sábado, janeiro 24, 2026

Eles vieram para ficar, por Maya Angelou

Eu
sou uma mulher negra
alta como um cipreste
forte
acima de toda e qualquer definição
desafio espaço
e tempo
e circunstâncias
assombrada
impérvia
indestrutível
Contempla-me
e renova-te[4]

Mulheres negras cujos ancestrais foram levados para os Estados Unidos a partir de 1619 vivenciaram situações tão horríveis, tão bizarras de tão cruéis, que precisaram se reinventar. Precisaram encontrar segurança e abrigo dentro de si mesmas sob pena de não serem capazes de tolerar tamanha tortura. Precisaram aprender depressa a se perdoar, pois com frequência suas ações eram incompatíveis com suas crenças. Ainda assim tinham de sobreviver tão inteiras e saudáveis quanto possível num clima infecto e doentio.

As vidas vividas em tais caldeirões ou são obliteradas ou se transformam em metal impenetrável. Por isso, muito cedo e conscientemente, as mulheres negras se tornaram realidades tão somente para si próprias. Para os outros, quase sempre eram expostas e descritas em termos abstratos, concretas em sua labuta, mas surreais em sua natureza humana.

Conheciam o fardo da sensibilidade feminina sufocada pelas responsabilidades masculinas.

Lutavam contra o horror inescapável de gravidezes recorrentes que só iriam contribuir para alimentar a boca ávida da escravidão.

Conheciam a dor de separações forçadas dos companheiros que não lhes pertenciam, já que mesmo os homens não detinham legalmente a propriedade sobre os próprios corpos.

E homens, cujo único crime era o tom da pele,
a marca deixada pela mão do Criador,
e crianças frágeis e franzinas, igualmente,
se juntavam naquele grupo lastimável[5]

A sociedade em geral, observando a revoltante persistência das mulheres em se agarrar à vida, em sobreviver, achou que não tinha escolha senão traduzir a perversidade e as contradições da existência da mulher negra numa fabulosa ficção de múltiplas personalidades. Elas eram vistas como Tias Jemimas aquiescentes, submissas, de rostos sorridentes, regaços fartos, braços roliços prontos para acolher e papadas marrons ressaltadas pelo riso. Eram descritas como prostitutas lascivas e voluptuosas, com calcanhar de frigideira, sem pudor e com insaciáveis apetites sexuais. Eram acusadas de ser matriarcas que subvertiam o comportamento austero, as surras, os olhares impiedosos e as atitudes castradoras.

Quando pensamos nas mulheres habitadas por todas essas assombrações, fica evidente que tais percepções eram alucinações nacionais, raciais e históricas. As contradições espantam até a mais fértil imaginação, pois sua existência não seria possível sem o racismo romântico que as introduziu na psique norte-americana. É surpreendente, acima de tudo, que muitas mulheres tenham de fato sobrevivido sem perder a verdadeira natureza. Nós as encontramos, inegavelmente fortes, indesculpavelmente diretas.

Não se trata aqui de tecer loas à energia da mulher negra. Ao contrário, trata-se de saudá-la como representante de destaque da raça humana. Parabéns aos educadores, aos atletas, dançarinos, juízes, bedéis, políticos, artistas, atores, escritores, cantores, poetas e ativistas sociais, a todos que ousam encarar a vida com humor, determinação e respeito. Eles não toleram hipocrisia, e aqueles que trapaceiam consideram aterradora a honestidade dessas mulheres.

A ternura comovente das mulheres negras e a força majestosa são resquícios da sobrevivência heroica de um povo que foi forçado a se sujeitar, roubado de sua castidade e privado da inocência.

Essas mulheres descenderam de avós e bisavós que conheceram na pele o chicote e para as quais proteção não passava de uma abstração. Seus rostos aqui estão para que gerações os contemplem e se admirem, mas elas são mulheres inteiras. Suas mãos trouxeram novas vidas ao mundo, cuidaram dos doentes e dobraram mortalhas. Seus úteros carregaram a promessa de uma raça que provou a cada século desafiador que veio para ficar, a despeito das ameaças e da violência. Seus pés trilharam o instável terreno pantanoso da insegurança, mas tentaram seguir as pegadas de mães que por ali já haviam passado. Não eram aparições; não eram mulheres-maravilhas; apesar da enormidade de suas lutas, não são descomunais. A humanidade nelas é evidente na própria acessibilidade. Podemos penetrar no espírito dessas mulheres e encontrar júbilo em sua calidez e coragem.

Todas elas são joias preciosas. Graças à sua persistência e à sua arte, ao riso sublime e ao amor, ainda podemos sobreviver à nossa história grotesca.

Notas:
[4] Mari Evans, “I Am a Black Woman” [Eu sou uma mulher negra].
[5] Frances Ellen Watkins Harper, “The Slave Auction” [O leilão de escravizados].


— Maya Angelou, no livro “Até as estrelas parecem solitárias”. tradução Regina Lyra. Nova Fronteira, 2024

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SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - Eles vieram para ficar, por Maya Angelou
Em “Até as estrelas parecem solitárias”, Maya Angelou atua como uma fascinante guia para uma poderosa jornada espiritual. Mesclando coragem, sabedoria e poesia, a autora aborda, nesta potente coletânea de ensaios, temas como amor, solidão, envelhecimento, fama e identidade. A força de seus escritos reside em sua exímia habilidade de conectar experiências pessoais a questões universais, proporcionando uma leitura profundamente reflexiva e envolvente.
Inédito no Brasil, o livro traz um prefácio de Djamila Ribeiro e conta com a tradução de Regina Lyra.
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FICHA TÉCNICA
Título: Até as estrelas parecem solitárias
Páginas: 128
Formato: 13.5 x 0.5 x 20.8 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 08/07/2024 (1ª edição)
ISBN: ‎978-6556407593
Tradução: Regina Lyra
Selo: Nova Fronteira
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SOBRE A AUTORA
MAYA ANGELOU, nascida Marguerite Ann Johnson, em 1928, foi uma das maiores ativistas negras dos Estados Unidos. Ao lado de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, com quem manteve uma amizade próxima, lutou pelo fim da segregação racial em seu país, além de ter trabalhado em missões humanitárias pelo continente africano. Atuou em cinema, teatro e TV, mas foi como poeta e escritora que encontrou mais expressividade. Sua autobiografia “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, um grande best-seller, deu voz a mulheres que sofrem abuso, preconceito e submissão. Entre suas obras, destaca-se também “Carta a minha filha”, o legado de seu trabalho em favor da vida, da igualdade e da liberdade. A escritora faleceu em 2014, aos 86 anos.

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Saiba mais sobre Maya Angelou:
:: Maya Angelou: poemas, crônicas e afins


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