sábado, janeiro 24, 2026

Cosme e Damião em voz alta, por Paulo Baía

Eu aprendi a medir o tempo com o calendário de setembro. Nele mora um dia que não é apenas data, é clareira. Vinte e sete. Cosme e Damião. A alegria que atravessa a cidade como um rio teimoso e silencioso, que nasce nos subúrbios e desemboca no coração de quem acredita na partilha como fundamento da vida. Em Marechal Hermes, em Sulacap, em Valqueire, em Bento Ribeiro, bairros que são quintais da infância e geografia das nossas raízes, a festa sempre soube desenhar seus próprios caminhos. Ali a rua tem cheiro de pão quente e jasmim, o trem risca a paisagem com a promessa de encontro, as casas falam pelos azulejos e pelos portões, as calçadas guardam histórias de vizinhos que se cumprimentam pelo nome. Não há fronteiras quando a lembrança pede passagem, há apenas um mapa de afetos que insiste em permanecer.
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Eu e meu irmão César Baía aprendemos cedo que a alegria pede mesa. No dia de Cosme e Damião a cidade nos ensinava a sintaxe da partilha. Foi assim que descobrimos que um pacote de doce pode ser também um bilhete de esperança. Eram saquinhos coloridos, fitas, balas que estalavam na boca, o rumor das panelas, a ronda dos meninos e meninas que chegavam em bandos, olhos acesos, mãos ligeiras, gargalhadas ao vento. Nada de nostalgia que empalidece o agora. O que ficou não é peso, é música. Saudade feliz, festa que volta porque nunca partiu. Ao recordar, não retiro os pés do chão do presente. Piso firme no que é, para honrar o que foi, para chamar o que pode vir a ser.

Os anos passaram e César Baía tornou-se museólogo, um especialista em artes e cultura popular que carregava nos ombros essa obstinação luminosa de transformar lembranças em plataformas de encontro. Ele levou o dia de Cosme e Damião para dentro do Museu do Folclore Edison Carneiro, no Catete, como quem devolve um pássaro ao céu. O Caruru, que já era rito de generosidade, ganhou corpo de romaria laica e sagrada ao mesmo tempo. Portas abertas, panelas fartas, mesa posta para quem chegasse. Era comida que tinha o gosto antigo da casa de vó e o vocabulário amplo do Brasil: quiabo que conversa com o dendê, camarão que canta com o amendoim, banana que ri com o cheiro verde. Cada prato parecia uma pequena aula de país. Não havia senha. Havia convite permanente. Não havia barreira. Havia sala ampla, corredores que respiravam, pátio que acolhia, crianças correndo, rezas que não excluíam, cânticos que não competiam, olhos que se entendiam sem intérprete. O Caruru de César Baía tornou-se uma linguagem completa, escrita com temperos, falada em risos, lida em abraços.
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Até 27 de setembro de 2024, esse rito foi a sua maneira de dizer que a cultura é uma casa com muitas janelas. Em 2025 a vida impôs a pausa que não pedimos. Em julho deste ano César Baía partiu. A notícia espalhou silêncio por dentro, como chuva que chega sem alarde e fica dentro da gente. Mas esse silêncio não apagou a canção. Há saudades que não se curvam ao pranto. Há saudades que se vestem de cores vivas e pedem que a festa continue porque é assim que a memória aprende a respirar. Neste 27 de setembro de 2025, amigos e amigas se reuniram para erguer novamente a mesa, reacender o fogo, mexer a panela, temperar o riso, abrir as portas do Museu do Folclore Edison Carneiro e manter a tradição. Não como reprodução, mas como criação contínua. Não como um passado empalhado, mas como futuro em exercício. É um Caruru em homenagem a César Baía, e é também o Caruru de todos os que acreditam que partilhar é um verbo que salva.

A cidade mudou; nós mudamos. A festa também aprendeu outra cadência. Nas nossas casas, nas casas de tantos, os saquinhos com doces continuam a ser preparados. Agora os distribuímos de modo quase íntimo, quase secreto, num gesto discreto que preserva o brilho sem entregar o ouro à algazarra das ruas. Não por medo da alegria, mas pelo cuidado que os novos tempos exigem. Vivemos uma época em que a intolerância religiosa se organiza, cresce, se arma de palavras duras e mãos ásperas. Ela tenta sequestrar símbolos, desautorizar gestos, emparedar rezas, interditar caminhos. Vem em ondas, às vezes com a face escancarada da violência, às vezes com o verniz polido da ignorância segura de si. Por isso a delicadeza virou estratégia. A festa continua, mas aprende a dançar por dentro. O sigilo parcial não é silêncio cúmplice, é sabedoria de quem sabe que a chama precisa de abrigo para não se apagar.
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Ainda assim, não recuamos um milímetro do princípio. O princípio é simples e vasto: celebrar é afirmar a vida e afirmar a vida é afirmar a liberdade. Cosme e Damião, nesse itinerário que nos liga aos subúrbios do Rio, nos lembram que nenhuma fé se alimenta da destruição da fé do outro. E que nenhuma crença que precise humilhar outra crença é digna do nome. Ao lado da mesa do Caruru sempre couberam muitas mesas. Ao lado da reza do candomblé couberam orações cristãs, cânticos evangélicos em suas múltiplas denominações, as muitas formas do catolicismo além do Romano, rezas da umbanda, silêncios do espiritismo kardecista, meditações budistas, vozes muçulmanas e judaicas, filosofias sem deuses, espantos ateus, agradecimentos que não dependem de altar. A beleza do convívio inter religioso não é teoria. É prática de convivência, gesto cotidiano, aprendizado teimoso. É observar as crianças com seus pacotinhos de doce e entender que nenhuma delas quer ser interrogada sobre a doutrina de seus pais. Querem o doce e o abraço e o nome dito com carinho. Querem o riso que se oferece sem catecismo.
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César Baía sabia disso com a sabedoria fervente de quem cozinha. Não há prato bom com panela vazia. Não há país bom com memória minguada. Por isso ele iluminava o Museu com a paciência daqueles que conhecem o tempo do fogo. Primeiro a água conversa com o sal. Depois o caldo aprende a falar com o quiabo. Em seguida a farofa pede sua hora. A colher de pau é o cetro de um reino em que ninguém se curva para pedir licença para existir. À mesa não se pergunta a quem você reza. À mesa pergunta-se apenas se você quer mais. À mesa se aprende a diferença entre saciedade e excesso. À mesa se pratica o idioma do comum. O Caruru, assim, virava parlamento e terreiro, ágora e quintal, sala de aula e pátio de recreio.

Hoje, 27 de setembro de 2025, o Caruru acontece outra vez. Amigos e amigas de César Baía se espalham pelo Catete com o mesmo brilho no olhar de quem sabe que tradição é ponte, não prisão. Ele partiu em julho, e a partida tem esse rigor de pedra que não aceita argumento. Mas a mesa que se abre tem a leveza da água que encontra outro leito sem perder o nome de rio. Cada colherada é uma forma de dizer presença. Cada saquinho de doce entregue é uma forma de dizer que ninguém ficará de fora. E cada gesto de cuidado é uma forma de dizer que não cederemos à sombra, que não seremos educados pela violência, que não nos acostumaremos com o cinza, que não interromperemos a canção.
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Os subúrbios do Rio, que guardam nossos passos de criança, seguem como bússola. Marechal Hermes com seus corredores de vento e suas árvores que sabem a língua dos pombos. Sulacap com o entardecer que desce como um lençol e sossega as ruas. Valqueire com a insistência do comércio que fecha tarde e do bar onde a conversa dura mais do que o copo. Bento Ribeiro com sua vocação de encruzilhada e seu rumor de gare. São bairros que nos lembram que a cidade é maior do que os cartões postais e que a beleza não mora nos holofotes, mas na fidelidade dos gestos repetidos. A festa nasceu ali e dali se espalhou como reza que atravessa cercas sem pedir permissão. Quando hoje entregamos discretamente os saquinhos de doces, há sempre um eco desses lugares. Eles nos ensinam o decoro do afeto, o cuidado com o que é de todos, a modéstia que protege do exibicionismo, a coragem que não precisa gritar para ser firme.
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No entanto, há horas de gritar. E aqui o grito é necessário. Precisamos declarar, à luz do dia, que nenhuma forma de intolerância religiosa nos serve. Não servem os insultos que mascaram medo. Não servem as fake news que inflamam ódios. Não servem os ataques às casas de culto. Não servem as caricaturas que desumanizam pessoas de fé diferente. Não servem as perseguições burocráticas que pretendem interditar festas e ritos sob pretextos quaisquer. Não servem os linchamentos morais que tentam empurrar para a sombra quem decide viver sua espiritualidade em paz. Contra tudo isso, erguemos uma ética de convivência, uma prática de hospitalidade, uma política do encontro. Saudamos as relações inter religiosas que são amplas e efetivamente plurais. Chamamos à mesa as diferenças sem reduzir ninguém a rótulo. Fazemos da festa um manifesto, do prato um tratado, do doce um compromisso.
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Há quem pense que a fé é um castelo. Preferimos imaginá-la como ponte. Castelos são frios e se defendem das visitas. Pontes aquecem as margens e convidam para a travessia. O Caruru de César Baía foi uma ponte. O Caruru de hoje permanece ponte. E nossos saquinhos de doces são pequenos tabuleiros que atravessam abismos com a leveza dos papéis coloridos. Na ponte cabe todo mundo que venha com respeito. Na ponte aprendemos que o outro é possibilidade, não ameaça. Na ponte enxergamos que a cidade pode ser um coro e não uma guerra de solos. Na ponte nos comprometemos com o futuro. E o futuro pede exatamente isso: menos medo, mais encontro; menos proselitismo, mais escuta; menos hostilidade, mais cuidado.

Sei que a eternidade não é assunto de relógio. A eternidade é uma experiência de intensidade. Quando a lembrança devolve ao presente a força do que merece continuar, o tempo se abre como janela. É isso que chamamos de saudade feliz. Ela não é um museu de vitrines imóveis, ela é jardim. Cresce, se derrama, pede poda, pede água, ganha novas flores que não estavam no projeto inicial. A saudade feliz é a política mais delicada da memória. Com ela, o passado não manda, mas inspira. Com ela, o presente não se dobra, mas se alimenta. Com ela, o futuro não é fantasia oca, mas promessa trabalhada a muitas mãos.
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Promessa. Que palavra boa para encerrar e recomeçar. Promessa de continuidade. Promessa de mesa posta. Promessa de portas abertas. Promessa de aprender sempre de novo a língua do outro. Promessa de defender a liberdade religiosa como se defende a própria casa. Promessa de não aceitar qualquer forma de discriminação. Promessa de transformar cada 27 de setembro em laboratório do país que queremos. Promessa de que a partida de César Baía não é um fim, mas um chamado a multiplicar o que ele acendeu. Promessa de evangelho da generosidade, de obra aberta, de amizade que não prescreve. Promessa de um Brasil que abrace seu próprio coração, que diga em muitas línguas a mesma frase simples: venha, há lugar para você à mesa.
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Assim seguimos. Com as mãos temperadas de dendê e com o olhar firme. Com a delicadeza que protege a chama e com a coragem que não foge da praça. Com a discrição que sabe recolher a festa no momento certo e com a voz que sabe se levantar quando a injustiça tenta tomar o palco. Neste 27 de setembro, no Catete, no Museu do Folclore Edison Carneiro, na cidade inteira que estende seus braços de trem e se reconhece pelos nomes das estações, nós dizemos presente. Saudamos as relações inter religiosas que nos tornam maiores do que nossas cercas. Bradamos aos sete ventos nosso apoio a todas as ações que combatem a intolerância religiosa hoje tão ativa, tão ruidosa, tão discriminatória. E reafirmamos, com a serenidade de quem serve o prato e com a alegria de quem reparte o doce: a festa continua, a mesa está posta, o futuro nos chama.
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Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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** Leia outros artigos e crônicas do autor publicados na revista. clique aqui
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