Ailton Krenak faz convocação: “Outros modos de pensar produzem outros mundos”

via portal UFRGS

A partir do tema “Ampliando alianças através da arte indígena”, o escritor, filósofo e ativista convocou a plateia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul a novas atitudes para respostas diferentes aos problemas da humanidade. Atividade integra o projeto Nhexyrõ – artes indígenas em rede

A UFRGS recebeu no Salão de Atos o primeiro representante dos povos indígenas a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL): Ailton Krenak. A aula inaugural foi repleta de convocações para mudanças concretas nos modos de pensar a humanidade e de organizar a sociedade, a partir da cosmovisão dos povos originários. O tema central de debate foi o reconhecimento da arte indígena como força política, cultural e simbólica na construção de alianças e futuros compartilhados. A aula aconteceu por meio de uma parceria com o projeto “Nhexyrõ: artes indígenas em rede” e via Núcleo de Apoio Pedagógico à Educação a Distância (Napead).

Como abertura da atividade, a Cacica Iracema Kaingang realizou um momento inicial de acolhida por meio do rezo indígena. Também participou do momento inicial o cacique guarani Santiago Franco. A produtora cultural Mishta representou o Nhexyrõ na fala inicial do evento. Ela convidou os participantes a ouvirem o podcast já disponível e destacou a importância da presença de Krenak para a atividade. Pela UFRGS, a reitora Marcia Barbosa afirmou que “a aula simboliza a troca que precisa permear o tecido da universidade, para que o conhecimento dos povos originários seja uma nova forma de mudar o mundo”. A aula inaugural teve a mediação do docente da Faculdade de Educação (Faced/UFRGS), Bruno Ferreira Kaingang, primeiro docente indígena da UFRGS. Ele moderou a conferência apresentando algumas perguntas-chave ao convidado.

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Fotos: Pietro Scopel e Amanda Casartelli

Mudança de visão

Ailton Krenak iniciou sua fala confessando estar comovido com a grande presença de pessoas no Salão de Atos. Sobre a arte indígena, ele apontou um processo de reconhecimento da condição nas últimas décadas. Para ele, de forma geral, não se chamava de arte o resultado da sensibilidade e da beleza de povos [originários] de diversos continentes, resumindo a artesanato. Mas a visão tem sido alterada e essa arte tem mostrado, cada vez mais, “a singularidade e a beleza de cada item. Cada um é sonhado e pensado. Não obedece padrão estético e não é um acidente, mas uma obra de arte”, reafirmou.

Ele também afirmou que os povos originários “traduzem seus territórios em arte”. Para o escritor, a arte é um instrumento privilegiado de comunicar-se com o outro, “é uma linguagem da diversidade”. Ele conclui: “Essa arte expande o horizonte das comunidades indígenas e atua como mediador dessa diversidade […], promovendo trocas na diversidade. Facilitando, inclusive, o reconhecimento de outros modos de pensar”.

Além da arte, Krenak falou também de território, da comunicação, da pesquisa acadêmica e dos direitos da população indígena. Para ele, antes do reconhecimento de direitos na Constituição de 1988, a presença de indígenas nas universidades era “algo impensável”, mas foi o caminho de reconhecimento e de resistência contra o pensamento de “integração homogeneizante” que trouxe a cultura indígena aos espaços que ocupa hoje: “Continuaremos lutando pelo direito à vida e à diversidade cultural”, apontou.

No fim de sua fala antes das perguntas da plateia, Krenak fez uma importante convocação: “Outros modos de pensar produzem outros mundos. O mesmo modo de pensar repete este mudando que nós estamos todos achando que precisa mudar. Então, que venham disposição e coragem para que a gente possa ajudar a mudar o mundo”. Durante o diálogo com a plateia, perguntas sobre território foram respondidas. Krenak ressaltou a luta recente, no Pará, contra a drenagem do Rio Tapajós. Ele indicou que, na cosmovisão indígena, o rio é um sujeito de direitos: “Não se pode aviltar o corpo de um rio. Precisamos avançar nos direitos dos outros seres vivos para que possamos evoluir”.

A íntegra da Aula Inaugural pode ser acessada no Canal da UFRGS TV no Youtube


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