Aeroprosa – Carlos Drummond de Andrade

Bom dia, aeromoça! Não sei se devia dizer-lhe, antes: Bom céu! O dia é de todos, e desejá-lo bom não passa de cumprimento. Já o céu é de vocês, de seus amigos aeronautas, e dos pássaros, em condomínio. Dos passageiros o céu não é, que os passageiros levam para o alto seus cuidados terrestres, seu comportamento terrestre, seu terrestre apego a uma existência rastejante. Ah que la vie est quotidienne!, lamentava-se o poeta Jules Laforgue. Ela jamais é cotidiana para vocês, salvo na medida em que, abdicando temporariamente a condição alada, passam de aeromoças a moças, simplesmente. Sei de uma que está fazendo serviço de escritório, proibida de voar por motivo de saúde, e me pergunto que podem significar para ela esses papéis, esses telefonemas, esses recados que circulam num plano de cimento invariável, enquanto, sobre a plataforma de nuvens, suas irmãs caminham, ao mesmo tempo singelas e majestáticas. Não, não vou confrontar essa rapariga com o passarinho na gaiola ou o peixe no aquário. O diretor do jornal espera de seus redatores que escrevam coisas originais, ou que, em circunstâncias extremas, dissimulem a falta de originalidade com um filete de imaginação. Aeromoça na burocracia me dá ideia de um pé de gerânio intimado a viver e florir dentro de um armário fechado; de uma formiga dentro da garrafa; de um marinheiro que vi doente num sanatório, com a mão em pala sobre os olhos, olhando sempre o vale lá embaixo, à espera de que um navio atracasse entre as árvores; este ainda levava o navio consigo, mas o avião está acima do nosso poder de fixá-lo, e foge por hábito; onde quer que andasse, o marinheiro estaria mais ou menos ao nível do seu barco, porém a moça plantada no escritório sabe que a correlação se perdeu, e o zumbido dos motores, que às vezes nos acorda pela madrugada (depois dormimos, sentindo-nos ancorados à terra do colchão), há de ser para ela um adeus enervante e rouco. Saúde, aeromoça exilada entre fichários: é o que lhe desejo sem nenhum convencionalismo de boa educação, mas porque o justo é voltar às nuvens o que às nuvens pertence.
Estou escrevendo essas bobagens meio líricas no pressuposto de que vocês, amigas, adoram viajar e detestam isso aqui embaixo. Bem sei, entretanto, que não se libertaram de todo da contingência, e querem amar ao nível da terra, e ter filhos que olhem de baixo para os aviões. Que vocês têm medo como a gente, há pouco um filme o contava em cinemascope, seja porque não se aperfeiçoou ainda uma nova geração de aeromoças mais do ar que do sangue, ou de sangue supercontrolado, seja porque o medo, como a fome, o instinto amoroso e o sentimento da beleza, constitui prendas inalienáveis da humanidade, e com elas temos de edificar nossa vida, e mesmo nossa coragem. Mas, por outro lado, aeromoça, deixe que eu saúde em sua figurinha o mais belo mito moderno, aquele que as empresas de navegação aérea criaram num instante inspirado de poesia comercial, aquele que acompanha os homens em sua paúra e os impede de se rebaixarem à situação de macacos em pânico; aparição que os cerca de cuidados quase maternos à força de sutileza, ao mesmo tempo impessoais na sua cortesia planificada; companhia com que sonhamos os mais soberbos e aventurosos romances mentais, no momento em que precisamos urgentemente de uma cota de romance; enfim, peça insubstituível do avião e da ideia de viagem aérea, que torna, com sua ausência, tão cacetes os voos onde só há comissários de bordo; peça, que digo? alma do avião, e seu quinto motor inefável e humanizante.
Bom céu, aeromoça. O céu não tem estado bom nesses últimos dias, e se isso explica o atraso dos aviões, pode explicar também o atraso com que festejo o seu dia 31 de maio. Chove, e há gripe por todos os lados. Não houve propriamente maio, e sim um composto de águas barrentas, tosse, febre e candidaturas. Que o céu clareie e possamos festejar melhor a sua data. E como, afinal de contas, esta é uma página séria, terminarei desejando que lhe deem, no espaço, cada vez maior segurança de voo; e, na terra inflacionada, melhor salário. Você bem o merece, aeromito, aeromusa.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.

SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - Aeroprosa - Carlos Drummond de Andrade
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.

FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
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