Clarice Lispector, 1946. Paris, França. Studio Harcourt / Coleção Paulo Gurgel Valente / Acervo IMS

Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras, nem sempre foi considerada brasileira.

A escritora nasceu na cidade ucraniana Tchetchelnik, em 1920, e veio para o Brasil com seus pais e suas duas irmãs quando ainda era recém nascida, tendo chegado no Brasil em março de 1922. Na ocasião seus pais alteraram seu nome estrangeiro ‘Haia’ por ‘Clarice’.

Ao completar 21 anos – idade mínima para requerer a nacionalidade brasileira -, Clarice escreveu uma carta direto para o presidente Getúlio Vargas requerendo atenção à sua solicitação.

Que audácia hein?!

Confira:

Rio de Janeiro, 3 de junho de 1942¹

Senhor Presidente Getúlio Vargas:

Quem lhe escreve é uma jornalista, ex-redatora da Agência Nacional (Departamento de Imprensa e Propaganda)², atualmente n’A Noite, acadêmica da Faculdade Nacional de Direito e, casualmente, russa também.

Uma russa de 21 anos de idade e que está no Brasil há 21 anos menos alguns meses. Que não conhece uma só palavra de russo mas que pensa, fala, escreve e age em português, fazendo disso sua profissão e nisso pousando todos os projetos do seu futuro, próximo ou longínquo. Que não tem pai nem mãe – o primeiro, assim como as irmãs da signatária, brasileiro naturalizado – e que por isso não se sente de modo algum presa ao país de onde veio, nem sequer por ouvir relatos sobre ele. Que deseja casar-se com brasileiro e ter filhos brasileiros. Que, se fosse obrigada a voltar à Rússia, lá se sentiria irremediavelmente estrangeira, sem amigos, sem profissão, sem esperanças.

Senhor Presidente. Não pretendo afirmar que tenho prestado grandes serviços à Nação – requisito que poderia alegar para ter direito de pedir a V. Ex.ª a dispensa de um ano de prazo, necessário a minha naturalização. Sou jovem e, salvo em ato de heroísmo, não poderia ter servido ao Brasil senão fragilmente. Demonstrei minha ligação com esta terra e meu desejo de servi-la, cooperando com o DIP, por meio de reportagens e artigos, distribuídos aos jornais do Rio e dos estados, na divulgação e na propaganda do governo de V. Ex.ª E, de um modo geral, trabalhando na imprensa diária, o grande elemento de aproximação entre governo e povo.

Como jornalista, tomei parte em comemorações das grandes datas nacionais, participei da inauguração de inúmeras obras iniciadas por V. Ex.ª, e estive mesmo ao lado de V Ex.ª mais de uma vez, sendo que a última em 1º de maio de 1941, Dia do Trabalho.

Se trago a V. Ex.ª o resumo dos meus trabalhos jornalísticos não é para pedir-lhe, como recompensa, o direito de ser brasileira. Prestei esses serviços espontânea e naturalmente, e nem poderia deixar de executá-los. Se neles falo é para atestar que já sou brasileira.
Posso apresentar provas materiais de tudo o que afirmo. Infelizmente, o que não posso provar materialmente – e que, no entanto, é o que mais importa – é que tudo que fiz tinha como núcleo minha real união com o país e que não possuo, nem elegeria, outra pátria senão o Brasil.

Senhor Presidente. Tomo a liberdade de solicitar a V. Ex.ª a dispensa do prazo de um ano, que se deve seguir ao processo que atualmente transita pelo Ministério da Justiça, com todos os requisitos satisfeitos. Poderei trabalhar, formar-me, fazer os indispensáveis projetos para o futuro, com segurança e estabilidade. A assinatura de V. Ex.ª tornará de direito uma situação de fato. Creia-me, Senhor Presidente, ela alargará minha vida. E um dia saberei provar que não a usei inutilmente.

Clarice Lispector

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[1] Carta publicada originalmente em Eu sou uma pergunta (Rocco, 1999), de Teresa Montero.
[2] A sede da Agência Nacional era no prédio da atual Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), na avenida Primeiro de Março. Para acelerar os trâmites de seu processo de naturalização, Clarice escreve a carta ao presidente da República. O pedido só foi concedido em 12 de janeiro de 1943, dias antes de expirar o prazo determinado.

Clarice Lispector, no livro “Todas as cartas”. Rocco, 2020

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