©Brian Fitzgerald
— Com licença. Posso me sentar aqui, com você, para acabarmos essa cerveja?
— Pode, claro.
— Meu nome é Alejandro.
— Ah.
— Alejandro Barquero.
— Certo. O meu é Estela.
— Estava lá do outro lado do café. Sei lá. Vi você tão sozinha.
— Gosto de ficar sozinha.
— Sempre?
— Não, nem sempre. Depende do dia. Às vezes não te dá vontade de fazer um balanço interior?
— Às vezes. Mas em geral é de noite. Meu problema é que sofro de insônia.
— De noite prefiro dormir.
— Eu também. Mas nem sempre consigo.
— Consciência pesada?
— Não. Por acaso tenho cara de bandido ou de estuprador?
— De estuprador, não.
— De bandido, então?
— Vai saber. Não faz dez anos que nos conhecemos, mas cinco minutos.
— Você sempre fica assim, na defensiva?
— A gente tem que se cuidar.
— Você vem sempre aqui?
— Duas ou três vezes por semana.
— Trabalha aqui perto?
— Se o interrogatório continuar desta guisa, vou exigir a presença do meu advogado.
— Desta guisa? Que vocabulário! Ainda bem que você tem senso de humor.
— E você, faz o quê?
— Sou tradutor.
— Do inglês?
— Do inglês também. Mas principalmente do francês e do italiano. E, além disso, sou solteiro em espanhol.
— Você faz essas confidências para que eu também faça as minhas?
— Não sabia que o solteirismo era uma confidência. Pensei que fosse um estado civil.
— Eu não sou solteira. Sou separada.
— E que tal?
— Que tal o quê?
— Como se sente no novo estado?
— Não é tão novo assim. Faz um ano que me separei. Agora já me acostumei, mas no começo foi difícil.
— Nem vou perguntar se mora sozinha, para você não sair correndo.
— Por quê? Moro sozinha, claro.
— E a tua família?
— É pequena. Minha mãe mora no Brasil, com meu irmão. Meu pai se foi num enfarte. Tenho uma irmã, casada com um gringo, que está em Los Angeles. E é só.
— Que horas são?
— Seis e vinte.
— Caramba! Precisava estar no centro às seis. Mas não faz mal. Agora não vou chegar mesmo. Nem de táxi. Acontece que o meu relógio é preguiçoso. Está vendo como marca cinco e dez? Além disso, não perdi meu tempo. Gostei de conhecer você.
— Me conhecer? Quase nem falamos.
— O bastante. E uma relação não se constrói só com palavras. Os olhos também falam, não acha?
— Hum. E pode-se saber o que meus olhos disseram?
— Segredo.
— Você gosta de uma gozação, não é?
— Eu gosto de me divertir.
— À custa da mamãe aqui.
— Pode-se saber quantos anos você tem?
— Não, não se pode.
— Aparenta vinte e três.
— Ih! Errou longe!
— Eu tenho vinte e cinco.
— Pois aparenta ter vinte e quatro e meio.
— Agora vou te fazer uma pergunta que pede uma resposta sincera.
— Fala.
— Eu caí nas suas graças?
— Em que sentido?
— Vertical. Horizontal. Como você preferir.
— Digamos que sim. Embora eu não saiba por quê.
— Quer que eu explique?
— Não, por favor. Não suporto a vaidade masculina quando aflora espontaneamente.
— Você não tem a impressão de que a gente se conhece há anos?
— Essa pergunta parece coisa de novela mexicana.
— Responda. Tem ou não tem?
— Há anos? Não. Tenho a impressão de que nos conhecemos há vinte e oito minutos.
— Alguém já disse que você irradia uma simpatia tão grande que chega a dar tontura?
— Bom, uma vez um rapaz me disse que minha simpatia o embriagava.
— Viu? É isso mesmo. E olha que nem peguei na tua mão.
— Você que ouse.
— Não deixa?
— Claro que não. O que posso deixar é minha mão pegar na tua.
— Maravilha.
— Você têm a pele suave. Interessante. Logo se vê que nunca foi operário.
— E essa cicatriz no pulso?
— Ah, sim. Com esse detalhe você já sabe tudo sobre esta jovem marquesa. Há dois anos tentei me matar.
— E o que aconteceu?
— Fui salva por umas vizinhas. Fizeram muito bem. Estou feliz de continuar vivinha.
— Mal de amor?
— Não. Falta de amor. Vazio de amor.
— Drogas, quem sabe?
— Nada disso. Nem fumar eu fumo. Quase não bebo. Você nunca pensou em se matar?
— Sou babaca demais para tomar uma decisão tão difícil.
— Você disse que é solteiro em espanhol. Mas tem mulher, companheira, amante ou namoradinha?
— Nada, menina. Conto três meses e meio de virgindade sabática.
— Então vou confessar uma coisa que espero que você aprecie em toda sua ingenuidade.
— Assim será.
— E em toda sua inocência.
— Sou todo ouvidos.
— Pode parecer estranho, mas queria te ver nu.
— Mario Benedetti, no livro “Correio do tempo“. tradução Rubia Prates Goldoni. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
***
SOBRE O LIVRO
Publicado em 1999 e até agora inédito no Brasil, Correio do tempo reúne relatos breves que mesclam ironia, delicadeza e profundidade, num estilo que consagrou Mario Benedetti em romances como A trégua, clássico contemporâneo da literatura latino-americana. Os contos neste livro tratam dos mais diversos tipos de encontros e despedidas, do distanciamento e da passagem do tempo: uma criança passa um fim de semana na casa do pai separado; um homem doente escreve ao amigo pela última vez; sobreviventes de dois naufrágios diferentes se encontram acidentalmente numa ilha deserta; uma visita inesperada de um preso político ao seu algoz; e um relato, cheio de compaixão, de um homem preso por matar quem amava. A maestria de Benedetti é evidente nos mínimos detalhes. Em recortes precisos, o escritor uruguaio é capaz de imprimir um humor sutil a suas histórias mesmo nos momentos mais improváveis, talento que se tornou uma de suas marcas registradas: “Houve um tempo em que eu sonhava com enchentes. De repente, os rios transbordavam e inundavam os campos, as ruas, as casas e até minha própria cama. Aliás, foi em sonhos que aprendi a nadar, e graças a isso consegui sobreviver às catástrofes naturais”, diz o personagem de um conto, para depois reclamar que sua nova habilidade funcionava apenas em sonho, “pois mais tarde tentei exercê-la, completamente acordado, na piscina de um hotel e quase morri afogado”.
FICHA TÉCNICA
Título: Correio do tempo
Páginas: 168
Formato: 23.2 x 14.4 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 15/01/2008 (1ª edição)
ISBN: 978-8560281367
Tradução: Rubia Prates Goldoni
Selo: Alfaguara
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