Rubem Alves - foto: Alex Costa/Diário do Nordeste

Caras
Em situações de tédio somos capazes de ler as coisas mais absurdas. Numa cela de penitenciária, vazia, o prisioneiro lê até rótulo de pasta dental. Eu já li bula de remédio numa viagem de ônibus. Pois eu estava na sala de espera do meu dentista. Houve atraso, não por culpa dele. Eu tinha de matar o tempo. Na mesa, pilhas da revista Caras. Nunca havia me interessado por ler uma, embora soubesse da sua fama. Folheando, vi que havia palavras cruzadas. Um bom passatempo. Mas todas já estavam resolvidas. E eram muito fáceis. Resolvi, então, ir à substância da revista. Achei-a muito interessante. A pessoa que a criou deve ser um gênio.

Podem imaginar uma revista que é sempre igual, tratando sempre de um mesmo assunto, e é comprada semanalmente por milhares de leitores famintos? Podem imaginar um público que coma sempre a mesma comida? A pessoa que imaginou a Caras descobriu a comida que, sendo sempre a mesma, é comida sempre, com prazer. Pois todas as Caras, sem exceção, tratam de um único assunto: sorrisos de socialites. Cada revista é um caleidoscópio de sorrisos. Aí propus-me um jogo: contar quantos sorrisos estavam publicados na revista que eu tinha nas mãos. Fui rigoroso. Sorrisinho de boca fechada não valia. Só valia sorriso mostrando os dentes. Comecei a contar. No princípio foi fácil: um, dois, três. Mas quando cheguei aos cem ficou complicado: cento e sessenta e quatro. A língua começou a tropeçar.

Tive de ir mais devagar. Lamentei que o meu instrumental de pesquisa não me permitisse distinguir sorrisos de dentes naturais dos sorrisos de dentadura. Como já informei, nas primeiras dentaduras, os dentes eram arrancados dos escravos.

Escravo banguela, senhor sorridente… Quando o dentista me chamou, eu já havia contado todos os sorrisos dentais de metade da revista, muito grossa: trezentos e setenta e cinco. Abandonei a revista com tristeza. A pergunta continua a me atormentar: quantos sorrisos? Sugiro que vocês que leem a Caras façam a mesma brincadeira e me enviem o resultado das suas pesquisas. Contar sorrisos é uma atividade muito educativa, terapêutica, mesmo. Ao final, vocês também estarão não sorrindo, mas rindo. Sorrisos fotográficos têm sempre uma pitada de ridículo, por serem todos produzidos automaticamente quando o fotógrafo diz “cheese”.

Compreendi, então, as razões para o fracasso da revista Bundas, criação de Ziraldo e companhia. É que bundas não sabem sorrir, não têm dentes a exibir, muito embora o Drummond, no seu livro O amor natural, tenha escrito, página 25: “A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar…”.

Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.

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