La Môme Piaf (A Pequena Pardal)

“Minhas canções são a minha vida.
Eu não quero ser mais do que uma lembrança.”
— Edith Piaf, no livro “Piaf: uma vida”. de Carolyn Burke [tradução Cecília Giannetti]. Editora LeYa, 2011.

Édith Giovanna Gassion, (Paris, 19 de dezembro de 1915 — Plascassier, 11 de outubro de 19632 3 4 ), ou simplesmente, Édith Piaf foi uma cantora francesa de música de salão e variedades, mas foi reconhecida internacionalmente pelo seu talento no estilo francês da chanson.

O seu canto expressava claramente sua trágica história de vida. Entre seus maiores sucessos estão “La vie en rose” (1946), “Hymne à l’amour” (1949), “Milord” (1959), “Non, je ne regrette rien” (1960). Participou de peças teatrais e filmes. Em junho de 2007 foi lançado um filme biográfico sobre ela, chegando ao cinemas brasileiros em agosto do mesmo ano com o título “Piaf – Um Hino Ao Amor” (originalmente “La Môme”, em inglês “La Vie En Rose”), direção de Olivier Dahan.

Édith Piaf está sepultada na mais célebre necrópole parisiense, o cemitério do Père-Lachaise. Seu funeral foi acompanhado por uma multidão poucas vezes vista na capital francesa. Hoje, o seu túmulo é um dos mais visitados por turistas do mundo inteiro. (Fonte: Vide Editorial)

Edith Piaf – A Pequena Pardal

Ouça clássicos – A La Môme Piaf (A Pequena Pardal)

Édith Piaf – La vie en rose (Édith Piaf e Louis Guglielmi {Louiguy})

Édith Piaf – L’hymne a L’amour (Édith Piaf e Marguerite Monnot)    

Édith Piaf – Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michel Vaucaire)

Édith Piaf – Milord (Georges Moustaki e Marguerite Monnot)

Édith Piaf – Padam, padam (Édith Piaf e Norbert Glanzberg/ lyric: Henri Contet)

Edith Piaf – A Pequena Pardal

Interpretes da obra de Piaf

Louis Armstrong – La vie en rose (Édith Piaf e Louis Guiglielmi (Louiguy)/ Versão Mack David)

Maysa – Hino ao Amor/L’hymne à L’amour (Édith Piaf e Marguerite Monnot | Versão Odair Marsano) | 1959

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Edith Piaf – photo: Maurice Seymour (1950)

Livros Sobre Édith Piaf em português

:: Piaf: no baile do acaso. de Édith Piaf [tradução Estela dos Santos Abreu; Marc Robine]. Editora Martins Fontes, 2007.
:: As cartas de amor de Édith Piaf. de Édith Piaf [tradução Anna Maria Capovilla]. Editora Amarilys, 2012.
:: Piaf: uma vida. de Carolyn Burke [tradução Cecília Giannetti]. Editora LeYa, 2011.
:: Piaf: De Môme a Édith: Documentos inéditos. de Jean-Paul Mazillier; Anthony Berrot e Guilles Durieux. [tradução ]. Editora Martins Fontes, 2014.
*Outros livros de Piaf. Aqui!

“Ao mesmo tempo, é verdade que graças a sua voz quase sobrenatural esta menina de Paris, esta flor do asfalto, conquistou o planeta e ainda vibra em nossas memórias”
– Robert Belleret (biógrafo), “Édith Piaf – viver para cantar”.

O Filme

Edith Piaf in New York in 1950 | photo: Agence France-Presse
Piaf – um hino ao amor {La môme / La Vie en Rose}

Sinopse: Baseado na vida e descoberta da carreira da cantora francesa Edith Piaf. Desde a infância à glória, das vitórias às derrotas e aos sofrimentos, de Belleville a Nova Iorque, “La Vie en Rose” é a história do percurso excepcional de Edith Piaf (Marion Cotillard, numa interpretação que lhe valeu um Óscar). Um filme que desvenda a vida e a alma de uma artista e de uma mulher frágil, intensa, indestrutível e com uma voz imortal.
Ficha técnica
Direção: Olivier Dahan
Roteiro: Isabelle Sobelman e Olivier Danham
Trilha sonora: Christopher Gunning
Elenco (principal): Marion Cottilard (Edith Piaf), Jean-Pierre Martins (Marcel Cerdan), Gerárd Depardieu (Louis Leplée)
País: um filme tcheco-britano-francês
Ano: 2007
Duração: 140 min.
Prêmios:
Oscar 2008
Marion Cotillard – Melhor atriz
Marit Allen – Melhor figurino
Loulia Sheppard – Melhor maquiagem
Globo de Ouro 2008
Marion Cotillard – Melhor atriz em comédia ou musical

Cena final do filme “Edith Piaf – um hino de amor” | Direção: Olivier Dahan, 2007 – Música: Non Je Ne Regrette Rien (legendado)

Para o poeta Jean Cocteau, ela era o “rouxinol da França”. “Como um rouxinol invisível em seu galho, ela mesma se torna invisível. Há apenas seu olhar, suas mãos pálidas e a voz que se dilata, cresce e gradualmente a substitui”, disse Cocteau.

Édith Piaf – ‘Minhas canções são a minha vida’

Prelúdio, por Carolyne Burke (biógrafa)

[Abaixo trecho “Prelúdio”, do livro “Piaf: uma vida”. de Carolyn Burke [tradução Cecília Giannetti]. Editora LeYa, 2011]

“Essa menina, Piaf, é de cortar o coração”, comentou Maurice Chevalier depois de assistir à estreia da novata conhecida como La Môme Piaf. Ainda não era óbvio para todos que Edith Gassion (seu nome de batismo), então com 19 anos, se tornaria uma das maiores intérpretes do século XX – o “pequeno pardal”, cujos timbres sofridos seriam o símbolo da França para os franceses e emocionariam ouvintes do mundo inteiro, ainda que não entendessem o idioma.

Piaf costuma ser descrita como uma mistura gaulesa de Billie Holiday e Judy Garland. Mas era mais selvagem do que qualquer uma dessas duas e, assim como seu amigo Chevalier, identificava-se mais fortemente com le petit peuple – “as minorias” às quais deu voz e cuja adoração apoiou sua carreira desde o começo pouco promissor, nas ruas de Paris, até a fama internacional; em sua curta existência, ela chegou a fazer dez turnês pela Europa, Canadá e América do Sul.

“Edith Piaf me nocauteou”(1), declarou Joni Mitchell recentemente, “embora eu não soubesse sobre o que ela estava cantando”. Agora, quase cinco décadas após a morte de Piaf, ela é mundialmente conhecida como o arquétipo da cantora capaz de fazer o público levitar dos assentos. Piaf fascina apaixonados por música por ser um ícone de “completa entrega vocal”(2), como disse Martha Wainwright, cantora e intérprete moderna de Piaf, por sua “emoção crepitante” que inunda as plateias. A julgar pelos comentários de Mitchell e de Wainwright, a importância de Piaf para as cantoras contemporâneas pode ser vista na reação à sua sensibilidade, em como suas canções criam uma espécie de premência que jamais saiu de moda.

Apesar de os contemporâneos de Piaf terem conhecido sua incondicional generosidade e seu poder visceral, eles também a viam como uma figura emblemática, que combinava em sua personalidade aspectos contraditórios de ícones como Joana d’Arc e Teresa de Lisieux, a santa protetora de Piaf, mesmo com a vida curta e desregrada que a celebrizou.

Que aquela estrela miúda se comparasse a Maria Madalena – na esperança de ser perdoada por ter amado tantas vezes, simplesmente porque amava demais – surpreende mais àqueles que não pertencem a países católicos. Tais comparações eram inevitáveis, dados os paradigmas femininos comuns ao período da juventude de Piaf, na década de 1920, a sua subsistência precária nos anos 1930 e a sua ascensão à fama nas seguintes.

No imaginário popular, as mulheres eram prostitutas ou santas. Os muitos casos amorosos de Piaf, aos quais a imprensa deu sensacionalismo, evocavam ambos os arquétipos, o que, em contrapartida, confundia a lenda da cantora de rua que escapou dos cortiços graças à força da sua voz. Mesmo hoje, podem nos levar a menosprezar a inteligência musical com a qual ela transformou sua voz num instrumento meticulosamente afinado, enquanto acalentava o caso de amor mais duradouro que teve: a intimidade com seu público.

Édith Piaf – foto: Irving Penn

Apesar das diferenças culturais, a comparação com Billie Holiday e Judy Garland tem certo valor. A lenda em torno de Piaf parece encaixar-se no modelo de artistas de sucesso que pagam seu preço no sofrido declínio causado por bebida, drogas e, no caso de mulheres, promiscuidade. Além disso, essas três vocalistas, que morreram jovens após carreiras no mínimo extáticas, compartilham uma certa intensidade, apesar de as origens de Piaf nas “classes perigosas” – marginais, entre os quais ela e seu pai, um acrobata, tentavam ganhar a vida – sugerirem que ela tivesse mais em comum com Holiday que com Garland. Tanto a garota francesa maltrapilha como a negra norte-americana transformaram os clichês da linguagem ordinária numa comunhão física; seu arrebatamento produzia nos admiradores reações próximas do êxtase. (Desde o começo, no entanto, Piaf foi aclamada pelas massas em seu país – ao contrário de Holiday, cujo estilo angariou uma maioria de fãs entre amantes brancos de jazz até sua morte, quando o público negro finalmente começou a aceitar a cantora.)

Piaf lançou-se como intérprete da chanson réaliste, a tradição “realista” de letras de músicas sobre parcelas marginalizadas do povo – quase sempre prostitutas ou mulheres mal-amadas, abandonadas por seus homens –, mas logo passou não só a representar a mentalidade francesa como a via, espelhada por seus compatriotas, como também, para o mundo inteiro, o fascínio exercido por essa postura fatalista, porém jovial. Pelos idos de 1930, a ideologia do “pequeno homem” entrou em voga no mundo do entretenimento francês. Chevalier e Mistinguett, sua famosa namorada, eram o casal encantado das casas de espetáculo, como a Folies Bergère, cujos shows de variedade reuniam despreocupados ícones do je-m’en-foutisme – ou “estou pouco me lixando”, sua resposta às adversidades. Bem abaixo dessas casas noturnas, na escala do showbusiness, havia os cabarés de reputação duvidosa e, ainda abaixo desses, espeluncas que representavam uma melhoria para uma cantora, como Piaf, que se apresentava nas ruas. Seu repertório, no começo, oferecia ao público certa visão da sociedade, pela qual la chanson réaliste dizia a verdade sobre a vida da classe trabalhadora e provocava a curiosidade de artistas, como Jean Cocteau, que frequentavam os guetos em busca de inspiração artística.

No entanto, as origens de Piaf não são suficientes para explicar a atração que ela exerceu em todas as camadas da sociedade francesa e, após a Segunda Guerra Mundial, nos amantes da música em todo o mundo. Ela surgiu em cena em 1935 com uma voz que já tinha todas as características de um poderoso instrumento. Nos anos seguintes, quando não precisava mais se lançar em meio a multidões nas ruas, refinou a voz, acrescentando uma sutileza maior às letras e interpretando seu significado também com o uso das mãos, que mergulhavam majestosamente no ar ou flutuavam feito mariposas enquanto cantava.

O vibrato aveludado e os “erres” guturais rapidamente se tornaram marcas do seu estilo, cantasse ela tragédias cotidianas ou interpretasse números cômicos, leves, menos conhecidos fora da França. Ao escolher canções primeiro pelo significado das suas letras, logo passou a cantá-las com o sotaque “francês correto” aprendido com seus mentores Jacques Bourgeat e Raymond Asso, que a ensinaram a aproveitar melhor os intervalos entre cada tom. A partir de então, conforme sua inteligência musical se desenvolvia, não houve mais uma palavra sequer fora do lugar, nunca um gesto em falso, mesmo quando cantava grandes verdades (ou platitudes). Estranhamente, apesar da Piaf irascível do começo, ela aperfeiçoou a arte da sobriedade, ressaltando a crueza de emoções profundas enquanto mantinha um alto nível de pureza vocal.

Nem sempre se destaca o fato de que foi o domínio do seu métier, da arte da performance advinda de uma experiência prolongada, que salientou sua pungente mistura de vulnerabilidade e rebeldia. “Meu canto é minha vida”, ela escreveu quando preencheu uma solicitação a vaga na associação de compositores franceses. No entanto, as versões musicais da sua vida, tão comumente identificadas com ela mesmo, foram cuidadosamente selecionadas, ensaiadas e polidas para performance.

Piaf cumpriu papel ativo cuidando de todos os aspectos das suas apresentações, desde a iluminação até a ordem das músicas. Da mesma maneira, coreografava a publicidade em torno das suas aparições para cultivar a ligação com o público que a adorava, e, por adorá-la, ela acreditava, deveria ter permissão para conhecer sua própria versão de vida pouco convencional.

Desde sua morte, em 1963, Piaf jamais abandonou a cena a que se dedicara. Há mais gravações, filmes, espetáculos teatrais, biografias e versões de suas músicas por outros artistas do que é possível levar em conta, exceto, por exemplo, pela recente cinebiografia La Môme (La vie en rose, fora da França), de Olivier Dahan, que oferece uma visão da pitoresca infância da cantora. Bastante elogiado, o filme também lança mão do padrão familiar de uma vida de artista – a trajetória de esfarrapados a endinheirados, com ênfase nos sofrimentos (especialmente naqueles relacionados a vícios) que levaram à decadência de Piaf.

Esse tipo de mito presta um desserviço, diluindo a textura de uma vida inteira. E, o que é pior, perpetua-se no ideário do público, fazendo que distorçamos a lenda de uma artista ao custo de sua arte.

O clichê que reduz Piaf a uma transviada autodestrutiva é muito restritivo para dar conta da sua complexidade humana. A versão moralista da vida de Piaf negligencia, senão ignora completamente, sua coragem na Segunda Guerra Mundial, quando desafiou os nazistas abrigando amigos judeus e ajudando a Resistência. Da mesma forma, muitos relatos da sua vida pouco dizem a respeito do papel que teve como mentora dos jovens cantores Yves Montand e Charles Aznavour, optando por moldar sua história chamando-os “os homens da sua vida” – cada um ganha um capítulo, como se a existência de Piaf tivesse orbitado em torno deles.

Esse modelo tampouco esclarece seu papel de letrista. Ela escreveu quase uma centena de canções, que receberam arranjos de colaboradores de confiança, como Marguerite Monnot, com quem formou uma dupla pioneira de mulheres compositoras. (De acordo com os boatos que circulavam, Piaf era pouco afeita a mulheres, uma interpretação da sua vida que ignora amizades próximas com protegidos, membros de sua comitiva e amigas, como Monnot e as atrizes Micheline Dax e Marlene Dietrich.)

Édith Piaf – ‘Minhas canções são a minha vida’

No final das contas, mitos sobre sua vida colocaram em segundo plano o papel permanente de Piaf como uma espécie de musa constante que trabalhou incansavelmente com seus colaboradores. Sua família artística incluía tanto músicos quanto compositores com quem ela criava melodias para representar sua persona, e figuras da vida cultural como Jean Cocteau, que escreveu peças para ela, além do coreógrafo Pierre Lacotte, que criou um balé em homenagem à estrela e à cidade com a qual ela tanto se identificava. Pois foi em Paris que o “pequeno pardal” tornou-se o rouxinol da França (na expressão de Cocteau), e depois – após uma doença quase fatal em 1959 – a fênix e o símbolo de ressurreição do país.”
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(1) Joni Mitchell, citada em “Joni Mitchell Gets Angry, Hugs It Out”, Nova York, 26 set. 2007. Piaf e Billie Holiday foram uma grande influência na carreira de Mitchell como cantora e compositora.

(2) Martha Wainwright, citada em Louise Cohen, “Martha Wainwright: ‘Edith Piaf became the ghost behind all that I sang’”, Times Online, 30 out. 2009.

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Édith Piaf – Jean Cocteau – Marlene Dietrich – Charles Aznavour

Jean Cocteau et Edith Piaf. le Bel indifférent en 1940
Marlene Dietrich beija a cantora francesa Edith Piaf. Nova York, 1947 – ©foto: Matty Zimmerman/AP
Edith Piaf é parabenizada por Faye Emerson, Sonja Henie, Judy Garland e Ginger Rogers após sua estreia no Versailles Night Club, em Nova York, 14/09/1950.
Édith Piaf, Eddie Constantine e Charles Aznavour – foto: Europress

Canais oficiais:

:: Canal youtube – Edith Piaf Officiel

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