Álbum ‘O Pensador’ | Nelson Angelo (Rocinante, 2019)

O Pensador” álbum do compositor, violonista e cantor Nelson Angelo, lançado em 2019, pela gravadora Rocinante. No disco, o artista revisita obras de diferentes períodos de sua carreira, apresentando novos arranjos para músicas como “A Fazenda”, “Canoa, Canoa” e “Reis e Rainhas do Macaratu”.
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O pensador – Nelson Angelo
— por Egberto Gismonti —
Foi só começar a audição do “O pensador” para eu me dar conta da saudade que estava do meu amigo Nelson Angelo!
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É impressionante, apesar de eu estar numa varanda aberta de frente pro Cristo Redentor, fiquei com a sensação de que uma janela extra, em algum lugar indescritível, se abriu na minha frente para mostrar as firulas e floreios desse amigo que tem a MÚSICA como principal companheira na vida.
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Dendágua me lembra o Brasil bom, reto, amigo que nossa geração aprendeu vendo Tom Jobim repetindo os primeiros compassos de “Águas de março” dizendo “será que a 7ª menor fica mesmo como baixo nesse acorde?” enquanto cantava: “É pau, é pedra, é o fim do caminho/ É um resto de toco, é um pouco sozinho”.
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Tínhamos a certeza de que mereceríamos a luz que estava chegando para iluminar nossa miscigenação.

A música Dendágua tem o mesmo tom da certeza elevada que finge sustentar-se num dó maior com um fá e um si, atazanando meus pensamentos. É uma beleza!
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Ponte Nova me lembra que Nelson Angelo sempre soube escolher quem chamar para embelezar ainda mais suas músicas. Nossa geração, que é mais ou menos a mesma de todos que tocam neste disco, sabe que o melhor é escolher músicos que tocam muitíssimo bem para que a nossa composição sempre fique muitíssimo melhor do que imaginamos em casa. Tem coisa melhor do que confiar em amigo? Tem coisa melhor do que ter um amigo para se confiar?
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Hotel Universo, que surpresa boa conhecer essa música que parece o melhor pretexto para compor uma sinfonia. Nelson Angelo dimensiona suas ideias de maneira singular e afiada. Fui olhar a ficha técnica e encontrei um bando de amigos, até Ronaldo Bastos que depois de décadas sem encontrar, recentemente, a vida nos deu uma composição juntos.
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A sensação que tive na primeira audição dessa música me fez lembrar da coragem e beleza que Antônio Carlos Gomes criou na ópera “Colombo”.
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Gosto de lembrar que nossa geração segue fundamentada em sonhos e desejos.

Testamento faz um tempão que não ouço nada tão resistente, firme e amoroso (como o melhor refúgio fiel que exista)! O arranjo ampara e favorece os sentimentos de certeza, tristeza, resiliência, força, recuperação e lucidez, igualmente ao verso “Soprem meus sentidos pela vida que descubro”.
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Tiro cruzado: adoro essa música desde sempre! O que eu não poderia imaginar era essa versão com a malemolência, cheia de disposição para ouvir todos os andamentos misturados e, em simultâneo, que poderia servir de verbete para sorriso ou amizade em todos os dicionários da nossa língua brasileira. E aproveito pra lembrar que a partir de agora, gosto ainda mais desse Tiro cruzado. Melhor do que isso só dois disso!
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Fazenda: essa é outra música que eu gosto demais! Fui ouvindo e pensando ser uma música nova, até que me dei conta que a saudade do meu amigo Nelson Angelo era maior que deveria. Os arranjos estão inimagináveis, perfeitos para que todas as composições se mostrem vivas, cheias de vida e esperança. Que arranjos maravilhosos! Parabéns meu amigo. Simples: certeza mesmo não tenho, mas desconfio que essa música (que quase não me lembrei conhecer), amadurou lentamente transformando-se naquela fruta que só nasce numa única árvore, crescida num pedaço do terreno da colina quase inacessível, que brota no dia e no mês específico, se não chover forte. Normalmente é chamada de iguaria. Os muito Íntimos, chamam de “simples”. Os que gostam muito, que sabem que ela apraz como uma mangada da dona Vivinha, adoram prová-la, escutá-la e saboreá-la.

No Sul do polo Norte e No Norte do polo Sul concluí que podem ser ajuntadas e respeitadas como sinônimo e antônimo. Ouvi uma e outra, também ao contrário, e gostei de pensar que Nelsinho enquanto compunha dedilhando -estava refletindo ou considerando ou viajando nas coisas que não podemos nominar ou influirmos no papel de juízes: feio e bonito / começado e acabado / acordado e dormindo / frio e quente / escuro e claro / bonito e feio. Cheguei até juntar o final da “No sul do polo norte” com o princípio da “No norte do polo sul”. Juntas me deram impressão de barato dos anos 70 sentados com os amigos no Diagonal ou no Guanabara tomando umas e outras e consertando o mundo até as quatro da manhã. Depois voltava para casa onde recuperava as forças antes de seguir consertando o mundo e até o universo se preciso fosse. Liberdade sempre faz bem.
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Canoa, canoa: a música anda sozinha e se modifica a partir do que somos. Nelson Angelo apurou o ouvido, a audição até ganhar do destino o lápis mágico que escreve música como ninguém!
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É bom lembrar que esse lápis mágico é dado somente para aqueles que merecem de verdade. Os arranjos estão super bem tocados e cheios de surpresas lindas porque os que tocaram (vejam nos créditos) não brincam em serviço, melhoram tudo que aprendem. É bom lembrar que os arranjos foram escritos pelo dono do “lápis mágico” que atende por Nelson Angelo – o Pensador. Também é bom lembrar que quando os amigos estão juntos é quase covardia. Bom demais.
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Reis e Rainhas do Maracatu: a introdução é de matar de boa! A surpresa do maracatu com suas percussões (caixa meio bêbada), seus acordes no chão como estacas dos portos seguros necessários, as vozes que andam para além e aquém dos tempos, o trombone improvisador, as vozes teimosas no tempo e nos intervalos, as segundas menores e maiores, a alegria dos Reis e Rainhas, VIVA o maracatu! Se não tivesse ninguém escutando eu bem que roubaria essa belezura toda, essa monarquia toda sem dó, sem ré, sem mi.
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Sá Julieta: quem já andou pelo Jequitinhonha; quem tem amigos nascidos nesse estado das Minas Gerais; quem gosta e precisa jogar conversa fora pra ganhar espaço na alma e preencher com mais conversa nova; quem gosta de uma provinha dos quitutes das cozinhas das mães, tias e avós mineiras; quem gosta de uma caninha pra abrir o apetite…
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Ô meu deus, quem sabe e gosta disso tudo entende que “Sá Julieta” é o sinal do fim da festa.
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Nada mais além de um bom dia ou boa noite antes de voltar pra casa e dormir mesmo vestido com a roupa da festa.
A festa foi uma delícia, obrigado.
Egberto Gismonti (outubro/2019) —

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Capa do Disco ‘O Pensador’ • Nelson Angelo • Selo Rocinante • 2019

Disco ‘O Pensador’ • Nelson Angelo • Selo Rocinante • 2019
Canções / compositores
Lado A
1. Dendágua (Nelson Angelo e Márcio Borges)
2. Ponte Nova (Nelson Angelo)
3. Hotel Universo (Nelson Angelo e Ronaldo Bastos)
4. Testamento (Nelson Angelo e Milton Nascimento)
5. Tiro cruzado (Nelson Angelo e Márcio Borges)
6. Simples (Nelson Angelo)
Lado B
1. Fazenda (Nelson Angelo)
2. No sul do polo norte (Nelson Angelo)
3. No norte do polo sul (Nelson Angelo)
4. Canoa, canoa (Nelson Angelo e Fernando Brant)
5. Reis e rainhas do maracatu (Milton Nascimento, Nelson Angelo, Novelli e Fran)
6. Sá Julieta (Nelson Angelo)
– ficha técnica –
Faixa A1 – Nelson Angelo: voz, violões, percussão, tambores adicionais; Luiz Alves: baixo acústico; Andrea Ernest Dias: flauta em sol; Cristiano Alves: clarinete; Marcio Malard: violoncelos; Tom Andrade: percussão | Faixa A2 – Nelson Angelo: voz, violão, guitarra, tambores adicionais, Wurlitzer; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Andrea Ernest Dias: flauta em sol; Cristiano Alves: clarineta; Philip Doyle: trompa; Marcio Malard: violoncelos | Faixa A3 – Nelson Angelo: voz, violão; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Tom Andrade: percussão; Thiago Amud e Sylvio Fraga: vocais; Andrea Ernest Dias: flautas; Cristiano Alves: clarinete; Marcio Malard: violoncelos | Faixa A4 – Nelson Angelo: voz, violão, guitarra, tambores adicionais, Wurlitzer; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Thiago Amud e Sylvio Fraga: vocais; Andrea Ernest Dias: flautas; Philip Doyle: trompa; Cristiano Alves: clarone | Faixa A5 – Nelson Angelo: vocal, violão, guitarra, tambores, Wurlitzer; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Tom Andrade: percussão; Thiago Amud, Sylvio Fraga e Jhe Delacroix: vocais | Faixa A6 – Nelson Angelo: voz, violão, guitarra; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Marcio Malard: violoncelos | Faixa B1 – Nelson Angelo: voz, violão, kalimba, conchas, chocalho, tambores; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Tom Andrade: percussão; Andrea Ernest Dias: flautas; Philip Doyle: trompa; Cristiano Alves: clarone; Marcio Malard: violoncelos | Faixa B2 – Nelson Angelo: violão, guitarra, tambores; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Sylvio Fraga: efeitos no space echo; Pepê Monnerat: minimoog | Faixa B3 – Nelson Angelo: violão, guitarra, tambores; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão | Faixa B4 – Nelson Angelo: voz, guitarra, violão, piano; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Tom Andrade: percussão; Andrea Ernest Dias: piccolo e flauta; Philip Doyle: trompa; Cristiano Alves: clarone; Marcio Malard: violoncelo | Faixa B5 – Raul de Souza: trombone (participação especial); Nelson Angelo: voz, violões, tambores adicionais; Luiz Alves: baixo acústico; Esdra Neném Ferreira: bateria; Robertinho Silva: percussão; Marcelo Martins: sax tenor; Jonas Hocherman: trombone; Thiago Amud, Sylvio Fraga, Ana Martins, Ilessi, Renata Chiquetto: coro | Faixa B6 – Nelson Angelo: voz, vocais, guitara, percussão; Thiago Amud, Sylvio Fraga, Jhe Delacroix, Jonathan Dias: vocais | Direção musical e arranjos: Nelson Angelo | Idealização: Sylvio Fraga, Thiago Amud e Nelson Angelo | Gravação: Duda Mello e Renato Godoy | Gravação adicional: Pepê Monnerat e Edu Costa | Gravado nos Estúdio Rocinante, Rockit Estúdios, Estúdio Jimo e Estúdio NAC | Mistura: Pedro Paulo Monnerat | Masterização: Katsuhiko Naito | Projeto gráfico: Lula Rocha | Fotografia: João Atala | Produção executiva: Izabel Bellizzi e Sylvio Fraga | Texto contracapa: Egberto Gismonti | Capa / arte – Le Penseur – Jean-Michel Folon, 1973 . Serigrafia 101x79cm / Obra gentilmente cedida pela Fundação Folon – @FondationFolon /@Adagp219 | Assessoria de imprensa: Pantim Comunicação / Dayw Vilar e Tathianna Nunes | Selo: Rocinante | Cat.: R007 | Formato: CD digital / LP vinil | Ano: 2019 | Lançamento: 18 de outubro | ♪Ouça o álbum: Spotify / Deezer / Tidal / Apple Music | ♩Compre o LP vinil: clique aqui.

Siga: @nelsonangelooficial / @rocinantegravadora
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Série: Discografia da Música Brasileira / Memória discográfica / Memória Musical Brasileira /  MPB / Jazz / Canção / Álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske.

 


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