“A vida é boa. Saber viver é a grande sabedoria.” – Cora Coralina

Cora Coralina – poema
.
Recados de Aninha – I
Meu jovem, a vida é boa, e você cantando o cântico
da mocidade pode fazê-la melhor. E o melhor da vida é o trabalho.
No trabalho está a poesia e o ideal, assim possa sentir o poeta.
Só o trabalhador sabe do mistério de uma semente germinando na terra.
Só o cavador pode ver a cor verde se tornar azul.
.
Ele, na flor, já viu o fruto e no fruto prevê a semente.
E sabe que uma cana de milho, uma braçada de folhas e palhas
na terra é vida que se renova.
Que sabe você, jovem poeta, da fala das sementes?
Um poeta parnasiano do passado, conversava com as estrelas,
foi coisa linda no tempo.
.
Converse, você, poeta destes tempos novos,
converse com as sementes e as folhas caídas
que pisa distraído.
Você vai sobre rodas e caminha sobre vidas que o asfalto recobriu.
Quem fala essa mensagem é uma mulher muito antiga
que entende a fala e a vida de um monte de lixo
que vê da janela da Casa Velha da Ponte, lá do outro lado do rio,
nos reinos da minha cidade.

A vida é boa. Saber viver é a grande sabedoria.
Saber viver é dar maior dignidade ao trabalho.
Fazer bem feito tudo que houver de ser feito.
Seja bordar um painel em fios de seda ou lavar
uma panela coscorenta. Todo trabalho é digno de ser bem feito.

Coisa sagrada o trabalho do homem.
A dignidade de um profissional.
A seriedade de um operário, sua competência.
Respeito maior o trabalho obscuro do braçal,
identificado com a terra, com a semente, com a chuva,
com o paiol, com o rego d’água.
Coisa mais nobre a porteira do sítio,
o batente da casa, o banco rústico, a mesa coberta
com uma toalha de tear. A taipa doméstica, rebrilhante
e acesa. Coisa mais urgente? A presença do homem na casa.
Homem culto da cidade,
num encontro com o da roça com sua enxada ao ombro,
ceda a ele sua preferência. Ele tem obrigação que você desconhece.
Você veste e se alimenta da semente que ele aninha na terra.
Você é um cidadão, ele é um lavrador.

– Cora Coralina, no livro “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”. Global Editora, 2024.

***

“Na minha alma, hoje, também corre um rio, um longo e silencioso rio de lágrimas que meus olhos fiaram uma a uma e que há de ir subindo, subindo sempre, até afogar e submergir na tua profundez sombria a intensidade da minha dor!…”
– Cora Coralina, em trecho do poema “Rio Vermelho”, do livro “Villa Boa de Goyaz. São Paulo: Global Editora, 2001, p. 103.

***

SOBRE O LIVRO
Em Cora Coralina estão as raízes de todos nós. Sua poesia constrói-se na tradição que vem dos tempos passados em busca da afirmação futura. Seu Vintém de Cobre é ouro.
Quase memórias, ou meias confissões como a autora prefere, Vintém de cobre reúne poemas ricos de experiência humana, escritos em tom simples e comunicativo, no lirismo quase de toada sertaneja, peculiar a Cora Coralina. Chamados de vintém de cobre, por malícia, são na realidade puras e autênticas moedas de ouro.
A obra de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (1889-1985), nome de batismo da autora, é um dos marcos recentes de nossa literatura.
Nascida em Goiás, em 1889, Cora teve uma trajetória literária peculiar. Embora escrevesse desde moça, tinha 76 anos quando seu primeiro livro foi publicado, e quase noventa quando sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade, responsável por sua apresentação ao mercado nacional. Desde então, sua literatura vem conquistando crítica e público.
Cora Coralina não se filiou a nenhuma corrente literária. Com um estilo pessoal, foi poeta e uma grande contadora de histórias e coisas de sua terra. O cotidiano, os causos, a velha Goiás, as inquietações humanas são temas constantes em sua obra, considerada por vários autores um registro histórico-social do século XX.

FICHA TÉCNICA
Título: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha
Páginas: 240
Formato: 23 x 1 x 16 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 25/11/2024 (11ª edição)
ISBN: 978-6556125107
Selo: Global
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.

***

Saiba mais sobre Cora Coralina:
:: Cora Coralina – venho do século passado e trago comigo todas as idades
:: Cora Coralina (outros poemas)

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Livro de Jorge Davidson conta 30 anos de sucesso fonográficos

Livro do produtor Jorge Davidson revela os bastidores de sua experiência de três décadas na…

18 horas ago

Livro sobre 100 filmes brasileiros essenciais será lançado na Mostra de Cinema em São Paulo

Publicação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema terá sessão de autógrafos no Solar Fábio…

22 horas ago

Mu Carvalho lança autobiografia na livraria Argumento, no Rio de Janeiro

Em Memórias Sintetizadas, Mu Carvalho revisita momentos históricos nos palcos, casos de bastidores e viagens.…

1 dia ago

Orquestra Petrobras Sinfônica e MPB4 lançam o álbum “MPB4 Sinfônico” no Teatro Riachuelo Rio

Sob regência do maestro Felipe Prazeres, o concerto reúne clássicos de Chico Buarque, Tom Jobim,…

1 dia ago

Milton Guedes traz de volta ao Rio o espetáculo ‘Milton Canta Lulu’

Após estreia com ingressos esgotados, show em homenagem a Lulu Santos volta ao Teatro Claro…

1 dia ago

Ocean Alley faz show no Rio promovido pelo Queremos!

Em seu retorno ao Brasil, banda australiana se apresenta no Rio de Janeiro pela primeira…

1 dia ago