Instrumental

Álbum ‘Bacia do Cobre’ | Marcelo Galter (Rocinante, 2021)

Bacia do Cobre, lançado em 2021 pela Rocinante, é o primeiro disco autoral de Marcelo Galter. Escoltado pelo baixo de seu irmão Ldson e pelas percussões de Luizinho do Jêje e Reinaldo Boaventura, ele amalgama nessa Bacia as claves de matriz africana e os “modos de transposição limitada” (escalas sistematizadas em meados do século XX pelo compositor francês Olivier Messiaen no contexto de uma vanguarda pós-tonal).
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MARCELO GALTER – BACIA DO COBRE
— por Letieres Leite —
Bacia do cobre” é a realização de um sonho meu: um piano afro-brasileiro absolutamente original. Até onde sei, não há e nem nunca houve o que Marcelo faz. É importante marcar esses territórios, inclusive para a própria música que sai da Bahia. É o piano com sotaques específicos, fazendo uma arte contemporânea ligada umbilicalmente com os sistemas de oralidade e com a metodologia da diáspora. As claves utilizadas não são necessariamente as ancestrais – muitas vezes são híbridas ou inventadas – mas a forma de organização em torno delas se mantém.
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Fora seu talento único, porque o piano de Marcelo é afro-brasileiro e original? Ele desenvolveu sua música em um ambiente muito favorável que é a cidade de Salvador, onde a presença do universo rítmico matricial é volumosa e diversa, graças à preservação praticada nos terreiros (em suas diversas nações) que cumprem o papel de verdadeiras universidades. É matéria prima fundamental para o piano de Marcelo. A maneira pela qual ele traz outros universos para essa vivência é uma coisa extraordinária. De Monk a Caymmi a Messiaen.
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Ele me disse que pensa sua música em um ambiente circular, mas eu a sinto fazendo uma espiral, me vem a imagem de uma espiral ascendente. Cheguei a dar risada com seu improviso em “Cobra coral”, pois ele traz o ritmo não sei de onde – quanta beleza naquelas divisões! Quebrando em cima do quebrado, buscando lugares perigosíssimos, à beira do abismo. Não tem saída pra ouvir essa música: ou você se joga nessa espiral ou vai ficar de fora, não tem meio termo.

Os deslocamentos de Marcelo são erigidos sobre alicerces rítmicos muito sólidos. Essa consciência lhe traz segurança para voar ainda mais alto do ponto de vista harmônico e melódico. Sempre falo que a consciência rítmica é o que mais falta aos músicos profissionais e nesse disco os quatro dão aula através de uma interação de grande sensibilidade. Aliás, apaixonados e disciplinados, fizeram mais de 40 ensaios no Terreiro do Bogum antes de gravar. Quando todos compram a briga, o trabalho vira de fato um trabalho de grupo. Ldson, Luizinho e Reinaldo, todos grandes artistas, são o solo onde as ideias de Marcelo crescem e dão frutos.
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A junção de Luizinho com Reinaldo é simplesmente genial. Cada um traz uma história singular dentro da percussão da Bahia. Luizinho é a conexão direta com a ancestralidade. Quando ninguém espera, ele lança suas flechas mágicas e a música atinge outro plano. Reinaldo investiga a música de Marcelo com absoluto rigor e assim se coloca com igual liberdade de Luizinho, mas com outra experiência musical, fora dos terreiros, trazendo também os ensinamentos do jazz. Ldson, com total consciência rítmica, se tornou um especialista em uma música com poucos precedentes e sabe como ninguém conectar seu instrumento, o contrabaixo, com as frequências graves dos tambores. Contrabaixista e contrapontista.
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Há décadas falo que temos matéria prima composicional vasta para a música instrumental na cultura da Bahia, apenas não havíamos explorado, nem de longe, esse potencial. Com “Bacia do cobre”, Marcelo e seu grupo dão um passo fundamental nesse sentido, com alta complexidade e beleza. Será um disco de referência. É um acontecimento histórico na nossa música.
Letieres Leite (Setembro/2021)

Capa do disco ‘Bacia do Cobre’ • Marcelo Galter • Selo Rocinante • 2021

Disco ‘Bacia do Cobre’ • Marcelo Galter • Selo Rocinante • 2021
Músicas / compositores
Lado A
1. Cobra coral (Marcelo Galter)
2. Galinha pulando (Marcelo Galter)
3. Capricorniana (Marcelo Galter)
4. Prece (Marcelo Galter)
Lado B
1. Lourimbau (Marcelo Galter)
2. Temporal (Dorival Caymmi)
3. Bacia do cobre (Marcelo Galter)
– ficha técnica –
Marcelo Galter: piano, rhodes, wurlitzer, órgão e korg | Ldson Galter: contrabaixo | Luizinho do Jêje: percussão | Reinaldo Boaventura: percussão | Produzido por Sylvio Fraga e Marcelo Galter | Direção musical: Marcelo Galter | Gravação: Pepê Monnerat e Bráulio Passos no Estúdio Rocinante |Mistura: Bráulio Passos e Pepê Monnerat no Estúdio Rocinante | Masterização: Alexandre Rabaço | Manutenção de equipamentos: Vinicius Crivellaro | Assistência de estúdio: Felipe Duriez | Afinação do piano: Tienes | Produção executiva: Luanda Morena e Nuala Brandão | Projeto gráfico: Ana Rocha | Fotografias: Julio Costantini | Capa – A pintura reproduzida na capa é de Genaro de Carvalho, gentilmente cedida pela Nair de Carvalho, fotografada por Andrew Kemp: Local do parque dos girassóis, 1966 (acrílica sobre cartão – 38 x 46 cm) | Texto contracapa: Letieres Leite | Assessoria de imprensa: Pantim Comunicação / Dayw Vilar e Tathianna Nunes | Selo: Rocinante | Formato: LP vinil / CD Digital | Ano: 2021 | Lançamento: 24 de setembro | ♪Ouça o álbum: Spotify / Deezer / Apple Music / Tidal | ♩Compre o LP/vinil: clique aqui.

Sobre Marcelo Galter
Pirajá, bairro da periferia de Salvador. Lá nasceu e foi criado o pianista, compositor e arranjador Marcelo Galter. Seu convívio com a música da comunidade e um bocado de curiosidade pessoal conduziram-no, adolescente, ao estudo formal de piano e teoria. O mergulho na obra de Bach; as transcrições dos improvisos de Parker, Monk, Miles; a graduação em Piano Erudito pela Universidade Federal da Bahia em 2001; as jam sessions soteropolitanas – tudo isso foi solidificando o apuro técnico que mais adiante o permitiria desenvolver uma linguagem musical inaudita.
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Na primeira década deste século, a jornada do instrumentista foi matizada e ampla: apresentação com a Orquestra Sinfônica da Bahia em comemoração aos 20 anos do Grupo Garagem; com a Orquestra Fina Flor acompanhando Hermeto Pascoal; concerto solo no Festival de Música Instrumental da Bahia; trabalhos com a cantora italiana Maria Pia de Vito e o guitarrista Nelson Veras; gravação do DVD Clássica de Daniela Mercury e ingresso na banda da cantora, com quem excursionou por países diversos; turnê nacional acompanhando Elba Ramalho, Roberta Sá, Paula Lima, Margareth Menezes e, mais uma vez, Daniela no show Elas cantam Chico Buarque; apresentação com o contrabaixista norte-americano Stanley Clarke no Phoenix Jazz Festival etc.
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Mas, para que pudesse unir bagagem prática e arcabouço teórico numa linguagem pianística propriamente afro-baiana, foram determinantes para Galter as passagens pelo grupo Bahia Black do guitarrista Mou Brasil e pelo Letieres Leite Quinteto, formado em 2010.
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Como é sabido, o maestro Letieres abordou as claves rítmicas de matriz africana de modo revolucionário, nos âmbitos criativo e pedagógico. Galter participou desse movimento. Com o Quinteto realizou concertos e workshops no Brasil e no exterior e, finalmente, em 2019, o disco O enigma Lexeu (lançado pela nossa gravadora Rocinante). Aliás, vale mencionar que no mesmo ano, arregimentado pelo maestro, o pianista integrou a banda de Maria Bethânia no show Claros Breus.
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Síntese de toda essa inquietude, Bacia do Cobre, lançado em 2021 pela Rocinante, é o primeiro disco autoral de Galter. Escoltado pelo baixo de seu irmão Ldson e pelas percussões de Luizinho do Jêje e Reinaldo Boaventura, ele amalgama nessa Bacia as claves de matriz africana e os “modos de transposição limitada” (escalas sistematizadas em meados do século XX pelo compositor francês Olivier Messiaen no contexto de uma vanguarda pós-tonal).

Letieres, o mestre, em texto escrito para a contracapa do álbum, não esconde o próprio espanto diante do som do discípulo: “Até onde sei, não há e nem nunca houve o que Marcelo faz”. Ainda observa que “é o piano com sotaques específicos, fazendo uma arte contemporânea ligada umbilicalmente com os sistemas de oralidade e com a metodologia da diáspora.”
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Seria difícil que sotaques especificamente afro-baianos não preponderassem no toque do artista, afinal estamos falando de um instrumentista que também foi membro das bandas de Carlinhos Brown, Jau e Margareth Menezes; e de um arranjador que trabalhou com Margareth em Autêntica e Afropop, com o baterista Tito Oliveira em Magiô, e nos espetáculos comemorativos do Centenário de Caymmi, dos quais participaram Daniela, Danilo Caymmi e Virgínia Rodrigues.
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Bacia do Cobre é o nome da área de proteção ambiental situada no Parque São Bartolomeu, em Salvador, onde resta um pouco de Mata Atlântica. O fato de um álbum assim batizado ser esteticamente ultra-contemporâneo e cosmopolita não faz outra coisa senão confirmar a vocação de universalidade dos muitos “regionalismos” do Brasil – neste caso, o baiano.
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Marcelo Galter disse ao Caderno 2 do jornal A Tarde: “O meu disco surgiu de um desejo de tocar especificamente com um certo grupo de músicos que admiro muito e que tem concepções bastante originais de sonoridade. São pessoas que possuem vivência musical e que nasceram na mesma origem que a minha, com histórias interligadas. Nossa linguagem e afinidade sonora surgem da nossa raiz e do propósito que temos com a música”.

Em 2024, a Rocinante lançou três outros discos em que a marca do músico está impressa:Poemas para Triode Bernardo Ramos (do qual foi co-produtor), Atlântico Negro de Ilessi (em que assina co-produção, arranjos e direção musical) e Mocofaia .
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O primeiro disco do Mocofaia — trio formado por Galter (teclados e voz), Luizinho do Jêje (percussão e voz) e Sylvio Fraga (guitarra e voz) — esbanja pique e alegria em repertório inédito criado a seis mãos.
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Em declaração para a Rolling Stone sobre o trabalho, mais uma vez o pianista nos remete à matriz: “A Bahia aparece como uma influência cultural profunda, algo orgânico e não planejado. Nossa música é uma conexão com o corpo e busca essa expressão verdadeira, que resgata o que há de mais essencial na cultura afro-baiana.”
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Tudo isso nos leva a pensar no tanto de futuros que a velha Bahia guarda.
(fonte: Rocinante)
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> Siga: @marcelo.galter / @rocinantegravadora
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Série: Discografia da Música Brasileira / Memória discográfica / Memória Musical Brasileira /  MPB / Jazz / Música instrumental / Álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske

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