Nos últimos anos há um interesse renovado em novas óperas brasileiras – e que elas sejam gravadas é um passo importante para a criação de um repertório. É excelente, portanto, o registro da ópera O machete, que André Mehmari que estreou no Theatro São Pedro de São Paulo em 2023. Mehmari reuniu forças para, à frente de uma orquestra formada especialmente para o projeto, reger a partitura, liderando um grande elenco, com cantores como o baixo-barítono Vinicius Costa, a mezzo soprano Juliana Taino e a soprano Laryssa Alvarazi. Também participa, como solista, o violoncelista Rafael Cesário – um grupo de primeira linha que conta a história baseada em conto de Machado de Assis (Mehmari também tem outra ópera baseada no autor, À procura da flor, estreada em Vitória em 2022). Mehmari define a obra como uma ópera-choro que explora a musicalidade do texto de Machado e simboliza a multiplicidade de influências que fazem do compositor um criador sui generis no cenário nacional, com uma identidade musical sólida e cada vez mais rica e sofisticada.
O machete de André Mehmari
– por Irineu Franco Perpetuo –
A primeira ópera-choro brasileira só podia vir de um músico com trânsito livre em ambas essas áreas. André Mehmari bebeu na fonte da fina ironia do Bruxo do Cosme Velho para realizar, em O Machete, uma das mais gloriosas partituras do teatro musical brasileiro.
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Difícil acreditar que uma obra que exala tamanho bom humor tenha surgido em um dos momentos mais calamitosos da história recente não apenas de nosso país, mas de todo o mundo. O Machete nasceu em 2020, como uma ópera de câmara encomendada pelo projeto Sinos, parceria entre a Funarte e a UFRJ. Mehmari recebeu a incumbência de escrever uma ópera com libreto do próprio compositor (a partir de material em domínio público), sem coro, de instrumentação reduzida e dificuldade técnica ao alcance de grupos e solistas jovens. E a realizou em quatro meses, durante a tenebrosa quarentena imposta pela pandemia de Covid-19.
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Após cogitar diversos temas, o compositor voltou-se à fonte primordial que é Machado de Assis (1839-1908). Vale lembrar que Mehmari compôs outra opera machadiana: A Procura da Flor, com libreto de Geraldo Carneiro inspirado em Esaú e Jacó, e encenada pelo Festival de Música Erudita do Espírito Santo em 2022. E sonha em fechar uma trilogia deste verdadeiro “pai fundador” da literatura moderna brasileira com O Alienista.
Para esta ópera, Mehmari garimpou o conto O Machete, de 1878, cujo protagonista, Inácio Ramos, violoncelista, perde a mulher, Carlota, para Barbosa, que a seduz tocando algo que “não era Weber nem Mozart; era uma cantiga do tempo e da rua, obra de ocasião”. Seu instrumento? O machete, que o dicionário Houaiss define como “instrumento de origem portuguesa, maior que o cavaquinho e menor que a viola, com quatro ou cinco cordas duplas e dedilháveis, afinadas em quintas”.
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Em Iniciação à literatura brasileira, Antonio Candido ressalta que a obra machadiana “tem, sobretudo, a possibilidade de ser reinterpretada à medida que o tempo passa, porque, tendo uma dimensão profunda de universalidade, funciona como se se dirigisse a cada época que surge“. Em O Machete, Machado parece dirigir-se diretamente a Mehmari, que, embora seja um dos mais requisitados compositores brasileiros do terceiro milênio, volta e meia tem de se defrontar com filhotes extemporâneos de Adorno, a patrulhá-lo pelo “impuro” elemento popular em sua música.
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O libreto também é de sua autoria do compositor, e ele conseguiu escapar do defeito que costuma acometer os neofitos no campo da ópera, que é a prolixidade, Além de escolher um conto conciso, Mehmari não se derrama em excessos de palavras, deixando espaço para a música respirar. Manejando a dicção brasileira do português com bom gosto e sabedoria, emprega também no libreto o procedimento que se tornou marca registrada de sua música, ao trazer para o texto linhas de Olavo Bilac, Gregório de Mattos, Castro Alves, uma tradução para o português da célebre Habanera, da Carmen, de Bizet, bem como as letras de canções de Chiquinha Gonzaga às quais, contudo, -adiciona sua própria música.
Chiquinha e uma das paixões de Mehmari, o “pianeiro” Ernesto Nazareth, integram a teia de citações musicais que engendram o tecido da ópera. Aproximando o contínuo barroco da linguagem do choro, o compositor brinca com alusões mais ou menos explícitas, que vão de Bach e Monteverdi a Brahms e Villa-Lobos, com toques de Tom Jobim, Beethoven e Mozart, em uma refinada manipulação dos afetos musicais, em que às vezes uma citação pode se esvair mesmo antes de ser completamente assimilada, para dar lugar a outra que poderia parecer descabida, mas funciona à perfeição nesse mosaico pós-moderno de referências.
A escrita vocal é também primorosa, explorando o que cada registro pode entregar de melhor, sem tensionar demasiado as tessituras, nem empregar intervalos incômodos. No tratamento do texto, Mehmari alia a atenção ao significado que vem da escola barroca à inteligibilidade do português brasileiro dos afetos musicais, em que às vezes uma citação pode se esvair mesmo antes de ser completamente assimilada, para dar lugar a outra que poderia parecer descabida, mas funciona à perfeição nesse mosaico pós-moderno de referências.
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A escrita vocal é também primorosa, explorando o que cada registro pode entregar de melhor, sem tensionar demasiado as tessituras, nem empregar intervalos incômodos. No tratamento do texto, Mehmari alia a atenção ao significado que vem da escola barroca à inteligibilidade do português brasileiro que caracteriza a MPB.
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Compositor, libretista e executante do cravo barroco-chorão, Mehmari, nesta gravação de O Machete, estreia também como regente objetivo, educado e preciso. É fundamental sua química com Rafael Cesario, de sonoridade cálida e musicalidade exuberante, escalado para tocar a parte solista de violoncelo que o compositor previu como uma espécie de alter ego musical de Inácio. E também com as jovens e valorosas vozes escolhidas para o elenco, assim como com o dream team de instrumentistas refinados que montaram a orquestra reunida especialmente para o projeto e que abraçou O Machete com carinho e compromisso.
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Realizado no Estúdio Monteverdi – idealizado e construído por Mehmari, e que se tornou paradigma de excelência em projetos fonográficos em nosso país este disco afirma de forma vigorosa um ideal musical inclusivo que corresponde ao melhor sonho do que o Brasil pode e deveria ser.
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— “Não por acaso, André Mehmari é o músico que melhor personifica uma postura criativa inclusiva. Ou seja, Mehmari é ao mesmo tempo Inácio & Barbosa, Pestana & Monteverdi. Melhor ainda: é o retrato mais fiel e multifacetado das músicas brasileiras.
Neste momento histórico em que a diversidade é decididamente – ao que parece – abraçada pelas artes e a cultura no país, Mehmari coloca sua síntese virtuosa destes dois polos no palco, em forma de ópera neobarroca, com direito a improvisos no cravo.” – João Marcos Coelho

Disco ‘O Machete’ • Ópera de André Mehmari (2021) • Selo Estúdio Monteverdi • 2025
— O Machete (2021) | Música e libreto de André Mehmari a partir do conto de Machado de Assis — A meu pai Chukri Mehmari
Músicas / compositor – André Mehmari
OVERTURE
1. Abertura Orquestral
2. Deus ajuda a quem cedo madruga
3. Et in terra pax
PRIMEIRO QUADRO
4. Crux fidelis
5. Duelo de Rabeca e cello
6. Junger mann, ignácius
SEGUNDO QUADRO
7. Filho amado
8. Ó minha mãe adorada!
9. Pequeno Requiem
10. Prelúdio Orquestral
11. Toque um pouco do teu violoncelo
12. Amo-te assim, desconhecida e obscura
13. Nem só desejo o teu amor
14. A melhor coisa do mundo!
15. Lindo! lindo! lindo!
16. Minha musa, companheira
17. Quando nosso filho nascer
18. Se for Menino violoncelo, se for menina harpa
TERCEIRO QUADRO
19. Prelúdio Orquestral
20. Que alma de anjo!
21. Veja só que maravilha!
22. Neste mundo de misérias
23. Viu só, Inácio?
24. Eu adoro uma morena sacudida
25. Eu tenho o coração em festa
26. Mais saraus como esse por favor!
27. Não profanemos a arte!
28. Nas próximas férias, vou estudar Machete
29. Interlúdio orquestral
30. O pássaro que você pensou surpreender
31. Oh mia vita, oh meu tesouro!
32. Oh, meu divino artista…
33. Ouvir Estrelas
34. E isto é o amor?
35. Corta-jaca final
– ficha técnica –
Música, libreto, regência, cravo, rabeca e direção musical: André Mehmari | Violoncelo solista e arregimentação: Rafael Cesário | Pianista ensaiador: Leandro Roverso || Cantores – Inácio: Wilian Fernando | Amaral e Pai: Vinicius Costa | Carlota: Laryssa Alvarazi | Mãe: Joyce Tripiciano | Barbosa: Robert Willian | Preta: Juliana Taino | Professor: Fúlvio Souza | Amigo de Inácio e Barbosa: André Mehmari || Orquestra – Spalla: Alejandro Aldana | Violinos I: Gabriela Queiroz, Cuca Moreira, Liliana Chiriac | Violinos II : Ariel Sanches, Marcos Scheffel, Thais Morais | Violas: Gabriel Marin, Elisa Monteiro, Iberê Carvalho | Violoncelos: Alceu Reis, Eduardo Bello, Deni Rocha | Contrabaixo: Thiago Hessel | Flauta: Marco André dos Santos | Oboé: Joel Gisiger | Clarinete: Ovanir Buosi | Fagote: Fabio Cury | Trompa 1: Thiago Ariel | Trompa 2: Douglas Costa || O Machete (2021) – Música e libreto de André Mehmari a partir do conto de Machado de Assis | Gravado, mixado e masterizado por André Mehmari no Estúdio Monteverdi, Serra da Cantareira, em Julho de 2025 || Equipe – Estúdio Monteverdi @estudiomonteverdi – Produtora executiva: Fabrizia Gallan | Assistente de estúdio: Gustavo Cândido | Textos do encarte: Irineu Franco Perpetuo e André Mehmari| Ilustrações e design gráfico: Larissa da Cruz | Fotos: Tarita de Souza | Produção audiovisual: Rawziski Registros Musicais | Câmeras: Diogo Gauziski, Thamires Mulatinho | Edição de vídeo: Diogo Gauziski | Manutenção do Cravo: Corentin Charlot | Alterações artes para redes sociais: Paula Cancian | Agradecimentos especiais: Projeto SINOS; Marcelo Jardim; Rafael Cesario; Paulo Zuben; José Miguel Wisnik; Cláudio Cruz; Clarissa, Chukri e Cacilda Mehmari; Fabrizia Nascimento || Ópera encomenda pelo Projeto Sistema Nacional de Orquestras Sociais – SINOS, do programa Arte de Toda Gente – Funarte/UFRJ | O projeto “Gravação da ópera O Machete” foi contemplado pelo Proac Edital Fomento CULTSP – PNAB nº 24/2024 | Selo: Estúdio Monteverdi | Cat. 0631685196759 | Distribuição digital: Tratore | Formato: CD / Digital | Ano: 2025 | Lançamento: 7 de novembro | ♪Ouça o álbum: Youtube / Spotify | ♩Assista o mini-doc: clique aqui.

A CONSTRUÇÃO DE O MACHETE
– por André Mehmari –
Se por minha natureza, produção e procura estética durante a vida inteira me fizeram comentar acerca das tais fronteiras entre o “erudito” e o “popular”, O Machete é até o momento minha mais profunda e completa reflexão sobre o assunto, já que uma obra é sempre a melhor análise de outra e prescinde dos rituais acadêmicos.
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Essa composição e seu presente registro é, para mim, representativa vitória estética. E mais: esse sonho-visão foi plenamente abraçado e compartilhado por um time de excelência, totalmente comprometido com o texto e proposta musical.
Destaco alguns elementos-chave na escrita da ópera:
O uso de um basso continuo cifrado ao longo de toda peça é uma conexão com o gestual barroco que me é tão caro: e que encontra eco em práticas modernas no ambiente da canção brasileira, do jazz e não somente. O baixo continuo nesta gravação é tocado por mim ao cravo mas pode – e deve conforme escrito na partitura, ser tocado por qualquer instrumento harmônico que seja capaz de “decifrar” e desenrolar o código sintético contido na partitura, expandindo-o em um discurso sensível informado pelo estilo, interagindo ativamente com os solistas e orquestra.
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Encontrei também um elo nítido entre o choro brasileiro e o bel canto, podendo assim investigar e pensar mais a fundo sobre a ancestralidade de minha própria brasilidade musical, plural em sua essência. É claro, nosso próprio hino nacional é um exemplo, com seu desafiante trítono em “plácidas”! Uma polca de Patápio Silva contém bem uma aria de ópera em seu DNA mestiço e a ornamentação de sua flauta é claramente vocal em suas coloraturas esvoaçantes. Da mesma forma o quarteto de madeiras da orquestra comenta, amplifica e explode os múltiplos (por vezes ambíguos) sentidos do texto contido no libreto, com o suporte de duas trompas encarregadas do amálgama harmônico da obra. Já o violoncelo solista é a expansão sonora da alma lírica brasileira de Inácio, que reverbera Lua Branca em Melodia Sentimental, convidando sua amada a contemplar e “sentir” o clarão da lua cheia roçar o mar da Guanabara.
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Tendo desde o princípio de minha vida frequentado ambientes musicais dos mais diversos, sempre como um nativo e nunca como turista, construí parcerias e amizades duradouras com uma infinidade de “Inácios e Barbosas” contemporâneos meus, muitas vezes apresentando-os uns aos outros e promovendo entre eles encontros frutíferos. Esbarrei por vezes também, claro, na demagogia achatada de um eurocentrista Amaral, figura ainda infelizmente recorrente em certos ambientes. “As polcas incultas e belas, os maxixes sem pudor… deixe para que no inferno façam bailar o diabo”. Ou ainda “Madame diz que a raça não melhora, que a vida piora por causa do samba.” A estes “puristas” dediquei gentilmente duas árias bem no estilo da ópera buffa.
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E… se Inácio não tivesse enlouquecido e seguido seu impulso criativo, compondo um concerto para violoncelo, cavaco e orquestra? Certamente teria inspirado Ernesto Nazareth a compor o seu e convidado Machado a escrever mais um de seus deliciosos e sagazes contos-crônicas sobre a rica interface entre música e sociedade na aurora dum Brasil urbano. Na plateia se poderia avistar uma viçosa Carlota acompanhada de Chiquinha Gonzaga, primeira grande compositora brasileira conhecida e profusamente homenageada/citada nesta ópera. Se tal improvável conjunção de forças no século XIX só poderia existir na fértil fantasia de um sonhador romântico, em pleno pós pandêmico século XXI, muito desconcertantemente, segue sendo uma utopia de um Brasil sonhado, feliz, orgulhoso, atento e consciente de sua natureza mestiça, plenamente despido do complexo de vira-latas.
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Num tempo em que as nomenclaturas e denominações binárias se mostram a cada dia mais ineficientes e soam um tanto caducas, O Machete destemidamente traz ao baile uma música teatral de encontro muito viva, não aderente a etiquetas e compartimentos artificiais ainda vigentes por hábito, conveniência ou até preguiça: sim, aqui se deseja uma arte do abraço possível entre correntes de linguagens musicais que se escutam atentamente, curiosamente se cutucam, afetuosamente se namoram, se entendem, amaxixadamente se misturam, se reverenciam e complementam preservando e enaltecendo a beleza e a alegria humanista de sua natural e sempre bem-vinda diversidade. Evoé! Que assim seja!

O CONTO
O MACHETE | MACHADO DE ASSIS
{de Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 / Publicado originalmente em Jornal das Famílias, 1878}
Inácio Ramos contava apenas dez anos quando manifestou decidida vocação musical. Seu pai, músico da imperial capela, ensinou-lhe os primeiros rudimentos da sua arte, de envolta com os da gramática de que pouco sabia. Era um pobre artista cujo único mérito estava na voz de tenor e na arte com que executava a música sacra. Inácio, conseguintemente, aprendeu melhor a música do que a língua, e aos quinze anos sabia mais dos bemóis que dos verbos. Ainda assim sabia quanto bastava para ler a história da música e dos grandes mestres. A leitura seduziu-o ainda mais; atirou-se o rapaz com todas as forças da alma à arte do seu coração, e ficou dentro de pouco tempo um rabequista de primeira categoria.
A rabeca foi o primeiro instrumento escolhido por ele, como o que melhor podia corresponder às sensações de sua alma. Não o satisfazia, entretanto, e ele sonhava alguma coisa melhor. Um dia veio ao Rio de Janeiro um velho alemão, que arrebatou o público tocando violoncelo. Inácio foi ouvi-lo. Seu entusiasmo foi imenso; não somente a alma do artista comunicava com a sua como lhe dera a chave do segredo que ele procurara.
Inácio nascera para o violoncelo.
Daquele dia em diante, o violoncelo foi o sonho do artista fluminense. Aproveitando a passagem do artista germânico, Inácio recebeu dele algumas lições, que mais tarde aproveitou quando, mediante economias de longo tempo, conseguiu possuir o sonhado instrumento.
Já a esse tempo seu pai era morto. — Restava-lhe sua mãe, boa e santa senhora, cuja alma parecia superior à condição em que nascera, tão elevada tinha a concepção do belo. Inácio contava vinte anos, uma figura artística, uns olhos cheios de vida e de futuro. Vivia de algumas lições que dava e de alguns meios que lhe advinham das circunstâncias, tocando ora num teatro, ora num salão, ora numa igreja. Restavam-lhe algumas horas, que ele empregava ao estudo do violoncelo.
Havia no violoncelo uma poesia austera e pura, uma feição melancólica e severa que casavam com a alma de Inácio Ramos. A rabeca, que ele ainda amava como o primeiro veículo de seus sentimentos de artista, não lhe inspirava mais o entusiasmo antigo. Passara a ser um simples meio de vida; não a tocava com a alma, mas com as mãos; não era a sua arte, mas o seu ofício. O violoncelo sim; para esse guardava Inácio as melhores das suas aspirações íntimas, os sentimentos mais puros, a imaginação, o fervor, o entusiasmo. Tocava a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe.
Moravam ambos em lugar afastado, em um dos recantos da cidade, alheios à sociedade que os cercava e que os não entendia. Nas horas de lazer, tratava Inácio do querido instrumento e fazia vibrar todas as cordas do coração, derramando as suas harmonias interiores, e fazendo chorar a boa velha de melancolia e gosto, que ambos estes sentimentos lhe inspirava a música do filho. Os serões caseiros quando Inácio não tinha de cumprir nenhuma obrigação fora de casa, eram assim passados; sós os dois, com o instrumento e o céu de permeio.
A boa velha adoeceu e morreu. Inácio sentiu o vácuo que lhe ficava na vida. Quando o caixão, levado por meia dúzia de artistas seus colegas, saiu da casa, Inácio viu ir ali dentro todo o passado, e presente, e não sabia se também o futuro. Acreditou que o fosse. A noite do enterro foi pouca para o repouso que o corpo lhe pedia depois do profundo abalo; a seguinte porém foi a data da sua primeira composição musical. Escreveu para o violoncelo uma elegia que não seria sublime como perfeição de arte, mas que o era sem dúvida como inspiração pessoal. Compô-la para si; durante dois anos ninguém a ouviu nem sequer soube dela.
A primeira vez que ele troou aquele suspiro fúnebre foi oito dias depois de casado, um dia em que se achava a sós com a mulher, na mesma casa em que morrera sua mãe, na mesma sala em que ambos costumavam passar algumas horas da noite. Era a primeira vez que a mulher o ouvia tocar violoncelo. Ele quis que a lembrança da mãe se casasse àquela revelação que ele fazia à esposa do seu coração: vinculava de algum modo o passado ao presente.
— Toca um pouco de violoncelo, tinha-lhe dito a mulher duas vezes depois do consórcio; tua mãe me dizia que tocavas tão bem!
— Bem, não sei, respondia Inácio; mas tenho satisfação em tocá-lo.
— Pois sim, desejo ouvir-te!
— Por hora, não, deixa-me contemplar-te primeiro.
Ao cabo de oito dias, Inácio satisfez o desejo de Carlotinha. Era de tarde, — uma tarde fria e deliciosa. O artista travou do instrumento, empunhou o arco e as cordas gemeram ao impulso da mão inspirada. Não via a mulher, nem o lugar, nem o instrumento sequer: via a imagem da mãe e embebia-se todo em um mundo de harmonias celestiais. A execução durou vinte minutos. Quando a última nota expirou nas cordas do violoncelo, o braço do artista tombou, não de fadiga, mas porque todo o corpo cedia ao abalo moral que a recordação e a obra lhe produziam.
— Oh! lindo! lindo! exclamou Carlotinha levantando-se e indo ter com o marido.
Inácio estremeceu e olhou pasmado para a mulher. Aquela exclamação de entusiasmo destoara-lhe, em primeiro lugar porque o trecho que acabava de executar não era lindo, como ela dizia, mas severo e melancólico e depois porque, em vez de um aplauso ruidoso, ele preferia ver outro mais consentâneo com a natureza da obra, — duas lágrimas que fossem, — duas, mas exprimidas do coração, como as que naquele momento lhe sulcavam o rosto.
Seu primeiro movimento foi de despeito, — despeito de artista, que nele dominava tudo. Pegou silencioso no instrumento e foi pô-lo a um canto. A moça viu-lhe então as lágrimas; comoveu-se e estendeu-lhe os braços.
Inácio apertou-a ao coração.
Carlotinha sentou-se então, com ele, ao pé da janela, donde viam surgir no céu as primeiras estrelas. Era uma mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove, mais baixa que alta, rosto amorenado, olhos negros e travessos. Aqueles olhos, expressão fiel da alma de Carlota, contrastavam com o olhar brando e velado do marido. Os movimentos da moça eram vivos e rápidos, a voz argentina, a palavra fácil e correntia, toda ela uma índole, mundana e jovial. Inácio gostava de ouvi-la e vê-la; amava-a muito, e, além disso, como que precisava às vezes daquela expressão de vida exterior para entregar-se todo às especulações do seu espírito.
Carlota era filha de um negociante de pequena escala, homem que trabalhou a vida toda como um mouro para morrer pobre, porque a pouca fazenda que deixou, mal pôde chegar para satisfazer alguns empenhos. Toda a riqueza da filha era a beleza, que a tinha, ainda que sem poesia nem ideal. Inácio conhecera-a ainda em vida do pai, quando ela ia com este visitar sua velha mãe; mas só a amou deveras, depois que ela ficou órfã e quando a alma lhe pediu um afeto para suprir o que a morte lhe levara.
A moça aceitou com prazer a mão que Inácio lhe oferecia. Casaram-se a aprazimento dos parentes da moça e das pessoas que os conheciam a ambos. O vácuo fora preenchido.
Apesar do episódio acima narrado, os dias, as semanas e os meses correram tecidos de ouro para o esposo artista. Carlotinha era naturalmente faceira e amiga de brilhar; mas contentava-se com pouco, e não se mostrava exigente nem extravagante. As posses de Inácio Ramos eram poucas; ainda assim ele sabia dirigir a vida de modo que nem o necessário lhe faltava nem deixava de satisfazer algum dos desejos mais modestos da moça. A sociedade deles não era certamente dispendiosa nem vivia de ostentação; mas qualquer que seja o centro social há nele exigências a que não podem chegar todas as bolsas. Carlotinha vivera de festas e passatempos; a vida conjugal exigia dela hábitos menos frívolos, e ela soube curvar-se à lei que de coração aceitara.
Demais, que há aí que verdadeiramente resista ao amor? Os dois amavam-se; por maior que fosse o contraste entre a índole de um e outro, ligava-os e irmanava-os o afeto verdadeiro que os aproximara. O primeiro milagre do amor fora a aceitação por parte da moça do famoso violoncelo. Carlotinha não experimentava decerto as sensações que o violoncelo produzia no marido, e estava longe daquela paixão silenciosa e profunda que vinculava Inácio Ramos ao instrumento; mas acostumara-se a ouvi-lo, apreciava-o, e chegara a entendê-lo alguma vez.
A esposa concebeu. No dia em que o marido ouviu esta notícia sentiu um abalo profundo; seu amor cresceu de intensidade.
— Quando o nosso filho nascer, disse ele, eu comporei o meu segundo canto.
— O terceiro será quando eu morrer, não? perguntou a moça com um leve tom de despeito.
— Oh! não digas isso!
Inácio Ramos compreendeu a censura da mulher; recolheu-se durante algumas horas, e trouxe uma composição nova, a segunda que lhe saía da alma, dedicada à esposa. A música entusiasmou Carlotinha, antes por vaidade satisfeita do que porque verdadeiramente a penetrasse. Carlotinha abraçou o marido com todas as forças de que podia dispor, e um beijo foi o prêmio da inspiração. A felicidade de Inácio não podia ser maior; ele tinha tido o que ambicionava: vida de arte, paz e ventura doméstica, e enfim esperanças de paternidade.
— Se for menino, dizia ele à mulher, aprenderá violoncelo; se for menina, aprenderá harpa. São os únicos instrumentos capazes de traduzir as impressões mais sublimes do espírito.
Nasceu um menino. Esta nova criatura deu uma feição nova ao lar doméstico. A felicidade do artista era imensa; sentiu-se com mais força para o trabalho, e ao mesmo tempo como que se lhe apurou a inspiração.
A prometida composição ao nascimento do filho foi realizada e executada, não já entre ele e a mulher, mas em presença de algumas pessoas de amizade. Inácio Ramos recusou a princípio fazê-lo; mas a mulher alcançou dele que repartisse com estranhos aquela nova produção de um talento. Inácio sabia que a sociedade não chegaria talvez a compreendê-lo como ele desejava ser compreendido; todavia cedeu. Se acertara aos seus receios não o soube ele, porque dessa vez, como das outras, não viu ninguém; viu-se e ouviu-se a si próprio, sendo cada nota um eco das harmonias santas e elevadas que a paternidade acordara nele.
A vida correria assim monotonamente bela, e não valeria a pena escrevê-la, a não ser um incidente, ocorrido naquela mesma ocasião.
A casa em que eles moravam era baixa, ainda que assaz larga e airosa. Dois transeuntes, atraídos pelos sons do violoncelo, aproximaram-se das janelas entrefechadas, e ouviram do lado de fora cerca de metade da composição. Um deles, entusiasmado com a composição e a execução, rompeu em aplausos ruidosos quando Inácio acabou, abriu violentamente as portas da janela e curvou-se para dentro gritando.
— Bravo, artista divino!
A exclamação inesperada chamou a atenção dos que estavam na sala; voltaram-se todos os olhos e viram duas figuras de homem, um tranqüilo, outro alvoroçado de prazer. A porta foi aberta aos dois estranhos. O mais entusiasmado deles correu a abraçar o artista.
— Oh! alma de anjo! exclamava ele. Como é que um artista destes está aqui escondido dos olhos do mundo?
O outro personagem fez igualmente cumprimentos de louvor ao mestre do violoncelo; mas, como ficou dito, seus aplausos eram menos entusiásticos; e não era difícil achar a explicação da frieza na vulgaridade de expressão do rosto.
Estes dois personagens assim entrados na sala eram dois amigos que o acaso ali conduzira. Eram ambos estudantes de direito, em férias; o entusiasta, todo arte e literatura, tinha a alma cheia de música alemã e poesia romântica, e era nada menos que um exemplar daquela falange acadêmica fervorosa e moça animada de todas as paixões, sonhos, delírios e efusões da geração moderna; o companheiro era apenas um espírito medíocre, avesso a todas essas coisas, não menos que ao direito que aliás forcejava por meter na cabeça.
Aquele chamava-se Amaral, este Barbosa.
Amaral pediu a Inácio Ramos para lá voltar mais vezes. Voltou; o artista de coração gastava o tempo a ouvir o de profissão fazer falar as cordas do instrumento. Eram cinco pessoas; eles, Barbosa, Carlotinha, e a criança, o futuro violoncelista. Um dia, menos de uma semana depois, Amaral descobriu a Inácio que o seu companheiro era músico.
— Também! exclamou o artista.
— É verdade; mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele sorrindo.
— Que instrumento toca?
— Adivinhe.
— Talvez piano…
— Não.
— Flauta?
— Qual!
— É instrumento de cordas?
— É.
— Não sendo rabeca… disse Inácio olhando como a esperar uma confirmação.
— Não é rabeca; é machete.
Inácio sorriu; e estas últimas palavras chegaram aos ouvidos de Barbosa, que confirmou a notícia do amigo.
— Deixe estar, disse este baixo a Inácio, que eu o hei de fazer tocar um dia. É outro gênero…
— Quando queira.
Era efetivamente outro gênero, como o leitor facilmente compreenderá. Ali postos os quatro, numa noite da seguinte semana, sentou-se Barbosa no centro da sala, afinou o machete e pôs em execução toda a sua perícia. A perícia era, na verdade, grande; o instrumento é que era pequeno. O que ele tocou não era Weber nem Mozart; era uma cantiga do tempo e da rua, obra de ocasião. Barbosa tocou-a, não dizer com alma, mas com nervos. Todo ele acompanhava a gradação e variações das notas; inclinava-se sobre o instrumento, retesava o corpo, pendia a cabeça ora a um lado, ora a outro, alçava a perna, sorria, derretia os olhos ou fechava-os nos lugares que lhe pareciam patéticos. Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo.
Foi um sucesso, — um sucesso de outro gênero, mas perigoso, porque, tão depressa Barbosa ouviu os cumprimentos de Carlotinha e Inácio, começou segunda execução, e iria a terceira, se Amaral não interviesse, dizendo:
— Agora o violoncelo.
O machete de Barbosa não ficou escondido entre as quatro partes da sala de Inácio Ramos; dentro em pouco era conhecida a forma dele no bairro em que morava o artista, e toda a sociedade deste ansiava por ouvi-lo.
Carlotinha foi a denunciadora; ela achara infinita graça e vida naquela outra música, e não cessava de o elogiar em toda a parte. As famílias do lugar tinham ainda saudades de um célebre machete que ali tocara anos antes o atual subdelegado, cujas funções elevadas não lhe permitiram cultivar a arte. Ouvir o machete de Barbosa era reviver uma página do passado.
— Pois eu farei com que o ouçam, dizia a moça.
Não foi difícil.
Houve dali a pouco reunião em casa de uma família da vizinhança. Barbosa acedeu ao convite que lhe foi feito e lá foi com o seu instrumento. Amaral acompanhou-o.
— Não te lastimes, meu divino artista; dizia ele a Inácio; e ajuda-me no sucesso do machete.
Riam-se os dois, e mais do que eles se ria Barbosa, riso de triunfo e satisfação porque o sucesso não podia ser mais completo.
— Magnífico!
— Bravo!
— Soberbo!
— Bravíssimo!
O machete foi o herói da noite. Carlota repetia às pessoas que a cercavam:
— Não lhes dizia eu? é um portento.
— Realmente, dizia um crítico do lugar, assim nem o Fagundes…
Fagundes era o subdelegado.
Pode-se dizer que Inácio e Amaral foram os únicos alheios ao entusiasmo do machete. Conversavam eles, ao pé de uma janela, dos grandes mestres e das grandes obras da arte.
— Você por que não dá um concerto? perguntou Amaral ao artista.
— Oh! não.
— Por quê?
— Tenho medo…
— Ora, medo!
— Medo de não agradar…
— Há de agradar por força!
— Além disso, o violoncelo está tão ligado aos sucessos mais íntimos da minha vida, que eu o considero antes como a minha arte doméstica…
Amaral combatia estas objeções de Inácio Ramos; e este fazia-se cada vez mais forte nelas. A conversa foi prolongada, repetiu-se daí a dois dias, até que no fim de uma semana, Inácio deixou-se vencer.
— Você verá, dizia-lhe o estudante, e verá como todo o público vai ficar delirante.
Assentou-se que o concerto seria dali a dois meses. Inácio tocaria uma das peças já compostas por ele, e duas de dois mestres que escolheu dentre as muitas.
Barbosa não foi dos menos entusiastas da ideia do concerto. Ele parecia tomar agora mais interesse nos sucessos do artista, ouvia com prazer, ao menos aparente, os serões de violoncelo, que eram duas vezes por semana. Carlotinha propôs que os serões fossem três; mas Inácio nada concedeu além dos dois. Aquelas noites eram passadas somente em família; e o machete acabava muita vez o que o violoncelo começava. Era uma condescendência para com a dona da casa e o artista! — o artista do machete.
Um dia Amaral olhou Inácio preocupado e triste. Não quis perguntar-lhe nada; mas como a preocupação continuasse nos dias subsequentes, não se pôde ter e interrogou-o. Inácio respondeu-lhe com evasivas.
— Não, dizia o estudante; você tem alguma coisa que o incomoda certamente.
— Coisa nenhuma!
E depois de um instante de silêncio:
— O que tenho é que estou arrependido do violoncelo; se eu tivesse estudado o machete!
Amaral ouviu admirado estas palavras; depois sorriu e abanou a cabeça. Seu entusiasmo recebera um grande abalo. A que vinha aquele ciúme por causa do efeito diferente que os dois instrumentos tinham produzido? Que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?
— Não podias ser perfeito, dizia Amaral consigo; tinhas por força um ponto fraco; infelizmente para ti o ponto é ridículo.
Daí em diante os serões foram menos amiudados. A preocupação de Inácio Ramos continuava; Amaral sentia que o seu entusiasmo ia cada vez a menos, o entusiasmo em relação ao homem, porque bastava ouvi-lo tocar para acordarem-se-lhe as primeiras impressões.
A melancolia de Inácio era cada vez maior. Sua mulher só reparou nela quando absolutamente se lhe meteu pelos olhos.
— Que tens? perguntou-lhe Carlotinha.
— Nada, respondia Inácio.
— Aposto que está pensando em alguma composição nova, disse Barbosa que dessas ocasiões estava presente.
— Talvez, respondeu Inácio; penso em fazer uma coisa inteiramente nova; um concerto para violoncelo e machete.
— Por que não? disse Barbosa com simplicidade. Faça isso, e veremos o efeito que há de ser delicioso.
— Eu creio que sim, murmurou Inácio.
Não houve concerto no teatro, como se havia assentado; porque Inácio Ramos de todo se recusou. Acabaram-se as férias e os dois estudantes voltaram para S. Paulo.
— Virei vê-lo daqui a pouco, disse Amaral. Virei até cá somente para ouvi-lo.
Efetivamente vieram os dois, sendo a viagem anunciada por carta de ambos.
Inácio deu a notícia à mulher, que a recebeu com alegria.
— Vêm ficar muitos dias? disse ela.
— Parece que somente três.
— Três!
— É pouco, disse Inácio; mas nas férias que vêm, desejo aprender o machete.
Carlotinha sorriu, mas de um sorriso acanhado, que o marido viu e guardou consigo.
Os dois estudantes foram recebidos como se fossem de casa. Inácio e Carlotinha desfaziam-se em obséquios. Na noite do mesmo dia, houve serão musical; só violoncelo, a instâncias de Amaral, que dizia:
— Não profanemos a arte!
Três dias vinham eles demorar-se, mas não se retiraram no fim deles.
— Vamos daqui a dois dias.
— O melhor é completar a semana, observou Carlotinha.
— Pode ser.
No fim de uma semana, Amaral despediu-se e voltou a S. Paulo; Barbosa não voltou; ficara doente. A doença durou somente dois dias, no fim dos quais ele foi visitar o violoncelista.
— Vai agora? perguntou este.
— Não, disse o acadêmico; recebi uma carta que me obriga a ficar algum tempo.
Carlotinha ouvira alegre a notícia; o rosto de Inácio não tinha nenhuma expressão.
Inácio não quis prosseguir nos serões musicais, apesar de lho pedir algumas vezes Barbosa, e não quis porque, dizia ele, não queria ficar mal com Amaral, do mesmo modo que não quereria ficar mal com Barbosa, se fosse este o ausente.
— Nada impede, porém, concluiu o artista, que ouçamos o seu machete.
Que tempo duraram aqueles serões de machete? Não chegou tal notícia ao conhecimento do escritor destas linhas. O que ele sabe apenas é que o machete deve ser instrumento triste, porque a melancolia de Inácio tornou-se cada vez mais profunda. Seus companheiros nunca o tinham visto imensamente alegre; contudo a diferença entre o que tinha sido e era agora entrava pelos olhos dentro. A mudança manifestava-se até no trajar, que era desleixado, ao contrário do que sempre fora antes. Inácio tinha grandes silêncios, durante os quais era inútil falar-lhe, porque ele a nada respondia, ou respondia sem compreender.
— O violoncelo há de levá-lo ao hospício, dizia um vizinho compadecido e filósofo.
Nas férias seguintes, Amaral foi visitar o seu amigo Inácio, logo no dia seguinte àquele em que desembarcou. Chegou alvoroçado à casa dele; uma preta veio abri-la.
— Onde está ele? Onde está ele? perguntou alegre e em altas vozes o estudante.
A preta desatou a chorar.
Amaral interrogou-a, mas não obtendo resposta, ou obtendo-a intercortada de soluços, correu para o interior da casa com a familiaridade do amigo e a liberdade que lhe dava a ocasião.
Na sala do concerto, que era nos fundos, olhou ele Inácio Ramos, de pé, com o violoncelo nas mãos preparando-se para tocar. Ao pé dele brincava um menino de alguns meses.
Amaral parou sem compreender nada. Inácio não o viu entrar; empunhara o arco e tocou, — tocou como nunca, — uma elegia plangente, que o estudante ouviu com lágrimas nos olhos. A criança, dominada ao que parece pela música, olhava quieta para o instrumento. Durou a cena cerca de vinte minutos.
Quando a música acabou, Amaral correu a Inácio.
— Oh! meu divino artista! exclamou ele.
Inácio apertou-o nos braços; mas logo o deixou e foi sentar-se numa cadeira com os olhos no chão. Amaral nada compreendia; sentia porém que algum abalo moral se dera nele.
— Que tens? disse.
— Nada, respondeu Inácio.
E ergueu-se e tocou de novo o violoncelo. Não acabou porém; no meio de uma arcada, interrompeu a música, e disse a Amaral:
— É bonito, não?
— Sublime! respondeu o outro.
— Não; machete é melhor.
E deixou o violoncelo, e correu a abraçar o filho.
— Sim, meu filho, exclamava ele, hás de aprender machete; machete é muito melhor.
— Mas que há? articulou o estudante.
— Oh! nada, disse Inácio, ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; machete é melhor.
A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu.


