Cantora Claudya apresenta no Theatro Municipal o repertório de “Deixa Eu Dizer” (1973), álbum resgatado por Marcelo D2 e hoje reconhecido como um dos marcos políticos e musicais da MPB durante a ditadura.
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A força histórica de um disco que atravessou gerações volta ao centro da cena paulistana na Virada Cultural 2026. A cantora Claudya apresenta, à meia-noite do dia 23 para 24 de maio, no Theatro Municipal de São Paulo, um espetáculo dedicado ao repertório do emblemático álbum “Deixa Eu Dizer”, produzido por Renato Correa (Golden Boys), lançado pela Odeon em 1973 e hoje reconhecido como uma das obras mais contundentes da música brasileira produzida durante os anos de ditadura militar.
Redescoberto por novas gerações após o rapper Marcelo D2 samplear a faixa-título em “Desabafo”, de 2008, o disco ganhou status cult e reafirmou a potência artística de Claudya. A faixa fez tanto sucesso que foi incluída até na trilha do filme “Velozes e Furiosos 5”. Tem mais de mais de 175 milhões de reproduções no Spotify. A versão de Claudya tem mais de 23 milhões. Em 1973, a canção “Deixa Eu Dizer”, composta por Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, transformou-se em símbolo de resistência ao ecoar versos sobre liberdade de expressão e opressão política.
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No palco do Municipal, Claudya revisita esse repertório com a intensidade e a sofisticação vocal que marcaram sua carreira. O show percorre clássicos como “Você Não Sabe Amar”, de Dorival Caymmi, “Esse Cara”, de Caetano Veloso, “A Fonte Secou”, de Monsueto Menezes, além de releituras cheias de suingue para “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e o corrosivo samba-rock “Só Que Deram Zero pro Bedeu”, de Luis Vagner. O repertório culmina em “Pois É, Seu Zé”, de Gonzaguinha, numa interpretação que dialoga diretamente com a própria trajetória da artista.
“Cantar ‘Deixa Eu Dizer’ hoje é reencontrar uma parte muito profunda da minha história e perceber como aquelas canções continuam dialogando com o presente. Esse disco nasceu em um momento duro do país, mas também de muita coragem artística. Voltar ao palco do Theatro Municipal, na Virada Cultural, celebrando esse repertório e vendo novas gerações descobrindo essas músicas, é uma emoção muito grande para mim.” — Claudya
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Nascida Maria das Graças Rallo, no Rio de Janeiro, Claudya iniciou sua carreira ainda criança em programas de calouros em Juiz de Fora e tornou-se uma das vozes mais marcantes da geração dos festivais e da televisão musical dos anos 1960. Contratada pela TV Record em plena era de ouro da bossa nova, dividiu espaço com nomes como Elis Regina e Jair Rodrigues no histórico programa *O Fino da Bossa*. Ao longo da carreira, conquistou prêmios internacionais na Grécia, Japão, Venezuela, Espanha e México, consolidando-se como uma intérprete singular, dona de uma voz poderosa, versátil e profundamente brasileira.
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Mais do que um reencontro com um disco histórico, o espetáculo na Virada Cultural celebra a permanência de uma artista que transformou resistência em música e cuja obra segue atual, política e necessária.
Serviço | Virada Cultural
Claudya – Deixa eu Dizer
Theatro Municipal de São Paulo
Sábado, 23 para 24 de maio 2026 | meia noite
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Crédito das fotos: Dani Gurgel
Assessoria de imprensa: Paulo Henrique de Moura
VÍDEO do show: Deixa eu dizer
Sobre Claudya
Nascida Maria das Graças Rallo, no subúrbio do Rio de Janeiro, Claudya mudou-se ainda criança com a família para Juiz de Fora, em Minas Gerais. Foi ali que começou a cantar em festas escolares e programas de auditório locais, chamando atenção desde cedo pelo talento e pela presença de palco. Aos 17 anos, em busca de oportunidades profissionais mais amplas, mudou-se novamente com a família, dessa vez para São Paulo, então um dos principais polos da música popular brasileira e sede de programas televisivos que funcionavam como verdadeiras vitrines para novos talentos.
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Naquele momento, um dos espaços mais cobiçados era O Fino da Bossa, exibido pela TV Record. Foi o trompetista Waldir de Barros, músico da orquestra da emissora e figura que Claudya considera seu grande apoiador, quem sugeriu que a jovem cantora fizesse um teste para o programa. Aprovada, foi contratada e escalada para a segunda parte da atração, dividindo o palco com nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues e Baden Powell. Foi ali que Maria das Graças deixou de existir artisticamente: por sugestão da própria cantora — inspirada na ascendência italiana do pai —, adotou o nome Cláudia. “Eles queriam um nome marcante”, relembra. Décadas depois, nos anos 1990, a grafia seria alterada para Claudya, por sugestão da numerologia.
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O início era promissor, mas aquele período também marcaria um dos episódios mais dolorosos de sua trajetória. Em 1965, impulsionada pelas aparições na televisão, gravou seu primeiro disco, um compacto. No ano seguinte, foi convidada pelo jornalista e produtor Ronaldo Bôscoli para uma temporada de shows no Rio de Janeiro. A proposta inicial — batizar o espetáculo de Quem Tem Medo de Elis Regina? — causou estranhamento imediato. Claudya nunca compreendeu a ideia e recusou o título, que acabou sendo substituído por Cláudia: Não Se Aprende na Escola. Ainda assim, a história se espalhou e a cantora tornou-se alvo do que hoje se chamaria de fake news: passou a ser vista como oportunista, alguém que desejava ocupar o espaço de Elis.
Segundo Claudya, nada foi feito para desfazer o mal-entendido. “A intenção deles era botar mais lenha na fogueira, porque O Fino da Bossa estava perdendo audiência para o programa Jovem Guarda, do Roberto Carlos. Queriam fomentar rivalidade, briga — e eu não queria nada disso. Eu queria cantar, trabalhar, ganhar meu dinheiro”. Ela lamenta nunca ter conseguido conversar sobre o assunto com Elis, falecida em 1982. “Eu precisava falar com ela, sentia essa necessidade, mas infelizmente não foi possível”.
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Mesmo com a insistência da direção para que permanecesse no programa, Claudya deixou a Record e migrou para a TV Excelsior, onde passou a integrar o elenco do Ensaio Geral, ao lado de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ainda assim, o episódio afetou suas oportunidades no Brasil. Diante do cenário, decidiu ir para o Japão, onde permaneceu por seis meses realizando shows e gravando dois compactos e um LP. De volta ao país, encontrou nos festivais da canção um novo impulso: participou de disputas na TV Record e na TV Excelsior, além de festivais internacionais, defendendo obras de compositores como Marcos e Paulo Sérgio Valle, Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
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Apesar da visibilidade, Claudya nunca se sentiu confortável com rótulos. “Nunca gostei de ser marcada como cantora disso ou daquilo: romântica, de samba, de festival. Eu era crooner de orquestra, de grupos musicais em Juiz de Fora, estava acostumada a cantar de tudo”, afirma. Essa versatilidade marcou também sua passagem pela Odeon, no início dos anos 1970, quando lançou alguns de seus discos mais importantes. O álbum Jesus Cristo (1971), impulsionado pela regravação da canção de Roberto e Erasmo Carlos, foi um grande sucesso, seguido por Você, Cláudia, Você e Deixa Eu Dizer. No auge da carreira, porém, outro revés: segundo a cantora, a chegada de Clara Nunes ao cast da gravadora fez com que as atenções se concentrassem exclusivamente na nova estrela. Àquela altura, Claudya já compunha — em um período, como ela própria observa, em que “não se confiava muito nas mulheres compositoras”.
Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória viria em 1983, quando foi escolhida para protagonizar o espetáculo Evita, sobre Eva Perón. Cantando, dançando e atuando ao lado de Mauro Mendonça e Carlos Augusto Strazzer, permaneceu nove meses em cartaz no Rio de Janeiro. “Titubeei muito para aceitar, porque não era atriz e sabia que seria comparada a Bibi Ferreira e Marília Pêra. A trilha sonora era dificílima”, recorda. O esforço foi recompensado com elogios da crítica, capas em jornais e revistas e indicação ao Prêmio Molière.
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Décadas depois, em 2008, sua voz alcançaria uma nova geração de forma inesperada. O sample de Deixa Eu Dizer — gravada por Claudya em 1973, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza — foi utilizado por Marcelo D2 no rap Desabafo, do álbum A Arte do Barulho. A canção se espalhou pelas rádios, pistas e chegou à trilha sonora de Velozes e Furiosos 5: Operação Rio. Subitamente, jovens ouvintes passaram a buscar seus discos e sua história, abrindo um novo e significativo capítulo em sua carreira.
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Hoje, aos 77 anos e celebrando 60 anos de trajetória, Claudya segue fiel ao que define como teimosia: cantar. Mãe da cantora Graziela Medori, ela mantinha, antes da pandemia, uma série de shows comemorativos dedicados à própria obra. Para o historiador e pesquisador Ricardo Santhiago, “Claudya é uma cantora extraordinária, com timbre, técnica e percepção musical absolutamente únicos”. Segundo ele, os percalços enfrentados ao longo da carreira se agravam em um mercado musical que mudou radicalmente desde os anos 1960. “Por isso, é importante historicizar sua trajetória sem vitimismo”, afirma.

Discografia
1967 – Cláudia
1971 – Cláudia
1971 – Jesus Cristo
1971 – Você, Cláudia, Você
1973 – Deixa Eu Dizer
1977 – Reza, Tambor e Raça
1979 – Pássaro Emigrante
1980 – Cláudia
1985 – Luz da Vida
1986 – Sentimentos
1992 – A Estranha Dama
1994 – Leão de Judá
1994 – Entre Amigos (com Zimbo Trio)
1998 – Claudya Canta Taiguara
1999 – Brasil Real
2005 – Horizons
2011 – Senhor do Tempo: Canções Raras de Caetano Veloso
2016 – Para Sempre Amanhecer – Duo com o pianista Tiago Mineiro
