LITERATURA

Elegia de baby, uma crônica instigante de Carlos Drummond de Andrade

Tinha sete anos, e ainda era mais criança do que qualquer menina de sua idade. Pesava mil e quinhentos quilos, e chegaria a pesar quatro mil, se vivesse. Não viveu. Nascida na Índia, veio morrer no Leblon, sob a lona de um circo devastado pelo temporal — e essa madrugada de vento furioso, que ameaçava acabar com o mundo, terá sido um dos “fatos” de sua pequena vida sem acontecimentos.
.
Já se sabe que o necrológio é de Baby, a elefantinha que morreu de infecção na garganta. Esses animais são rústicos e delicados, e se no meio nativo se alimentam de plantas espinhentas, de cujo contato fugimos, padecem entretanto dos mesmos males que padecemos, e têm, quanto a nós, a desvantagem de uma sensibilidade que se ajustaria melhor ao nosso corpo que ao deles, ao passo que a nossa poderia chamar-se mais precisamente elefantina.
.
Vão rareando os elefantes, e com eles a doçura e a paciência na face da terra. Que a espécie caminha para o fim, os zoólogos já o têm prevenido. O lábio superior alongado e endurecido em tromba, e outros pormenores de estrutura — observa o professor Coutière — revelam a tendência primitiva ao gigantismo e à ancilose, que certos animais traziam consigo, e de que essas deformações representam justamente uma correção, grosseira, mas indispensável. Os traços subsistiram, mas a espécie nasceu, por assim dizer, errada, e tende a acabar. Por sua vez, os economistas lhe vaticinam o fim. O mesmo autor sério escreveu que basta olhar o elefante para concluir que ele é um “motor bárbaro” e de mínimo rendimento. Consome por dia uma ração bem mais cara que o óleo ou a eletricidade de um aparelho comum, enquanto este produz trabalho incomparavelmente mais precioso que o seu humilde ofício de transportador. Resta o valor econômico do seu marfim, mas talvez se torne menos dispendioso explorar jazidas fósseis desse material, como as que os mamutes deixaram na Sibéria. Há uma última utilidade do elefante, e essa retarda o seu desaparecimento: divertir meninos no circo. Baby não conheceu outra, pois que viveu realmente, para um elefante, l’espace d’un matin, isto é, o tempo de uma rosa.
.
Reduzido à condição circense, que pode o elefante pretender, como remédio a suas melancolias, agravadas na espessa convivência do homem? Fugir, é claro. Mas a fuga se reduz também a um passeio tonto pela cidade, entre bichos muito mais ferozes, que são os ônibus e os automóveis, num dédalo de ruas que não tem a lei e a simplicidade da floresta. Logo se organizam os homens para prendê-lo e restituí-lo ao seu mesquinho picadeiro. Se se recusa a voltar, os homens, considerando-se ameaçados, dispõem-se a fulminá-lo a tiro. Nunca nenhum escapou.

André Demaison, no Livro dos animais chamados selvagens, conta a história de Pupá, pequeno elefante pego numa colônia alemã da África, ocupada mais tarde pelos franceses. Sua alimentação onerosa, a leite condensado, se fazia à custa do governo; quando os residentes estrangeiros se retiraram, ele quedou abandonado, e andava a esmo pela cidade, mendigando comida, principalmente açúcar. Num Catorze de Julho, aproximou-se do clube francês em plena festa. Os homens, já bêbados, quiseram que ele também comemorasse a Queda da Bastilha, e deram-lhe um balde cheio de champanha, curaçau, anis e outros licores misturados. Pupá esvaziou-o com tamanha beatitude que daí por diante se tornou ébrio contumaz, e não podia compreender por que todos os dias não eram de festa, como aquele. Decadente, e sem comer, porque apenas lhe davam álcool, sentiu a nostalgia da selva, e fugiu para o interior, mas o meio natal o repeliu: estava demasiado marcado pela companhia do homem, para voltar a ser um bicho. Morreu, sobre os trilhos da via férrea, paralisando o tráfego.
.
Baby não viveu tais aventuras, nem teria muito que contar. Trabalhou, ainda criança, para comer, divertiu os outros e morreu sem ter compreendido (embora os elefantes sejam inteligentíssimos) a razão de ser de sua viagem da Índia ao Leblon, encerrada tão cedo, quando a outros de sua estirpe a natureza concede uma permanência de cem a cento e cinquenta anos sobre a terra. Mas imagine-se o que seria uma prisão de século e meio, mesmo no circo, e já não sentiremos tanto a morte de Baby.
.
— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.

SOBRE O LIVRO
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.

FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.

Saiba mais sobre Drummond:
Carlos Drummond de Andrade – antologia poética
Carlos Drummond de Andrade – entrevista inédita: erotismo – poesia e psicanálise
Carlos Drummond de Andrade – fortuna crítica
Carlos Drummond de Andrade – o avesso das coisas (aforismos)
Carlos Drummond de Andrade – poesia erótica
Carlos Drummond de Andrade – um poeta de alma e ofício

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Pare de Esperar: Por que 2026 é o Último “Ano Dourado” para Estes 3 Destinos

Por anos, viajantes têm repetido a mesma frase: no próximo ano. No próximo ano eu…

5 horas ago

‘Uma escuta sensível do tempo: Maristela Rocha sobre Chiquinha Gonzaga’, por Paulo Baía

O artigo “Chiquinha Gonzaga: um legado que atravessa o tempo”, assinado por Maristela Rocha, é…

7 horas ago

Andre Correa lança álbum de estreia ‘Seasons’

'Seasons', álbum de estreia do guitarrista e compositor Andre Correa, traz repertório autoral que une…

3 dias ago

Helder Viana lança single ‘Meu Amor, Minha Flor’, com participação do grupo Boca Livre

Com um time de peso formado por músicos como Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Jamil Joanes,…

3 dias ago

Caetano Veloso e Tom Veloso lançam single ‘Mais Simples’, de José Miguel Wisnik

O cantor e compositor Caetano Veloso gravou com o filho Tom Veloso a canção “Mais…

3 dias ago

Carol Pedroso lança EP ‘Eu Canto Minha Força, Meu Lugar’

EP Eu Canto Minha Força, Meu Lugar é um projeto musical de Carol Pedroso, que…

3 dias ago