O chamado – uma crônica de Carlos Drummond de Andrade

Estava no trabalho quando o telefone avisou: tinha de viajar imediatamente. Alguém, longe, morrera de súbito, e era preciso tomar o primeiro avião de carreira, depois alugar um táxi-aéreo a tempo de assistir ao sepultamento.
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Assim, pois, a notícia sempre esperada, como se espera, sem se desejar, alguma coisa inevitável, chegara justamente num dia em que, repousando de tão constante cuidado, o coração nada prevenira, ele que tantas vezes dera rebate falso. Se acordava pela madrugada, sem querer, ficava perguntando a si mesmo quando viria o chamado.

Em reuniões festivas, de repente, parecia-lhe que o fato, sem o chamado, acontecera, e estava perdendo um tempo precioso à espera de que o segundo revelasse o primeiro. A razão reagia contra pressentimentos, e logo vinha uma carta dando notícias de saúde, mas através dessas notícias filtrava-se a inquietação já habitual: até quando? Sabia que, no fundo de sua vida, uma viagem apressada se elaborava, e nem mesmo podia tranquilizar-se com a esperança de que chegaria a tempo de ver se cerrarem os olhos, e recolher, se não uma palavra, pelo menos um sinal fugitivo, que condensa muitas coisas. Bastava que no dia baixasse a névoa seca, e os aviões ficassem pousados, para que fosse impossível estabelecer esse contato último.
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Viver numa grande cidade é quase sempre estar longe. Não podemos reunir os objetos e as pessoas, e grosseiramente preferimos os objetos. Deixamos na terra natal, além de recordações plantadas no ar, pessoas de saúde frágil e idade avançada, às quais prometemos que nossa visita não vai demorar e se repetirá a qualquer pretexto. Mesquinhas ocupações, cansaço, displicência, tédio de viajar por lugares muito sabidos, cisma de avião, tudo isso e mil pequenos motivos nos afastam de nossa promessa. Acabamos apenas escrevendo cartas. Cartas, cartas! Repetem mecanicamente um carinho que devia ser cálido e físico, carregam abstrações, sombra de beijos, não beijos. E chega um dia em que já não recebemos cartas em resposta às que continuamos a mandar. As pessoas distantes atingiram essa altura desolada em que papel e tinta nada significam: a mão já não pode traçar aquelas linhas sempre as mesmas, e a comunicação se faz por intermediários, a uma distância cada vez maior, porque temos de interpretar a nuança de uma intenção, onde há apenas recado de terceiro.

E um dia vem o chamado urgente: é preciso deixar tudo e ir na direção de um corpo, apenas um corpo, que representa tão pouco da antiga combinação viva de semblante e memórias, um rosto que alguns se recusam a desvendar, porque iria superpor-se a outra imagem iluminada, que nem o tempo adulterara e que, mesmo, poliu e repoliu com requinte de ourives. Assim, pagamos com uma viagem precipitada o preço de muitas viagens que não fizemos e que instilam em nossa saudade uma coloração de remorso.
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Mas a palavra é tão dura que custa jogá-la aqui, sem maior disquisição. Remorso do que apenas deixamos de fazer, quando poderíamos ter feito? Do mal que a nós mesmos nos infligimos, reduzindo nosso amor ao limite do possível? Sim, deve ser isso: todos os pecados se resumem na ausência ou na redução do amor a um sentimento adaptável às circunstâncias, e que pode esperar, quando ele é por natureza o insofrido, o insaciável, o exigente devorador. Contudo, não nos julguemos mais omissos do que realmente fomos. Esse “podia-ter-sido-diferente” ainda é amor, sobrevivendo a omissões.
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A todo instante, numa cidade como o Rio, pessoas são convidadas a tomar o primeiro avião. Gostaria de consolá-las, explicando-lhes que é possível guardar dentro de nós aquilo que perdemos no espaço.
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— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.

SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - O chamado - uma crônica de Carlos Drummond de Andrade
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.

FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
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