sábado, janeiro 24, 2026

Baiano é um estado de espírito, por Jorge Amado

BAIANO QUER DIZER QUEM NASCE NA BAHIA, QUEM TEVE ESTE alto privilégio, mas significa também um estado de espírito, certa concepção de vida, quase uma filosofia, determinada forma de humanismo. Eis por que homens e mulheres nascidos em outras plagas, por vezes em distantes plagas, se reconhecem baianos apenas atingem a fímbria desse mar de saveiros, as agruras desse sertão de vaquejadas e de milagres, os rastros desse povo de toda resistência e de toda gentileza. E como baianos são reconhecidos, pois de logo se pode distinguir o verdadeiro do falso. Aqui entre nós: tem gente que há vinte anos tenta obter seu passaporte de baiano e jamais consegue pois não é fácil preencher as condições e como diz o moço Caymmi, nosso poeta, “quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim”.

Pierre Verger, mestre francês de artes e de ciências, andou meio mundo, cruzou caminhos do Oriente e do Ocidente, mares e desertos, montanhas e arranha-céus; era um ser errante, um inquieto. Já duvidava da alegria quando de súbito a encontrou ao chegar às ladeiras da cidade do Salvador da Bahia de Todos-os-Santos. Viu realizado seu sonho antigo na civilização mestiça que aqui plantamos e construímos com a nossa democracia racial. Chegara à pátria de seu coração.

Foi reconhecido e confirmado e, em festa de dança e canto, no terreiro recebeu o nome de Oju Obá. As iaôs dançaram em sua honra, sentou-se Pierre entre os notáveis de Xangô, entre os notáveis da Bahia. Sábio de Paris, feiticeiro da África, baiano dos melhores.

Muitos são os baianos nascidos noutras terras que nos têm trazido a contribuição de seu trabalho criador. O pintor Henrique Oswald, tão cedo falecido, quando alcançava sua completa maturidade de artista. O poeta Odorico Tavares, intemerato defensor de cada pedra de nossa cidade. O gravador Karl Hansen, da Alemanha, que juntou ao seu nome o da terra prometida: hoje se chama Hansen Bahia. Mestre Rescala, a quem tanto devemos pois preservou e restaurou tesouros de arte ameaçados pelo tempo e pela insídia dos governantes.

Baianos nascidos na Amazônia, os poetas Carlos Eduardo da Rocha e seu irmão Wilson, o psiquiatra Rubim de Pinho; no Maranhão, o desenhista e pintor Floriano Teixeira; em Sergipe, Jenner Augusto e José de Dome, mestres pintores, o historiador José Calazans e os jornalistas João Batista de Lima e Silva e Junot Silveira. Vindos de Portugal, como o padre Vieira que aqui desembarcou ignorante e tapado, dura cabeça de pedra — apenas aspirou o ar baiano, deu-lhe um estalo na cabeça, a pedra virou talento, floresceu no padre mais inteligente do mundo — e Antônio Simões Celestino, flor dos Celestinos da Póvoa do Lanhoso. O mais baiano de todos os baianos é o pintor Carybé, nascido no mar, dos ilícitos amores de Iemanjá com um certo senhor h. j. p. de Bernabó, de duvidosa nacionalidade.

Baiano é um estado de espírito.

— Jorge Amado, no livro “Bahia de todos-os-santos“. Companhia das Letras, 2012

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SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - Baiano é um estado de espírito, por Jorge Amado
“Esse é bem um estranho guia”, diz Jorge Amado no “Convite” que abre Bahia de Todos-os-Santos. “Com ele não verás apenas a casca amarela e linda da laranja. Verás igualmente os gomos podres que repugnam ao paladar.” Essas palavras resumem o espírito deste livro sui generis sobre a cidade de Salvador. Escrito originalmente em 1944, no auge da luta antifascista, manteve em suas sucessivas atualizações a abordagem visceral que o transformou numa obra ao mesmo tempo de celebração dos esplendores da cidade e de denúncia de suas muitas mazelas. A versão definitiva só ficou pronta em 1986. Quem melhor do que Jorge Amado, que cantou em tantos livros a “cidade da Bahia”, povoando suas ruas com personagens inesquecíveis, para fazer esse retrato de corpo inteiro da capital baiana? Pelas páginas deste livro desfilam as belezas arquitetônicas da metrópole – suas igrejas, átrios e palácios, suas ladeiras e ancoradouros -, bem como seus encantos naturais – praias, matas, morros, lagoas -, mas também o lado miserável da cidade, seus cortiços malcheirosos, a falta de saneamento e infraestrutura, o desamparo e a doença. Aqui e ali, fotografias de Flávio Damm utilizadas na edição de 1961 pontuam o que vai sendo descrito. Não se trata de um guia preocupado apenas com a descrição do pitoresco, mas de uma narrativa múltipla sobre o cotidiano da cidade e suas transformações ao longo das décadas. Do dia a dia do trabalhador braçal às receitas de quitutes baianos, da arte dos mestres da capoeira ao misticismo dos terreiros de candomblé, dos pequenos crimes dos “capitães da areia” à dura poesia dos pescadores e mestres de saveiros, da universidade às festas religiosas e pagãs, a vida de Salvador pulsa a cada parágrafo. Moradores da cidade, ilustres ou anônimos, são evocados aqui com a mesma vitalidade e frescor dos personagens dos romances do autor, convertido em cicerone que abre as portas de sua grande casa aos leitores do mundo.

FICHA TÉCNICA
Título: Bahia de todos-os-santos
Páginas: 400
Formato: 21 x 13.6 x 2.4 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 17/08/2012 (1ª edição)
ISBN: 978-8535921373
Selo: Companhia das Letras
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