Clarice Senna - foto: Maravilha Marginal
A cena contemporânea da Música Popular Brasileira ganha em diversidade humana e simbólica com a chegada de uma voz dissidente e disruptiva. No dia 18 de junho, aos 44 anos, a cantautora Clarice Senna lançou seu primeiro álbum de estúdio, A Boca no Mundo. Uma estreia que, para muitos, pode parecer tardia, mas que carrega em si os marcadores do tempo da desigualdade de oportunidades que atravessa o fazer cultural de uma artista com deficiência visual.
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O álbum nasce da convergência de diferentes trajetórias e sensibilidades reunidas em torno de um ideal de sonoridade e reparação artística. Na produção musical e nos arranjos, Clarice Senna divide a criação com Dante Ozzetti, enquanto a engenharia de som e mixagem fica a cargo de Beto Mendonça, no histórico Estúdio 185. A masterização é assinada por Carlos Freitas, um dos nomes mais reconhecidos da música brasileira nessa área.
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A Boca no Mundo ecoa uma sonoridade orgânica e sensível porque reflete a própria linguagem composicional de Clarice Senna e inscreve essas referências nos modos de produção do disco. Gravado ao longo de um ano e dois meses, o álbum foi construído em regime de convivência musical: a mesma banda-base, o mesmo estúdio, a permanência como método. Um processo que remete à feitura de grandes obras da MPB.
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A banda reúne Dante Ozzetti nos violões, Vitor Arantes nos pianos e teclados, Beatriz Lima nos contrabaixos, Jabes Felipe na bateria e Franci Oliver nas percussões.
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Com formação em comunicação e semiótica, Clarice constrói conceitos e elaborações discursivas que atravessam todo o trabalho — da capa aos arranjos, das propostas vocais às letras. O álbum transita por diálogos delicados com a saúde mental, o feminino, a natureza e a poética Def, sustentado por uma banda de excelência técnica e participações especiais de nomes como Bocato, Alexandre Ribeiro, Mário Manga, Cássio Poleto e Fábio Peron.
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Conhecida por atuar como “compositora de boca”, utilizando a voz como instrumento, Clarice descreve seu trabalho de composição e arranjos como um “instrumental com letra”. A definição ajuda a compreender a experiência musical compartilhada com Dante Ozzetti e os convidados do álbum: uma atmosfera em que voz e instrumentos tocam juntos, se atravessam e constroem uma musicalidade que parece sempre desejar botar, enfim, A Boca no Mundo.
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Em um mercado fonográfico brasileiro onde a MPB segue como um dos gêneros mais consumidos entre diferentes gerações — seja pela adesão da geração Z, seja pelo desejo constante de renovação por parte das anteriores —, o álbum chega ao ambiente digital, mas também reivindica a permanência do objeto físico. Em breve, estará disponível em CD e LP.
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Clarice, que convive com a Doença de Stargardt, condição que compromete a visão central, subverte o olhar normativo ao pautar aquilo que chama de Estética do Acesso. Em sua proposição artística, a linguagem assistiva — o gesto de descrever e traduzir o mundo para quem não o percebe dentro dos padrões visuais hegemônicos — deixa de operar como mero recurso técnico e passa a existir como instrumento artístico vivo.
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“O cenário musical é um sistema que se comporta como uma floresta que, para se manter viva, depende da biodiversidade. É bom para a diversidade da música brasileira o ponto de vista de uma mulher compositora Def propondo uma vanguarda amazônica”, define Clarice.
Portais Sensoriais e a Atmosfera Amazônica
Composto por dez faixas autorais, o trabalho transporta o ouvinte para um ambiente profundamente sensorial e sofisticado. Para Dante Ozzetti, as composições de Clarice funcionam como uma sucessão de portais: passagens que revelam ritmos, melodias e harmonias submersas, lançando luz sobre uma vanguarda da musicalidade amazônica contemporânea. Os arranjos foram concebidos justamente para traduzir essas intenções estruturais e expandir essa atmosfera.
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Entre as conexões mais profundas que moldam a identidade do álbum, a faixa O Grão Pará carrega uma dimensão afetiva e histórica singular. A canção é uma homenagem direta de Clarice ao pai, o cantor e compositor paraense Chico Sena (1961–1986). O gesto estabelece um diálogo com Flor do Grão-Pará, composição escrita e gravada por ele nos anos 1980 e que se tornou uma espécie de hino de Belém, consolidando-se como uma das mais emblemáticas canções sobre a saudade e o amor de quem conhece e atravessa a capital paraense.
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Em O Grão Pará, Clarice revisita essa herança lírica e afetiva, transformando-a em uma declaração visceral de pertencimento — tanto à “Cidade das Mangueiras” quanto à memória do pai.
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Natural de Belém (PA) e radicada em São Paulo, Clarice Senna se afirma, com este lançamento, como uma das vozes mais autênticas, resilientes e necessárias da música brasileira contemporânea.
Disco ‘A Boca no Mundo’ • Clarice Senna • Selo Independente / ONErpm • 2026
Canções / compositores
1. Ensolarada (Clarice Senna) | Participação especial Mario Manga
2. A Boca no Mundo (Clarice Senna) | Participação especial Bocato
3. Insurgente (Clarice Senna) | Participação especial Alexandre Ribeiro
4. Bolero Imaginário (Clarice Senna / Simone Guimarães) | Participação especial Cássio Poleto
5. Mareô (Clarice Senna) | Participação especial Alexandre Ribeiro
6. Livramento (Clarice Senna) | Participação especial Cássio Poleto
7. O Grão Pará (Clarice Senna) | Participação especial Bocato
8. Tempo de Viver (Clarice Senna) | Participação especial Mario Manga
9. Água Viva (Clarice Senna) | Participação especial Alexandre Ribeiro
10. Pé de Vida (Clarice Senna) | Participação especial Fábio Peron
– ficha técnica –
Clarice Senna (voz) | Dante Ozzetti (violões) | Francy Oliver (percussão) | Jabes Felipe (bateria) | Beatriz Lima (contrabaixo) | Vitor Arantes (piano e teclado) | Participações especiais: Mario Manga (violoncelo – x. 1, 8) | Bocato (trombone – fx. 2, 7) | Alexandre Ribeiro (clarone e clarinete – fx. 3, 5, 9) | Cássio Poleto (violino – fx. 4, 6) | Fábio Peron (bandolim – fx. 10) | Produção musical e arranjos: Dante Ozzetti e Clarice Senna | Técnico de gravação e mixagem: Beto Mendonça, no Estúdio 185, São Paulo/SP | Masterização: Carlos Freitas | Fotos: Maravilha Marginal | Ilustração capa: Helô Rodrigues | Assessoria de Imprensa: Omim Comunicação | Selo: Independente | Distribuição digital: ONErpm | Formato: CD digital | Ano: 2026 | Lançamento: 18 de junho | ♪Ouça o álbum: clique aqui
Sobre Clarice Senna
Natural de Belém (PA), residente em São Paulo e paulistana de afeto, Clarice Senna é uma artista com baixa visão que ressignifica a percepção estética através da música, da dança, do audiovisual e da Semiótica da Cultura. Sua trajetória na MPB é marcada pela busca de uma linguagem e de uma sonoridade capazes de dialogar com a pluralidade cultural do Brasil e do mundo, abrindo espaço para que a poética Def exista para além dos padrões normativos.
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Série: Discografia da Música Brasileira / MPB / Canção / álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske /Templo Cultural Delfos
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