Crônicas e ensaios

As casas e os ecos de Milton Hatoum, por Paulo Baía

Há escritores que constroem mundos e há escritores que constroem casas. Milton Hatoum pertence à segunda espécie. Desde Relato de um Certo Oriente, ele escreve a partir das frestas da memória, das portas que rangem quando o tempo decide entrar, das janelas que deixam passar o rumor abafado de Manaus, uma cidade que, em sua ficção, flutua entre o sonho e a lembrança. Suas histórias começam sempre no mesmo ponto de vertigem: alguém retorna, alguém parte, alguém tenta reunir o que o tempo espalhou. E o que era casa se transforma em espelho partido, em origem perdida, em silêncio que respira.
.
Em Relato de um Certo Oriente, a casa é um labirinto de vozes que se sobrepõem como se cada uma falasse para não ser esquecida. Uma mulher retorna à cidade natal e, ao visitar a matriarca agonizante, escuta não apenas a voz da família, mas a de todos os fantasmas que habitam as sombras do passado. O Oriente do título é menos um ponto no mapa e mais uma metáfora de exílio interior, o território de quem vive entre fronteiras invisíveis. O livro é uma oração interrompida. Cheira a cedro, a tempo antigo, a distância. Cada frase é uma tentativa de recuperar o que o tempo dissolveu, mas toda tentativa esbarra no limite da linguagem. Hatoum escreve como quem acende uma vela dentro da casa escura da memória e sabe que a chama não ilumina, apenas revela as sombras que a cercam.

Em Dois Irmãos, ele ergue uma nova casa, desta vez sobre o terreno da ruína. Yaqub e Omar, os gêmeos inimigos, são como dois lados de um mesmo espelho rachado. O amor da mãe é o eixo que divide e multiplica o ressentimento. A figura ausente do pai paira como uma lembrança áspera. E Nael, o narrador silencioso, observa tudo com olhos de quem entende a dor, mas não o direito de nomeá-la. Ele é o filho da casa e o filho da sombra. Aquele que escuta o que os outros calam.
.
A Manaus de Dois Irmãos é uma cidade de rios interiores. Chove dentro das pessoas, e o tempo escorre pelas paredes da casa como se fosse possível ouvir a umidade da tristeza. É o romance em que Hatoum alcança o equilíbrio raro entre o drama e a contenção. Nenhuma palavra sobra, nenhuma lágrima é gratuita. Tudo vibra na fronteira entre o dito e o não dito. Há em cada página uma sabedoria quase oriental, uma meditação sobre a desigualdade e o amor, sobre o país que se constrói pela metade e sobre os afetos que se destroem inteiros.

Depois vem Cinzas do Norte, e é como se o autor acendesse o fósforo dentro da casa. O fogo da história entra pelas janelas. A ditadura militar, a modernização de Manaus, o desencanto da arte e da política atravessam os personagens como um vento que não cessa. Mundo, o artista rebelde, tenta escapar da sombra paterna e da cidade em convulsão, enquanto Olavo, o amigo que narra, recolhe os estilhaços da esperança. O livro é mais do que um romance político, é um romance sobre a política da alma. Cada gesto, cada silêncio, cada cicatriz, é também uma metáfora do país.
.
Cinzas do Norte é o ponto mais alto de uma obra que já nasceu madura. O estilo é limpo, a emoção é contida, o mundo é complexo. O Norte, ali, não é apenas geografia: é destino, é metáfora, é consciência. Hatoum transforma a derrota em beleza, a ruína em arquitetura, a memória em forma de resistência. Há uma serenidade trágica em suas frases, como se o autor compreendesse que a dor precisa de disciplina para ser compreendida. É um livro em que o amor e a política se misturam como águas turvas, e o leitor termina com a impressão de que as cinzas ainda ardem.
.
Agora, o círculo se fecha com o anúncio de Dança de Enganos, o volume que chegará em breve para completar a trilogia que começou há mais de três décadas. O título é um presságio: toda memória é uma dança, todo passado é um engano, toda lembrança é um movimento de disfarce. Há algo de mágico nessa espera. Esperar um novo livro de Hatoum é como aguardar o retorno de alguém que se ama e que partiu sem prometer voltar. Sabemos que virá, e mesmo assim duvidamos, porque o tempo é sempre um personagem em seus romances, e o futuro, em Hatoum, nunca é promessa, é eco.

Dizem que o novo livro dialogará com os romances mais recentes, A Noite da Espera e Pontos de Fuga, mas também com as casas da memória que ele ergueu no passado. Será, talvez, um reencontro entre os que partiram e os que ficaram, entre as vozes que narraram e as que foram caladas. Em Dança de Enganos, tudo indica que Hatoum voltará à casa inicial, mas não para reabitá-la. Voltará para olhar de fora, como quem reconhece que toda origem é um erro necessário, uma mentira luminosa que nos dá forma e sentido.
.
Ler Hatoum é entrar numa casa que reconhece o leitor como parte de sua mobília. As cadeiras parecem guardar lembranças. As paredes nos devolvem a própria respiração. Cada porta aberta conduz a um silêncio antigo, e o silêncio, em Hatoum, é sempre uma forma de eloquência. Seus livros falam baixo, mas permanecem conosco por anos, como uma canção que não se apaga.
.
Essa trilogia — Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte — é uma construção de memória e sombra. São livros que respiram como cidades submersas. Hatoum escreve com a paciência dos que sabem que o tempo é o verdadeiro narrador. Suas palavras não descrevem, iluminam. Seus personagens não vivem, ecoam.
Esperar Dança de Enganos é, portanto, esperar a própria literatura reencontrar seu pulso. Porque em Hatoum o passado nunca se encerra, ele apenas muda de quarto. E o leitor, apaixonado e paciente, permanece à porta, escutando, com o coração entreaberto, o som distante de alguém que volta para contar mais uma vez o que nunca deixou de acontecer.
———-

Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
———————
** Leia outros artigos e crônicas do autor publicados na revista. clique aqui
.
Leia também:

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Pare de Esperar: Por que 2026 é o Último “Ano Dourado” para Estes 3 Destinos

Por anos, viajantes têm repetido a mesma frase: no próximo ano. No próximo ano eu…

5 horas ago

‘Uma escuta sensível do tempo: Maristela Rocha sobre Chiquinha Gonzaga’, por Paulo Baía

O artigo “Chiquinha Gonzaga: um legado que atravessa o tempo”, assinado por Maristela Rocha, é…

7 horas ago

Andre Correa lança álbum de estreia ‘Seasons’

'Seasons', álbum de estreia do guitarrista e compositor Andre Correa, traz repertório autoral que une…

3 dias ago

Helder Viana lança single ‘Meu Amor, Minha Flor’, com participação do grupo Boca Livre

Com um time de peso formado por músicos como Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Jamil Joanes,…

3 dias ago

Caetano Veloso e Tom Veloso lançam single ‘Mais Simples’, de José Miguel Wisnik

O cantor e compositor Caetano Veloso gravou com o filho Tom Veloso a canção “Mais…

3 dias ago

Carol Pedroso lança EP ‘Eu Canto Minha Força, Meu Lugar’

EP Eu Canto Minha Força, Meu Lugar é um projeto musical de Carol Pedroso, que…

3 dias ago