“O futebol é uma arte.”
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Poucos meses antes da Copa do México, em 1970, o alagoano e então técnico da seleção Mario Jorge Lobo Zagallo foi entrevistado pela escritora Clarice Lispector.
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– Sendo você bicampeão mundial e bicampeão carioca, Zagallo, eu, se dependesse de mim, escolheria você para técnico da seleção brasileira.
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– Olhe só aqui meu braço – mostrou-me ele, e de fato os pelos estavam eriçados, e ele riu como uma criança simples – olhe só meu braço e veja como fico arrepiado: se eu pudesse retornar a jogar queria que o final da Copa fosse já. Porque só assim poderia reviver a nossa chegada triunfal ao Brasil e sentir de novo uma emoção inteiramente diferente causada pela grande receptividade do povo brasileiro como senti então. O povo estava fora de si, todos pareciam ter tomado “bolinha”…
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Zagallo é moço, fino de corpo, as pernas não são deformadas por uma musculatura violenta, como as de certos jogadores profissionais, é meio alourado. É o tipo do bom rapaz e do bom colega. Senti-o logo que me apresentei a ele e disse-lhe em que trabalhava. A partir desse momento, ele me chamou sempre de “você” e me tratou como se trata um colega de trabalho, trabalhos diferentes, mas trabalho. Estávamos sentados no banco do jardim do Botafogo conversando às pressas porque o treino já ia começar: fazia vento, as folhas das árvores do inverno caíam sabre nós, minhas folhas de papel para anotações voavam, Zagallo ria e ajudava-me a apanhá-las, enquanto minha simpatia se transformava em ternura pelo nosso povo, que Zagallo representava naquele momento.
– Zagallo, qual seria a melhor tática, o melhor sistema para o selecionado brasileiro na próxima Copa?
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– Se nós formos vencidos pelos europeus de um modo geral, teremos que usar a mesma tática que eles porque o nosso material humano é o melhor do mundo, e isto dito sem ser por patriotismo. Você tem viajado muito?
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– Eu era esposa de diplomata e por isso não só viajei muito como morei em inúmeros países do mundo. E como você, acho, sem ser isso dito apenas por patriotismo, que de um modo geral não ficamos atrás de ninguém porque temos de fato um grande material humano. O Brasil poderia ser uma beleza de país. Bem, mas voltando a você, Zagallo, a diferença entre quem escreve como eu e um desportista e atleta como você é que você é obrigado a parar mais cedo. Isso dá muita tristeza?
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– Dá, sim, porque o nosso futuro é sempre imprevisível, sendo a nossa vida de esporte tão limitada como é. Não há garantias e isso nos tira a tranquilidade. O atleta tem que aproveitar o máximo num mínimo de tempo (nós também, Zagallo, a vida é breve para uma arte tão longa). E assim mesmo ele tem que ser bafejado pela sorte (nós também, colega). Esta conclusão podemos tirar porque o número de jogadores é imenso e poucos atingem uma situação econômica que lhes garanta o futuro. (Nós, com a clássica exceção de Jorge Amado e Erico Verissimo, não podemos nos sustentar escrevendo livros.)[1]
– Você agora treina meu clube, que é o Botafogo, mas não me diga que isto compensa a possibilidade de fazer gols como você fazia.
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– A responsabilidade agora é bem maior porque não dependo mais do meu próprio esforço: dependo de minha capacidade de direção e do esforço dos jogadores dentro do campo. É o mesmo que sair de um lugar de simples funcionário para ocupar um lugar de chefia.
– Pergunto-lhe: o futebol é a coisa mais importante de sua vida?
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– A coisa mais importante na minha vida é a minha família. Sou casado e tenho quatro filhos.
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– Você escolheu o futebol ou calhou ser um craque?
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– Não, foi o destino. Eu estudava – formei-me em contador – e praticava esporte porque gostava, e até isso era contra a vontade de meus pais. Depois eles aceitaram que eu jogasse. E foi bom porque assim criei minha independência financeira. Lamento muito apenas isso: não ter continuado a estudar e assim ter mais cultura. Mas o ritmo de vida impediu.
– Você tem tempo de ler? E o que lê você?
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– O tempo é curto para leituras. Só leio jornais e revistas para estar a par da situação da vida. Mas para livro não tenho tempo.
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– Você é de origem espanhola?
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– Meus pais são brasileiros, mas minha árvore genealógica – é assim que se diz? – nos leva à Itália. Meus avós já eram brasileiros. Nasci em Maceió, em 9 de agosto de 1931, sendo que vim para o Rio com oito meses de idade.
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– Qual é a coisa que você mais deseja atualmente?
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– É continuar a ter saúde porque sem ela não se faz nada.
– Como é que você encara o futebol, como arte, como expressão individual?
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– O futebol é um dom, como o seu de escrever, porque ninguém pode ensinar a jogar futebol, pode apenas aprimorar as suas vocações. É um dom divino como para um cantor, como para um escritor. E, ao mesmo tempo, aliado ao dom divino, não deixa de ser uma arte.
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– Qual é o santo de sua devoção?
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– Santo Antônio, e o seu?
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– Nos momentos difíceis, Zagallo, eu me agarro a Santo Antônio, Santa Rita de Cássia e São Judas Tadeu.
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– Você está satisfeita como escritora?
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– Não, mas é o que melhor sei fazer. O que é que você acha de Pelé e Garrincha?
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– São jogadores excepcionais.
– Você também é um jogador excepcional. Disseram-me que no campo você é uma beleza de se ver jogar.
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– Agradeço a sua bondade. E respondo ainda àquela sua outra pergunta: se de fato fosse chamado para a seleção, não fugiria da responsabilidade porque eu venci no futebol debaixo de muita luta e sacrifício. E, como técnico de futebol é uma função espinhosa, principalmente técnico de seleção brasileira, se eu fosse chamado, estaria mais uma vez servindo a minha pátria. Que é que você acha, como escritora, do ambiente dos Estados Unidos, principalmente essa perseguição à família Kennedy?
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– Acho, Zagallo, que não é simples coincidência ou azar: há políticos que pagaram os assassinos para matar. Porque nos Estados Unidos é enorme o número de antidemocratas. Em certo sentido, os Estados Unidos estão mais atrasados que nós: lembre-se do problema dos negros naquela terra que se supõe ser democrática. Zagallo, qual é a coisa mais importante para você?
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– A paz. (Para mim também, mas depende de paz baseada em que termos. Por exemplo, não quero a paz da Espanha debaixo das botas de Franco.)
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– Qual é a coisa mais importante para você como pessoa?
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Zagallo ficou muito pensativo. Seu rosto demonstrava o esforço mais bonito do homem: o esforço de pensar e de se autoconhecer. Senti que estava sendo doloroso para ele escolher e que ele achava importante escolher. Finalmente disse:
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– É não desejar mal ao próximo.
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Mas tenho certeza de que ele quis dizer outra coisa. Junto à sua expressão fisionômica, de repente sublimizada, traduzo o que ele quis dizer: amar ao próximo como a si mesmo.
– O que é o amor, Zagallo?
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É provável que ele, como a maioria das pessoas, nunca tenha parado o movimento de vida para reflexionar sobre a vida, e sobretudo para se fazer essa pergunta capital: o que é o amor? Ficamos em silêncio, apesar da pressa, pois Zagallo já tinha sido chamado várias vezes avisado que os jogadores estavam em campo esperando por ele. Mas o clima entre nós era de paciência. Afinal ele disse, e seu rosto ficou muito bonito quando disse:
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– É um sentimento recíproco.
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Depois pareceu aliviado de ter enfim definido o indefinível, animou-se mais e me perguntou:
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– O que é que você acha dessa agitação dos estudantes no mundo inteiro?
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– Os estudantes, que estão nascendo para a vida, não querem mais o mundo apodrecido em que vivemos. Suponho que eles querem uma humanidade mais igualada por um socialismo adequado a cada país – eu não disse comunismo, que é outra forma de ditadura –, querem um mundo em que viver seja mais do que pedir pão emprestado, do que trabalhar e mal ganhar para viver, um mundo do amor mais livre entre os jovens. Os estudantes querem, em combinação com os homens e mulheres mais experimentados e inteligentes, liderar o mundo de amanhã, que já é deles.
Manchete, nº 847, 13 de julho de 1968
Jornal do Brasil, 28 de março de 1970
[1] Na crônica “Zagallo”, no Jornal do Brasil (28 de março de 1970), Clarice utiliza o exemplo de José Mauro de Vasconcelos em vez de Erico Verissimo.
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[Mário Jorge Lobo] ZAGALLO (1931-2024)
Jogador e treinador. Um ícone da história do futebol brasileiro, detendo o recorde de títulos da Copa do Mundo da FIFA, dentro e fora do campo. Como jogador, integrou a seleção brasileira vitoriosa nas Copas de 1958 e 1962. Em 1970 foi tricampeão mundial no México como treinador. Como supervisor, foi tetracampeão mundial em 1994 nos Estados Unidos.
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Como treinador, começou no Botafogo e passou pelo Flamengo e pelo Vasco, treinando também a seleção do Kuwait e a seleção da Arábia Saudita. Classificou os árabes para as Olimpíadas de Montreal. Ainda foi treinador nos Emirados Árabes e classificou esta seleção para o Mundial de 1990 na Itália. Dois anos depois, foi agraciado com a Ordem do Mérito da FIFA por suas múltiplas contribuições para o futebol. Em 2013, foi eleito, pela Soccer Magazine, o nono melhor técnico do mundo em todos os tempos.
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No livro “Clarice Lispector entrevista: grandes personalidades entrevistadas por Clarice Lispector“. [organização Claire Williams; preparação de originais e notas biográficas Teresa Montero]. Rocco, 2015.
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SOBRE O LIVRO 
Múltipla e sempre surpreendente, Clarice Lispector desenvolveu intensa atividade como jornalista, em paralelo à sua produção literária de romances, contos, crônicas e livros infantis. Polifônica e versátil, Clarice soube fazer com que algumas das mais importantes personalidades do cenário nacional – e algumas estrangeiras – abrissem seus corações e mentes em entrevistas reveladoras. Escritores, músicos, dramaturgos, artistas de teatro, do cinema e da TV, cientistas, professores, políticos, atletas, sambistas, jogadores de futebol e até mesmo duas primeiras-damas estão retratados nesta coletânea que apresenta 83 conversas francas com Clarice, 35 delas inéditas em livro.
Organizado pela renomada especialista na obra de Clarice Lispector, a professora Claire Williams, da Universidade de Oxford, Clarice Lispector entrevista oferece uma nova e reveladora perspectiva sobre figuras emblemáticas do Brasil moderno, enquanto traz à tona nuances da própria Clarice que permaneciam pouco exploradas em seus escritos.
FICHA TÉCNICA
Título: Clarice Lispector entrevista: grandes personalidades entrevistadas por Clarice Lispector
Páginas: 420
Formato: 16 x 3 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 31/10/2024
ISBN: 978-6555324846
Selo: Rocco
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