COLUNISTA

Am I blue, uma crônica de Daniela Aragão

Tenho saudade da época das cassetes, quando um dos meus maiores prazeres era gravá-las para os amigos. No processo de seleção das músicas, treinava instintivamente minha sensibilidade, experimentando contrastes e texturas. Se o lado A começava por exemplo com um duo de piano e voz, as músicas seguintes possivelmente seguiriam num clima mais intimista, correspondendo à proposta sugerida na canção de abertura. Em virtude dessa necessidade de “adequação climática”, cheguei a demorar meses para concluir um lado da fita, pois não encontrava a “música certa”. Minha ex professora de literatura, que acabou se tornado muito amiga, disse-me certa vez que minhas seleções eram adoradas pelo seu marido. Embora meu interesse jamais fosse seduzir maridos, acabei curtindo o barato da história. Guardo comigo uma cópia da terceira e última cassete que gravei (para o casal), modéstia parte meu melhor trabalho de edição.

Coloquei o título meio blasé de Am I blue?, inspirado na canção gravada por Billie Holliday. Abri o lado A com Chet Baker cantando Almost Blue, de Elvis Costello. Especialmente nesta canção Chet está sublime, intensamente in, com a voz calorosamente cool acentuando cada verso, sem desperdiçar nenhum colorido das notas. Não está tocando trompete, apenas canta acompanhado pelo piano e contrabaixo. Me apaixonei por Almost Blue assim que a ouvi pela primeira vez, o abandono e a esperança “quase azul”: “Almost blue/ Flirting with this disaster became me/It named me as the fool who only aimed to be”.

Escolhi para segunda faixa Tom Jobim interpretando sua Ângela: “Misteriosamente/Está tão diferente/Ângela/A face singular de Ângela, enquanto nos surpreende o amor”. Ângela está entre as mais belas e talvez menos conhecidas canções do maestro soberano: “Um compositor como eu escreve cerca de quatrocentas músicas na vida e fica famoso por uma ou duas delas”. Tom denso, exato e delicado com sua voz grave e seu piano econômico.

Em seguida entra João Gilberto, absoluto: “Estate sei calda como i baci che ho perduto/sei pena di un amore che è passato/che il cuore mio vorrebe cancellare”. Essa canção dos italianos Bruno Martino e Bruno Brighetti ganha o toque único de João. Só a lâmina de sua voz, acrescida pelos acordes precisos e a batida singular. Não tenho mais a referência do músico que toca com muita propriedade a vassourinha sofisticadamente cool (parece Robertinho Silva), que se casa com a dissonância da voz e da batida de João.

Quarta faixa, fixo meus olhos na fita que vai se enrolando em sua lentidão melancólica. Te acalma, minha loucura! Simplesmente a Doce presença (Ivan Lins e Vitor Martins) de Nana Caymmi e César Camargo: “Já tens meu corpo minha alma meus desejos/Se olhar pra ti estou olhando pra mim mesmo/Fim da procura/Tenho fé na loucura/De acreditar que sempre estás em mim”. Recordo-me que nesta época ouvia muito o disco Voz e suor, que marca o encontro entre Nana e César. César Camargo Mariano, ao lado de Dori Caymmi e Cristovão Bastos, é um dos maiores arranjadores da música popular brasileira. Embora não aprecie muito a sonoridade meio “piano elétrico churrascaria” de algumas composições de Voz e Suor, os arranjos são bem elaborados e valorizam o timbre e a interpretação de Nana. A carga emocional presente na voz de Nana se funde com a gravidade do piano de César, que escande nota por nota, às vezes meio jobinianamente, como em Sede, de Moraes Moreira. César inicia a gravação marcando ritmicamente, enquanto Nana passeia pelas entranhas dos semitons. Nana é Caymmi e arrebatadora, sempre.

Nina Simone intensifica o clima in, cantando e tocando The other Woman, com sua interpretação absolutamente blue. É poderosa a voz áspera e rascante de Nina, acompanhada pelo trio cool composto por piano, baixo e bateria. Quando gravei essa fita meu desejo se inclinava para a criação de uma atmosfera noir, meio cult. Talvez eu quisesse transformar minha amiga (a professora) e seu marido no casal Jean Seberg e Jean Paul Belmondo em Acossado ou em Maria Schneider e Marlon Brando em O último Tango.

A propósito, sou fascinada pela trilha sonora de Gato Barbieri para o filme de Bertolluci, e minha vontade era colocá-la inteira no minúsculo espaço do lado B da fita. Na impossibilidade, elegi a versão famosa do filme. Na sequência entram Piazzolla e Gerry Mulligan tocando Twent years ago. Aumento mais o som para acompanhar a explosão “erótica” desses dois artistas incríveis. O bandoneon de Piazzola me aquece, e vai elevando a atmosfera até atingir seu ápice na bela interpretação de Ângela Rô Rô para Joana Francesa , de Chico Buarque: “Mata-me de rir/Fala-me de amor/Songes et mensonges/Sei de longe e sei de cor”. Ângela é uma excelente intérprete de Chico Buarque, vide Bárbara, De todas as maneiras e Vida. De Jeanne Morreau a tantas outras versões de Joana Francesa, tenho especial apreço pelo registro de Ângela. Me chama atenção sua compreensão do universo dramático de Chico, expressa na dinâmica de sua voz grave e calorosa e na pronúncia perfeita. Adoro Ângela.

A fita vai chegando ao fim, mas não exclui a figura sempre onipresente de Caetano Veloso. Aprecio seu pleno exercício de canção com gosto-corpo-gozo e sentido, A outra banda da terra dispensa palavras: “Amar / Dar tudo / Não ter medo / Tocar / Cantar / No mundo // Gozar a lida / Indefinidamente / Amar”.

Leia outras entrevistas e crônicas de Daniela AragãoAqui.
.
Acompanhe Daniela Aragão nas Redes

 

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Pare de Esperar: Por que 2026 é o Último “Ano Dourado” para Estes 3 Destinos

Por anos, viajantes têm repetido a mesma frase: no próximo ano. No próximo ano eu…

20 horas ago

‘Uma escuta sensível do tempo: Maristela Rocha sobre Chiquinha Gonzaga’, por Paulo Baía

O artigo “Chiquinha Gonzaga: um legado que atravessa o tempo”, assinado por Maristela Rocha, é…

22 horas ago

Andre Correa lança álbum de estreia ‘Seasons’

'Seasons', álbum de estreia do guitarrista e compositor Andre Correa, traz repertório autoral que une…

4 dias ago

Helder Viana lança single ‘Meu Amor, Minha Flor’, com participação do grupo Boca Livre

Com um time de peso formado por músicos como Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Jamil Joanes,…

4 dias ago

Caetano Veloso e Tom Veloso lançam single ‘Mais Simples’, de José Miguel Wisnik

O cantor e compositor Caetano Veloso gravou com o filho Tom Veloso a canção “Mais…

4 dias ago

Carol Pedroso lança EP ‘Eu Canto Minha Força, Meu Lugar’

EP Eu Canto Minha Força, Meu Lugar é um projeto musical de Carol Pedroso, que…

4 dias ago