por Giuliana Capello
A Casa do Sol, residência histórica da escritora Hilda Hilst em Campinas, voltou a abrir suas portas após cinco anos fechada. Mais do que um endereço simbólico, o espaço carrega a marca de um projeto de vida: foi concebido pela autora como um refúgio criativo, onde pudesse se dedicar integralmente à literatura.
Com a reinauguração, consolida-se como patrimônio vivo, projetando o legado de Hilda Hilst para novas gerações. Mais do que restaurar paredes e telhados, o trabalho devolveu à cidade um espaço de encontro, criação e reflexão, mantendo acesa a chama da autora que transformou sua vida em literatura e fez da casa um verdadeiro símbolo da liberdade artística.
“A minha casa é guardiã do meu corpo e protetora de todas as minhas ardências”, versou Hilda Hilst (1930-2004) em um poema do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, de 1974, musicado por Zeca Baleiro na voz de Maria Bethânia. Intitulada Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – de Ariana para Dionísio, a obra revela o papel central que a Casa do Sol teve na vida literária da escritora. Erguida em 1964, em terras da antiga fazenda de sua mãe nos arredores de Campinas, SP (hoje, um bairro residencial), a construção representou a mudança voluntária de um cotidiano na capital regado a festas da elite cultural paulistana dos anos 1950 e 60 para uma rotina intensa de trabalho dedicada à escrita, até o fim de sua vida. Com cerca de 700 m² em um terreno de mais de 10 mil m², sua arquitetura mistura o espírito das casas interioranas com um pátio interno que lembra um claustro conventual – embora desde sempre tenha sido um lugar compartilhado com amigos, entre eles, o ex-marido e escultor Dante Casarini, os escritores José Luis Mora Fuentes e Caio Fernando Abreu, e a artista plástica Olga Bilenky, que mora no local desde 1975. Ainda assim, pouco se sabe sobre sua origem, quem a projetou, quem a construiu, embora algo seja certo: seu desenho reflete o desejo da poeta de habitar um espaço que impulsionasse o surgimento de seus livros. “A casa foi feita para o trabalho. Hilda usou a arquitetura para criar uma disciplina semelhante a de um convento para a produção da obra dela”, comenta Olga.

Desde a morte da escritora, o imóvel sedia o Instituto Hilda Hilst, responsável por preservar o acervo bibliográfico e pessoal da autora, além de promover residências artísticas e atividades culturais. Em 2014, a casa foi tombada como patrimônio histórico pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas e, após anos de espera, finalmente pôde ser restaurada – com o investimento de 2 milhões de reais, recebidos por meio da Transferência do Direito de Construir (TDC), política pública na qual a prefeitura emite um título de potencial construtivo comercializado no mercado imobiliário.
“Fizemos uma pesquisa histórica e uma escuta sensível do lugar e da obra de Hilda para entender o que enaltecer daquele universo todo. Chegamos a uma intervenção mínima, mais conservativa, respeitando a estrutura e os materiais originais”, relata a arquiteta Mariana Falqueiro, da Tapera Arquitetura e Patrimônio Cultural, autora do projeto, que chegou a morar na residência durante a reforma, iniciada em 2024 e concluída em agosto deste ano. Toda a infraestrutura elétrica e hidráulica foi renovada, assim como forros (do tipo saia-e-camisa, em estilo colonial) e telhado. Portas, janelas, volumetria original, pátio interno e o piso cerâmico foram conservados, ao contrário de antigos muros existentes no terreno, retirados para desbloquear vistas e a circulação. Na área externa, o jardim biodiverso ganhou caminhos acessíveis, e as espécies arbóreas (cerca de 500) foram catalogadas, podadas e tratadas. Já a edícula, que antes servia aos canis – Hilda amava cães, resgatava-os das ruas e chegou a ter mais de 100 deles – foi reconfigurada, abrindo-se para o jardim e a morada principal, e recebeu uma nova cozinha, suíte com acessibilidade, bar para eventos e varandas feitas com tijolos retirados das ruínas dos canis (estas, restauradas para ocupações culturais, por meio de um projeto que captou 500 mil reais via Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo).


Para Daniel Fuentes, presidente do Instituto Hilda Hilst, o restauro representa uma ampliação significativa das possibilidades de realização de ações culturais, entre elas a feira literária Hilstianas, cuja primeira edição marcou a reabertura da Casa do Sol ao público no final de agosto, e que deve ocorrer trimestralmente. “Além de toda a infraestrutura renovada, o projeto transformou a parte dos fundos da construção, onde ficavam os canis, em um ambiente multiúso incrível. É uma grande vitória e a oportunidade de guardarmos toda a memória que há aqui através de um espaço muito vivo, ativo, capaz de criar também novas histórias”, avalia ele, que, filho de Olga Bilenky e Mora Fuentes, frequenta a Casa do Sol desde a infância. A escritora Bruna Kalil Othero também reforça a importância do restauro. “Ele atualiza esse grande projeto que a Hilda tinha de que a casa fosse um local seguro e, ao mesmo tempo, meio mágico para o nascimento de produções artísticas, científicas e intelectuais. A retomada das residências artísticas caminha nessa direção e desenha desde já um futuro lindo para o lugar”, diz ela, que pesquisa a autora há dez anos e prepara uma ampla biografia com publicação prevista para 2027, pela editora Companhia das Letras.

Paralelamente à proposta arquitetônica, todo o acervo particular de Hilda Hilst está sendo digitalizado e em breve estará disponível em uma plataforma gratuita na internet. “São 3 mil livros, mais de 1,2 mil fotografias, roupas, obras de arte, 1,5 mil documentos (entre cartas e manuscritos) e muitos objetos que compõem os altares que ela criava pela casa”, conta o bibliotecário Antonio Neto, coordenador do projeto de digitalização do acervo. Até a história da construção da residência deve ganhar novos contornos. É que a arqueóloga e historiadora Angélica Moreira, da Terceira Página Consultoria, recebeu de Mariana Falqueiro 44 amostras de tijolos recolhidos durante a obra do restauro para pesquisa. Vinte e quatro deles têm marcas ou inscrições diferentes e 11 irão compor uma “tijoloteca” a ser descrita em um catálogo online que será publicado até janeiro de 2026. “Tijolos podem ter muitas camadas sensíveis para além de seu uso prático, e esses, especialmente, são uma forma de conhecer e materializar toda uma vida literária de serenidade e criatividade, além de ajudarem na qualificação da construção original e suas alterações ao longo dos anos”, argumenta. Bruna Kalil Othero resume o clima da Casa do Sol citando sua antiga moradora, em seu segundo livro de prosa, Kadosh, de 1973: “Se você olha tudo com vagarosidade, tudo é sagrado”.


