sábado, janeiro 24, 2026

Angela Ro Ro, voz que nunca silencia, por Paulo Baía

Nas estradas que cortavam a serra em direção a Petrópolis, a paisagem sempre se confundia com a música. Havia curvas que pareciam desenhadas pelo piano, havia neblinas que soavam como a respiração entre uma canção e outra, havia o silêncio da serra que só fazia sentido quando preenchido pelo timbre grave, rouco e visceral de Angela Ro Ro. Dentro do carro, o toca-fitas guardava uma única possibilidade: uma fita de Angela. Nada mais. A repetição era o destino, a insistência era a regra. Minha filha Flávia e minha sobrinha Tais protestavam, pediam mudança, imploravam por outra trilha. Eu deixava que reclamassem, porque sabia que o tempo lhes daria a medida daquilo. Hoje elas confessam que gostavam, que acabaram sendo conquistadas, que aprenderam a ouvir o que antes parecia monotonia. Aquele costume virou memória, virou afeto, virou marca.
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Não era apenas música, era presença. Angela tinha uma capacidade rara: a de transformar a canção em confissão. Cada palavra parecia dita em carne viva, cada verso parecia retirado de uma ferida. Era amor e dor, liberdade e desejo, como se a vida inteira coubesse dentro de uma única nota. Sua voz não era doce, não era para agradar, era para estremecer. Não era para fundo musical, era para ser a própria vida em forma de som. Quem a ouvia não podia fingir, porque Angela não permitia indiferença.

As noites em que eu a vi no antigo JazzMania continuam a habitar minha memória. O piano, o cigarro, a intensidade que enchia a sala como se não houvesse paredes, apenas ondas de música atravessando os corpos. Eu não perdia um show, como se cada apresentação fosse única e irrecuperável, como se fosse preciso testemunhar cada gesto, cada inflexão, cada instante de improviso. No Circo Voador, nos sábados de blues, Angela parecia expandir-se para além do palco. Havia algo de rito, algo de liturgia. Os que estavam ali sabiam que não se tratava apenas de espetáculo, mas de experiência. O som era ao mesmo tempo celebração e lamento, grito e carícia, tempestade e abrigo.
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Angela sempre foi insubmissa. Nunca aceitou molduras, nunca buscou caber em padrões. Sua música é atravessada por uma liberdade radical, pela mistura indomada de ritmos e gêneros, pela recusa em reduzir-se ao que fosse mais fácil. Por isso ela parecia maior que as etiquetas, maior que o rótulo de cantora, de compositora. Ela era intensidade em estado bruto. Cantava de forma tão visceral que cada apresentação era como abrir um diário diante da plateia. E nós, ouvintes, nos reconhecíamos em suas dores e em seus desejos, como se também estivéssemos sendo revelados.
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O que mais me impressiona, olhando para trás, é perceber que aquelas fitas repetidas no carro eram muito mais que música de estrada. Elas eram um exercício de formação afetiva. A cada repetição, o som entrava mais fundo, tornava-se parte da memória de todos que estavam ali. Não era apenas uma escolha minha, era uma herança transmitida sem que ninguém percebesse. Hoje, Flávia e Tais lembram daquelas viagens com um brilho nos olhos que só a memória partilhada pode provocar. O que antes parecia imposição virou lembrança feliz, marca de um tempo que não volta, mas que permanece.
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Gratidão é a palavra que mais se aproxima do que sinto. Gratidão por cada noite em que Angela transformou o palco em casa, por cada viagem em que sua voz se fez estrada, por cada instante em que suas canções me ensinaram a escutar a vida com mais intensidade. Não se trata de idolatria, trata-se de reconhecimento. Há artistas que passam, há artistas que ficam. Angela pertence ao grupo raro dos que permanecem, porque sua voz não envelhece, sua música não se gasta, sua intensidade não se dilui.

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Angela Ro Ro – foto: Alexandre Moreira

E talvez seja justamente isso que a torna eterna. A voz de Angela Ro Ro é uma espécie de memória coletiva, como se cada um que a ouviu carregasse um pedaço dela para sempre. Sua arte não se contenta em ser lembrada, ela insiste em ser vivida. E é por isso que mesmo quando a fita acabou, mesmo quando o tempo avançou, mesmo quando o silêncio ocupou lugares onde antes havia sua música, ela continuou a soar.
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Angela é feita de paradoxos. É dor e cura, é ternura e brutalidade, é liberdade e confissão. Ela nos mostra que viver é aceitar a contradição e transformar em canto aquilo que a vida tem de mais difícil. Sua voz é um espelho em que nos vemos inteiros, sem máscaras, sem concessões. Ao ouvi-la, aprendemos que não há como viver pela metade, que amar exige entrega, que a dor não precisa ser escondida, que o desejo é também força vital.
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Ao recordar hoje tudo isso, sinto que as viagens para Petrópolis não foram apenas deslocamentos no espaço, mas viagens interiores, viagens em direção àquilo que se descobre apenas na companhia da arte verdadeira. Angela esteve comigo nessas estradas, esteve comigo nas noites cariocas, esteve comigo em momentos de silêncio e em momentos de festa. Sua música foi cenário e foi personagem, foi pano de fundo e foi protagonista.

Por isso, esta homenagem é também uma forma de agradecimento. Obrigado, Angela, por não ter cedido, por não ter se dobrado, por ter sido sempre você mesma. Obrigado por cantar com intensidade, por não suavizar a vida, por nos lembrar de que sentir é a única forma de existir de verdade. Obrigado por cada canção que virou memória, por cada nota que virou lembrança, por cada palavra que virou presença.
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As fitas já não existem, os shows ficaram na memória, mas sua voz continua a nos atravessar. Angela Ro Ro não é apenas parte da história da música brasileira, é parte da história da vida de quem a ouviu. E a vida, quando se encontra com a arte verdadeira, nunca mais é a mesma.
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Angela permanece. Não como passado, mas como presença viva. Não como lembrança distante, mas como chama acesa. Não como saudade que dói, mas como música que liberta. Sua voz nunca silencia, porque foi feita para ecoar na eternidade.
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Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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