É a primeira vez que Verissimo nos fez chorar, por Fabrício Carpinejar

Antes de Luis Fernando Verissimo, a crônica se centrava na primeira pessoa, no tom confessional, nas nuances biográficas, no plano interior. Depois dele, nada mais foi igual. Surgiram os tipos universais: o amigo, a vizinha, o professor, o policial, o viajante.
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Ao não falar de si, um tímido nos revelou por completo. Colocou o mundo no papel. Subverteu o modelo intimista pela narração, pelos diálogos, a partir da criação de personagens.
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A crônica casou com o conto — e viveram em litígio para sempre.
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Virou o território ficcional da terceira pessoa, capaz de retratar qualquer um, inclusive secretamente o próprio Verissimo.

Gigolô das palavras, como jocosamente se caracterizava, ou saxofonista dos pensamentos, o escritor favoreceu a plasticidade das ações, não mais se limitando à norma culta, capturando o coloquial das ruas.
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Ele pregava: “A gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”.
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Verissimo é inimitável, o mais cinematográfico de nossos tradutores, o mais teatral de nossos bardos, o maior cronista brasileiro pós-Rubem Braga, com cerca de cerca de 80 obras e mais de 5 milhões de exemplares vendidos.
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Começou com o horóscopo e o copidesque no jornal Zero Hora, em 1966, e arrebatou colunas nas principais publicações do país, como Veja, O Estado de S.Paulo e O Globo. Manteve a sua atividade literária até janeiro de 2021, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC).

Com sua fama estrondosa, o mítico Erico Verissimo, do monumento O Tempo e o Vento, passou a ser lembrado por ter sido o pai de Luis Fernando.
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Em poucas linhas, ele desvendava dilemas comportamentais. Escrevia como quem desenhava: rápido, certeiro, irônico. O poder de síntese se aproximava de uma epifania.
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Quem nunca se sentiu parte da Família Brasil, seus esquetes humorísticos satirizando a classe média nos anos 70 e 80? O lar se abastecia de conflitos geracionais entre a figura paterna conservadora e machista, a dona de casa lúcida e de paciência esgotada, e os filhos adolescentes, desafiando valores antiquados.
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Quem não se politizou com as tirinhas das Cobras, protagonizadas por animais rastejantes antropomorfizados que conversavam entre si sobre os destinos do país?
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Quem não se compadeceu da Velhinha de Taubaté, que foi concebida durante a ditadura militar e ficou famosa por ser “a última no Brasil que ainda acreditava no governo”?
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Quem não riu com o Analista de Bagé, mais ortodoxo do que pomada Minancora, um psicanalista freudiano que resolvia mimimi com o joelhaço? Submetia o paciente a um golpe amnésico, provocando uma dor tão intensa que ele logo se abstraía dos aborrecimentos.

Quem não viu alguma tia representada na Dorinha e seu cortejo de socialites, buscando a eterna juventude por sucessivas e incansáveis intervenções estéticas?
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Quem não desistiu de recorrer à espionagem acompanhando as peripécias de Ed Mort, um detetive particular pobre e trapalhão, um ímã de encrencas e de causas perdidas?
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Quem não se valeu dos exemplos das Comédias da Vida Privada para não levar a sério os desentendimentos de casal? Era um jantar que dava errado, uma visita inesperada, um segredo mal guardado, um flerte perigoso.
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O mestre gaúcho elaborou uma vivissecção do amor com seus blefes e chantagens, mostrando o drama do quase divórcio, da quase infidelidade.
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Ele exorcizava o nosso desencanto com a evolução dos costumes, a recessão e a violência: “Não sei para onde caminha a Humanidade, mas, quando souber, vou para o outro lado”.
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Mudava os estereótipos de lugar, produzindo reflexivo estranhamento. Assim como o divã do Analista de Bagé fora desconstruído para o atendimento num pelego, com tapete de pele de carneiro, o charme dos romances policiais se converteu no escritório de pulgas e traças de Ed Mort em Copacabana, com 117 baratas e um rato albino chamado Voltaire.

Os dados oficiais professam que Verissimo faleceu aos 88 anos, neste sábado (30), no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Mas ele não morreu. É impossível que morra.
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Ele sempre nos fez rir, é a primeira vez que nos faz chorar.
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* Publicado originalmente na Coluna de Carpinejar, no jornal Zero Hora, GZH, última página, Porto Alegre (RS), 30/8/2025
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