IA na Educação: Como os Estudantes Podem Melhorar a Escrita Sem Perder o Pensamento Crítico

A utilização da IA na educação tem sido um assunto acaloradamente debatido na comunidade acadêmica. De fato, há motivos para preocupação. Se por um lado, não faltam exemplos de mau uso da ferramenta, também é inegável que os chatbots de IA generativa podem contribuir enormemente para a educação, quando bem utilizados. O problema está em seu uso indiscriminado e, frequentemente, antiético. 

Estudos acadêmicos recentes, como o publicado pelo MIT Media Lab, apontam para o que chamam de “dívida cognitiva”. A dívida cognitiva é definida por uma queda da atividade cerebral resultante do uso passivo das IAs generativas. Ou seja, quando o usuário a utiliza para criar textos para si, deixa de exercitar o próprio intelecto. 

Pior ainda, se o estudante não tiver ferramentas cognitivas e conhecimento para avaliar a produção de uma IA, corre o risco de entregar trabalhos francamente péssimos. Como nenhuma ferramenta de IA foi programada para responder “não sei”, os chatbots inventam citações (os chamados “delírios de IA), utilizam fontes de forma incorreta e ignoram completamente os formalismos acadêmicos. 

Passado, Presente e Futuro

Quando as primeiras máquinas à vapor foram inventadas, dando origem a Revolução Industrial inglesa, no século XIX, houve um grupo de trabalhadores que se voltou contra as máquinas. Liderados por Ned Ludd, os trabalhadores “luditas” destruíam todo o maquinário industrial que pudessem encontrar, responsabilizando as máquinas pelo desemprego e miséria crescentes. A revolta partia, principalmente, de tecelões qualificados, que de fato, foram substituídos em grande medida, por máquinas de tear. 

As máquinas seguiram e nos dias atuais, o termo “ludita” foi ressignificado para descrever pessoas avessas à novas tecnologias, como a inteligência artificial. Os impactos negativos da IA no mercado de trabalho ainda são amplamente debatidos (sendo mais uma questão de classe e poder econômico do que de tecnologia, propriamente), mas os benefícios para a educação são inegáveis, observadas suas estratégicas específicas de utilização. 

Confira abaixo como usar ferramentas de IA na educação de forma ética, segura e eficiente.

Revisão Gramatical e Ortográfica

Uma das formas mais seguras e eficientes para se usar uma IA é pedi-la para realizar uma revisão ortográfica e gramatical no texto. Mesmo os agentes de IA mais simples são capazes de analisar um texto e encontrar incorreções com altíssima precisão. É uma boa estratégia para textos longos, onde o próprio autor já não enxerga mais pequenos erros de digitação, acentuação, pontuação, ou mesmo de concordância. As melhores ferramentas do gênero também ajudam a remover redundâncias da argumentação, tornando o texto mais fluido e agradável. 

Explicação de Conceitos

Pedir para um chatbot pesquisar um conceito por conta própria pode ser perigoso, devido aos frequentes delírios. No entanto, a precisão da ferramenta aumenta consideravelmente se o usuário oferecer um corpus definido para pesquisa. É possível utilizar essas ferramentas para explicar conceitos complexos, fazendo uploads de artigos selecionados sobre o tema. 

Aqui, o usuário pode fazer inúmeras perguntas e pedir para a ferramenta explicar e organizar a informação de diferentes formas. Ao solicitar as respostas, é aconselhável incluir no prompt que todas as informações devem vir com referência de página da obra utilizada, para facilitar a conferência do conteúdo. 

Brainstorming Reverso

Em vez de pedir para a inteligência artificial sugerir ideias, o usuário pode submeter as próprias ideias à ferramenta, pedindo para avaliá-las e dar feedbacks sobre seus pontos fortes e fracos, além de sugerir contra-argumentos. É o chamado “brainstorming reverso“. Dessa forma, o estudante não estará terceirizando seu pensamento crítico, mas sim afiando-o. Através deste diálogo, o estudante pode testar os próprios argumentos em um ambiente seguro e obter insights importantes sobre o tema estudado.  

Organização

O agentes de IA também podem ser extremamente úteis na organização dos argumentos de um texto produzido pelo usuário. Eles ajudam a estruturar eixos-chave como introdução, desenvolvimento e conclusão de forma clara e coesa. Ao submeter um texto à ferramenta, o estudante pode encontrar descontinuidades e pontos cegos na própria argumentação, remover contradições e tornar o texto mais claro.

Prompting Crítico

Para um usuário mais afoito, a interação com um chatbot na hora de fazer um trabalho pode, simplesmente, terminar na primeira resposta. No entanto, é na continuação da conversa que mora o segredo. Quando o usuário pede para a ferramenta justificar sua resposta, explica-la mais detalhadamente e exige que a fonte da informação seja fornecida, o usuário pode tanto se aprofundar sobre o tema, quanto verificar a veracidade da informação prestada. Quanto mais inteligentes forem as perguntas, melhores serão as respostas. 

Principais Agentes de IA na Educação

Quando se fala de agentes de IA, nomes como ChatGPT, Claude, Gemini e DeepSeek, rapidamente vêm à mente. No entanto, para estudantes e pesquisadores, há ferramentas mais especializadas. Confira abaixo algumas das principais ferramentas utilizadas no meio acadêmico.

  • NotebookLM: Este chatbot do Google é especialista em abserver conteúdos de arquivos PDF, sendo capaz de criar resumos, fichamentos, glossários, linhas temporais e até guias estudos, baseando apenas no conteúdo fornecido pelo usuário.
  • Elicit: A ferramenta preferida de quem precisa fazer revisão de literatura em pouco tempo. O Elicit faz buscas por pergunta de pesquisa (em vez de usar palavras-chave) em um banco de dados com milhões de arquivos. 
  • ChatPDF: O nome já diz tudo. Esta ferramenta absorve o conteúdo de arquivos PDF e cria um chat para que o usuário possa “conversar” com o arquivo e fazer perguntas sobre pontos específicos. 
  • Research Rabbit: Utilizado para mapear conexões entre diferentes artigos científicos, criando gráficos interativos para demonstrar a correlação entre os trabalhos.
  • Quillbot: Agente multifuncional voltado para a escrita. Tendo entre seus pontos fortes, o  parafraseador e o corretor ortográfico, além de ajudar a prevenir repetições desnecessárias.
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Brian Penny / Pixabay

Considerações Finais

Já está claro que nenhuma ferramenta de IA é capaz de gerar um texto acadêmico sólido e relevante por si só. Nem mesmo aqueles agentes criados especificamente para a pesquisa acadêmica (como os listados acima) podem trabalhar sem supervisão. Afinal, a responsabilidade do texto final é inteiramente do autor. Acima de tudo, a inteligência artificial generativa não deve ser utilizada para “fazer trabalhos pelo aluno”, uso este que além de ineficaz, é antiético. 

Ainda assim, tomadas as devidas precauções, o potencial de contribuição desta tecnologia para a educação e pesquisa é inegável. Com ela, os estudantes podem extrair muito mais informações de suas fontes, compreender um assunto de modo mais abrangente e principalmente, exercitar o próprio raciocínio e pensamento crítico.

Ironicamente, a inteligência artificial parece ter pouca serventia para quem é incapaz de pensar sem ela.


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