atingidos. Quando, na verdade, a gente está só tentando colocar uma situação de maior igualdade na sociedade”, finaliza a professora.


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